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Nº 10804 de agosto de 202153:38efeméride

1921: a ascensão de Hitler a líder do Partido Nazi

O episódio analisa a ascensão de Adolf Hitler à liderança do Partido Nazi em julho de 1921, argumentando que nessa altura era apenas um líder de um partido regional minúsculo em Munique, cuja chegada ao poder em 1933 não era de modo algum inevitável. A segunda metade do episódio responde a uma pergunta de ouvinte sobre as relações entre Portugal e Japão nos séculos XVI-XVII, explorando o papel dos missionários jesuítas e o comércio português até à expulsão e perseguição cristã no Japão.

Ideias principais

  1. Hitler em 1921 liderava um partido regional minúsculo na Baviera com poucos milhares de militantes, sem perspectiva clara de chegar ao poder nacional, o que só aconteceu devido a circunstâncias imprevisíveis como a Grande Depressão de 1929.
  2. O fascismo e o nacional-socialismo representavam uma fórmula política inovadora que unia socialismo e nacionalismo, prometendo revolução social sem a esquerda tradicional, copiando o modelo de Mussolini em Itália.
  3. A ascensão eleitoral vertiginosa do Partido Nazi ocorreu apenas entre 1930-1932 (de 2,6% para 37,3%), mas já em novembro de 1932 o partido estava em declínio, tornando a tomada do poder em janeiro de 1933 uma última oportunidade inesperada.
  4. Os portugueses foram os primeiros europeus no Japão (1543) e criaram a maior comunidade cristã fora da Europa não sujeita a poder europeu, com cerca de 300 mil católicos convertidos principalmente através da estratégia jesuíta de converter senhores feudais.
  5. Após a expulsão dos missionários e brutal perseguição no século XVII, comunidades cristãs secretas mantiveram tradições, orações em latim e português durante mais de 200 anos, sendo redescobertos por missionários franceses em 1865.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma data precisa — 29 de julho de 1921 — para explorar quem era Adolf Hitler no momento em que assumiu a liderança do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, substituindo o seu fundador Anton Drexler. A pergunta de fundo é deliberadamente desafiante: o que é que sabemos realmente sobre este Hitler inicial, antes de se tornar o ditador que todos conhecemos? Ramos adverte logo para uma armadilha historiográfica comum — a de olhar para o Hitler de 1921 já contaminados pelo conhecimento do Hitler de 1933 e de 1939, distorcendo tanto as fontes memorialísticas como a nossa própria leitura das circunstâncias.

O partido que Hitler passa a liderar é, em 1921, uma organização minúscula e estritamente regional, confinada à Baviera e à cidade de Munique, com apenas alguns milhares de militantes. O próprio Hitler entrara nele como informador dos serviços militares e só gradualmente se afirmara como orador. Os apresentadores sublinham que, à luz do que era então, nada sugeria uma trajetória para o poder nacional. O próprio Hitler reconhecia isso e apresentava-se publicamente não como o líder que a Alemanha esperava, mas como uma espécie de precursor — o São João Batista de um futuro grande chefe. Esta modéstia táctica coexistia, porém, com uma personalidade que os historiadores não devem subestimar: Ramos defende que tratá-lo como um medíocre falhado intelectualmente impede de compreender o impacto real que exerceu sobre os que o rodeavam.

O episódio contextualiza o caldo político em que este movimento emerge: a Alemanha saída humilhada da Primeira Guerra Mundial, sujeita ao Tratado de Versalhes, despojada de territórios, com um exército reduzido a menos de cem mil homens, e mergulhada numa inflação galopante que arruinava classes médias e trabalhadores. É neste ambiente que prospera a fórmula ideológica que Hitler partilha com Mussolini — a conjugação de socialismo e nacionalismo, aquilo que um historiador francês chamou "a revolução sem a esquerda": uma promessa de transformação radical que não vem da tradição internacionalista marxista, mas que apela simultaneamente aos trabalhadores e à nação.

A ascensão não foi, porém, linear nem inevitável. Os apresentadores percorrem os dados eleitorais para demonstrar a sua precariedade: em 1925, o apoio do partido ao general Ludendorff nas presidenciais rende apenas 1,1% dos votos; em 1928, nas legislativas, o partido obtém 2,6% e doze deputados em 491. É só com a Grande Depressão, após a queda da Bolsa de Nova Iorque em 1929 e a consequente retirada dos empréstimos americanos à Alemanha, que o apoio explode: 18,3% em 1930, 37,3% em julho de 1932. Mas mesmo nessa maré cheia, o declínio recomeça em novembro de 1932, quando o partido perde quase dois milhões de votos — deixando Goebbels desesperado com a ideia de que o que viera depressa podia ir-se também depressa.

A chegada ao poder em janeiro de 1933 resulta, assim, de uma série de contingências políticas: a incapacidade de formar governo parlamentar sem apoio nazi, as rivalidades entre os conselheiros do presidente Hindenburg, e a recusa surpreendente de Hitler em aceitar ministérios em troca de apoio, insistindo em ser ele próprio chanceler — uma aposta que os seus colaboradores consideraram suicida e que acabou por resultar. Ramos conclui com uma observação central: a ascensão de Hitler não estava determinada pelas condições históricas. Havia terreno fértil para um demagogo, mas a chegada ao poder dependeu de uma cadeia de acontecimentos improváveis — algo que o próprio Hitler reconhecia em 1944-45, quando usava a improbabilidade de 1921 como argumento para convencer Goebbels de que ainda podia haver uma reviravolta na guerra.

Personagens

Lugares

Épocas

  • década de 1920
  • década de 1930
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • República de Weimar
  • século XVI
  • século XVII
  • século XIX

Temas

  • ascensão do nazismo
  • nacional-socialismo
  • antissemitismo
  • fascismo
  • inflação
  • Grande Depressão
  • evangelização
  • missionação
  • comércio
  • perseguição religiosa
  • cristianismo secreto

Eventos

  • Tratado de Versalhes
  • Queda da Bolsa de Nova Iorque (1929)
  • Putsch de Munique (1923)
  • Jogos Olímpicos de Tóquio

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial

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