Nº 16324 de agosto de 202252:54efeméride
A batalha de Estalinegrado começou há 80 anos
A batalha de Stalingrado (agosto 1942 - fevereiro 1943) foi uma das mais decisivas da Segunda Guerra Mundial, resultando em dois milhões de baixas e na destruição das melhores unidades nazis. Rui Ramos explica como a obsessão de Hitler pela conquista da cidade se deveu não apenas ao simbolismo do nome de Stalin, mas sobretudo à necessidade estratégica de proteger o avanço alemão ao Cáucaso e aos campos petrolíferos. A derrota alemã marcou o momento em que se tornou claro que a Alemanha não iria vencer a guerra no Leste, transformando o conflito numa guerra de desgaste que favorecia os Aliados.
Ideias principais
- A batalha de Stalingrado resultou de decisões encadeadas: após falhar em derrotar a URSS em 1941, Hitler voltou ao plano original de conquistar regiões produtoras de recursos no sul da Rússia, sendo Stalingrado estratégica para proteger o avanço ao Cáucaso petrolífero.
- Hitler recusou ordenar a retirada do 6º Exército cercado porque a experiência de Dezembro de 1941 o convencera de que ordens de 'não recuar' salvavam exércitos, e porque abandonar Stalingrado exporia o exército no Cáucaso - não havia boa opção militar.
- Apesar da vitória soviética propagandística, os soviéticos perderam mais homens (1 milhão) que os alemães (400 mil) em Stalingrado, mas a URSS podia repor as perdas enquanto a Alemanha não - a guerra tornara-se de desgaste, favorecendo quem tinha mais recursos.
- Dos 105 mil soldados alemães capturados em Stalingrado, apenas 5 mil sobreviveram aos campos soviéticos e regressaram à Alemanha em 1955, dez anos depois - os prisioneiros de guerra alemães eram tão maltratados na URSS como os soviéticos na Alemanha.
- Após Stalingrado, Hitler e Goebbels lançaram a doutrina da 'guerra total', mobilizando toda a sociedade alemã e criando a narrativa de resistência até ao último homem para aumentar o custo de uma vitória aliada, estratégia que manteve a Alemanha a lutar até Maio de 1945.
Resumo do episódio
O episódio 163 de *E o Resto é História* é dedicado à batalha de Estalinegrado, que os apresentadores consideram provavelmente a mais decisiva da Segunda Guerra Mundial. A conversa parte de uma pergunta essencial: por que razão Hitler insistiu obstinadamente na conquista da cidade, recusando retirar mesmo quando a situação se tornava catastrófica, e o que explica a extensão das baixas — cerca de dois milhões entre alemães e soviéticos ao longo de aproximadamente cinco meses de combates, entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943?
Rui Ramos começa por recuar ao verão de 1941 para contextualizar as decisões que conduziram a Estalinegrado. O plano original da invasão da União Soviética, a Operação Barbarossa, não tinha como objetivo principal a conquista de Moscovo — Hitler queria antes destruir o poder militar soviético em batalhas na fronteira e apoderar-se das regiões produtoras de matérias-primas, sobretudo o trigo ucraniano e o petróleo do Cáucaso. O modelo negativo era Napoleão, que chegara a Moscovo e perdera a guerra. Quando esse plano inicial não resultou — os exércitos soviéticos continuavam a surgir apesar das derrotas colossais —, os generais alemães persuadiram Hitler a atacar Moscovo no outono de 1941, sem sucesso. A ordem que Hitler deu em dezembro desse ano para não retirar, contrariando os seus generais, convenceu-o de que o seu julgamento era superior ao deles, convicção que se revelaria fatal em 1942.
Na primavera de 1942, com a iniciativa recuperada, Hitler lançou a Operação Azul, destinada a conquistar o sul da Rússia e o Cáucaso. Estalinegrado entrou nos planos por ser um grande centro industrial e um nó vital de comunicações no rio Volga, cuja posse facilitava o avanço para os campos petrolíferos. O simbolismo do nome — a cidade de Stalin — terá tido menos peso do que se costuma supor. O problema é que a conquista de uma cidade enorme, com 400 mil habitantes e vastas instalações industriais, anulava precisamente a principal vantagem do exército alemão: a mobilidade das suas unidades blindadas. A guerra rua a rua tornava esse trunfo inútil.
Quando, em novembro de 1942, os soviéticos lançaram uma ofensiva de envolvimento comandada pelo general Zhukov — aproveitando os flancos guarnecidos por tropas romenas, húngaras e italianas de menor capacidade combativa —, cerca de 290 mil soldados do eixo ficaram cercados num perímetro de 60 por 40 quilómetros. A retirada imediata era difícil: exigiria abandonar todo o material pesado e, sobretudo, deixaria isolado o exército alemão que avançava no Cáucaso. Hitler manteve a ordem de resistir, apoiado na promessa de Goering de abastecer o bolso por via aérea — promessa que se revelou ilusória, pois a Luftwaffe nunca ultrapassou um quinto das tonelagens necessárias — e no precedente de Demiansk, onde um cerco semelhante, mas menor, tinha sido quebrado em 1942. A rendição do marechal Paulus em fevereiro de 1943 e a sua colaboração posterior com os soviéticos chocaram Hitler profundamente.
Os apresentadores debatem também as consequências estratégicas da batalha. A vitória soviética teve enorme impacto propagandístico, quebrando o mito da invencibilidade alemã. Todavia, Rui Ramos sublinha que não foi Estalinegrado por si só que determinou o desfecho da guerra: seis meses depois, os alemães voltaram a ter a iniciativa na frente leste, infligindo pesadas derrotas soviéticas em Kharkov. O que Estalinegrado confirmou foi que a Alemanha não conseguiria uma vitória rápida e decisiva na Rússia, e que, numa guerra de desgaste prolongada, os recursos humanos e materiais dos aliados — incluindo o fornecimento norte-americano de camiões e jipes ao exército soviético — eram simplesmente superiores. A resposta nazi foi a política da «guerra total» proclamada por Goebbels em fevereiro de 1943 e a aposta numa resistência desesperada que fizesse subir o preço de qualquer vitória aliada — uma lógica que manteve o exército alemão a combater até maio de 1945, quando muitos outros teriam capitulado.
Personagens
- Adolf Hitler
- Joseph Stalin
- Napoleão
- Georgy Zhukov
- Herman Goering
- Erich von Manstein
- Kurt Zeitzler
- Friedrich Paulus
- Josef Goebbels
- Nikita Khrushchev
- Benito Mussolini
Lugares
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- 1812
- 1941-1943
Temas
- guerra
- estratégia militar
- batalhas
- propaganda
- campos de concentração
- abastecimento militar
- guerra de desgaste
- guerra total
Eventos
- Batalha de Stalingrado
- Operação Barbarossa
- Operação Azul
- Batalha de Moscovo
- Batalha de Alamein
- Batalha de Kharkov
- Invasão da Rússia por Napoleão
- Cerco de Demiansk
- Desembarque americano no Norte da África
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Campanha de Napoleão na Rússia 1812
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