Nº 7409 de dezembro de 202041:17efeméride
1640 e a restauração da independência de Portugal
O episódio analisa a Restauração da Independência de 1 de Dezembro de 1640, desmistificando a narrativa oitocentista do "cativeiro espanhol". Rui Ramos explica que Portugal manteve-se reino independente durante a União Ibérica (1580-1640), apenas partilhando o monarca com Espanha, e que a revolta de 1640 resultou da violação dos pactos constitucionais pelos Habsburgos, não de sentimentos nacionalistas. O episódio aborda também a Reforma Protestante, explicando como as divergências teológicas de Lutero se transformaram em conflitos políticos entre as superpotências europeias do século XVI.
Ideias principais
- O feriado de 1 de Dezembro é uma invenção do século XIX, criado pelos liberais monárquicos para promover a dinastia de Bragança e contrariar o projeto republicano de uma Federação Ibérica.
- Portugal nunca foi conquistado ou ocupado por Espanha entre 1580-1640: manteve-se reino independente, com leis próprias e governado exclusivamente por portugueses, partilhando apenas o monarca com os outros reinos da monarquia dos Habsburgos.
- A Restauração de 1640 foi motivada por razões jurídicas e constitucionais, não nacionalistas: os restauradores argumentavam violação do pacto de Filipe II e direitos dinásticos do Duque de Bragança, não invocavam sentimentos nacionais.
- O sucesso da revolta dependeu do declínio do poder dos Habsburgos na Europa e da Revolução da Catalunha, que desviou recursos militares espanhóis durante mais de 20 anos, impedindo uma resposta militar eficaz contra Portugal.
- A Reforma Protestante, iniciada com as 95 teses de Lutero em 1517, não visava a secularização mas o regresso às origens do cristianismo, e as guerras de religião foram simultaneamente conflitos teológicos e lutas pelo domínio político da Europa entre Habsburgos e França.
Resumo do episódio
O episódio 74 de *E o Resto é História* divide-se em dois grandes temas: a Restauração portuguesa de 1640 e a Reforma Protestante de Lutero. Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta aparentemente simples — por que razão Portugal continua a celebrar o 1.º de dezembro, uma data do século XVII, quando nem a fundação do reino nem o surgimento da dinastia de Avis merecem feriado equivalente? A resposta, segundo Rui Ramos, está no século XIX: o culto do 1.º de dezembro foi essencialmente uma construção política oitocentista, impulsionada pela Associação 1.º de Dezembro, fundada em 1861, precisamente quando a Europa debatia as unificações italiana e alemã e quando alguns setores republicanos propunham uma Federação Ibérica. Os liberais monárquicos responderam cultivando a memória da Restauração para defender a dinastia de Bragança e rejeitar a integração ibérica. Criou-se então a narrativa do "cativeiro espanhol", comparando Portugal entre 1580 e 1640 à Polónia ou à Irlanda sob domínio estrangeiro. O feriado do século XVII era, no fundo, uma ideia do século XIX.
Os apresentadores sublinham que essa narrativa não corresponde à realidade histórica. Portugal manteve sempre a sua condição de reino independente com administração própria: os altos cargos eram reservados a portugueses, as leis portuguesas vigoravam, e o território era governado pelo Conselho de Portugal, composto exclusivamente por naturais do reino. O que houve entre 1580 e 1640 foi uma união dinástica — o mesmo rei reinava sobre vários reinos com estatutos distintos — e não uma conquista ou ocupação. A intervenção do Duque de Alba em 1580 fora considerada uma operação para pôr fim a uma rebelião, não uma conquista territorial.
O golpe de 1.º de dezembro de 1640 foi obra de cerca de setenta fidalgos de famílias secundárias que invadiram o Palácio do Governo em Lisboa, mataram o secretário Miguel de Vasconcelos e prenderam a vice-rainha, a duquesa de Mântua, aclamando de seguida o duque de Bragança como D. João IV. As justificações invocadas eram jurídicas e constitucionais — os Habsburgos, sob a influência do conde-duque de Olivares, estavam a violar o pacto das Cortes de Tomar de 1581 ao exigir impostos e recrutas militares em termos não acordados —, e não argumentos de carácter nacionalista, conceito alheio à mentalidade política do século XVII. O reino aceitou D. João IV em poucas semanas e de forma quase inteiramente pacífica. O êxito da Restauração explica-se ainda por um conjunto de fatores externos favoráveis: o declínio do poder dos Habsburgos, a revolta simultânea da Catalunha que absorveu os recursos militares de Madrid durante mais de duas décadas, o apoio diplomático da França e, mais tarde, de tropas inglesas, e a capacidade financeira proporcionada pelo Brasil. Os fidalgos que protagonizaram o golpe tornaram-se a nova elite dirigente do reino, o que os tornava os maiores interessados em sustentar a independência — e durante cerca de duzentos anos foram essas quarenta famílias, aliadas aos Braganças, a governar Portugal.
Na segunda parte do episódio, os apresentadores abordam Martinho Lutero por ocasião dos 500 anos da queima pública da bula papal *Exsurge Domine*, em dezembro de 1520. Rui Ramos esclarece que o objetivo de Lutero não era fundar a modernidade secular, mas antes regressar às origens do cristianismo, rejeitando o sistema de indulgências como uma invenção clerical que substituía a vivência pessoal da fé pela compra da salvação. A questão central é perceber por que razão esta reforma, ao contrário de tantas outras tentativas anteriores, não foi nem absorvida pela Igreja nem eliminada. A resposta está na dimensão política: vários príncipes territoriais do Sacro Império Romano-Germânico adotaram o luteranismo como forma de resistir à crescente concentração de poder do imperador Carlos V, ele próprio rei de Espanha e senhor das Américas. O rei de França, por sua vez, perseguia os protestantes nos seus domínios mas apoiava os príncipes luteranos alemães para travar o poder imperial. As chamadas guerras de religião foram simultaneamente guerras pela hegemonia europeia, e a solução encontrada após a Guerra dos Trinta Anos foi pragmática: cada súbdito seguiria a religião do seu príncipe. A religião funcionava, antes de qualquer identidade nacional, como cimento político dos Estados, tanto para Filipe II como para os príncipes protestantes do Norte.
Personagens
- D. Sebastião
- Duque de Alba
- Filipe II de Espanha
- Filipe IV de Espanha
- D. João IV
- Duquesa de Mantua
- Miguel de Vasconcelos
- Conde-Duque de Olivares
- D. Afonso Henriques
- General Junot
- Napoleão Bonaparte
- Frei António Brandão
- Carlos I de Inglaterra
- Oliver Cromwell
- Carlos II de Inglaterra
- D. João José de Áustria
- Marquês de Santa Cruz
- Padre António Vieira
- Martinho Lutero
- Papa Leão X
- São Francisco de Assis
- Carlos V (imperador)
- Jean Calvin
Lugares
Épocas
- século XVII
- século XIX
- século XX
- século XIV
- século XIII
- século XVI
- Estado Novo
- Idade Média
Temas
- independência
- restauração
- dinastia
- monarquia
- guerra
- revolução
- religião
- reforma protestante
- diplomacia
- colonialismo
- nacionalismo
- constitucionalismo
Eventos
- Restauração da Independência
- 1 de Dezembro de 1640
- União Ibérica
- Cortes de Tomar
- Batalha de Montijo
- Revolução Inglesa
- Fronda
- Unificação italiana
- Unificação alemã
- Saque de Roma
- Guerra dos Trinta Anos
- 95 Teses de Lutero
Guerras e conflitos
- Guerra da Restauração
- Revolução da Catalunha
- Guerra dos Trinta Anos
- Guerras de religião
Livros citados
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