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Nº 22028 de setembro de 202347:59efeméride

Black Hawk Down – A Batalha de Mogadíscio em 1993

O episódio analisa a Batalha de Mogadishu de outubro de 1993, quando forças especiais americanas foram emboscadas na Somália, resultando em 18 mortos. Rui Ramos argumenta que este acontecimento destruiu duas ilusões do pós-Guerra Fria: a convergência universal para a democracia liberal e a supremacia militar americana absoluta. O trauma das imagens de soldados mortos arrastados pelas ruas levou os EUA a abandonar intervenções humanitárias, permitindo o genocídio do Ruanda e, crucialmente, convenceu Osama bin Laden de que os americanos eram um "tigre de papel" vulnerável a ataques.

Ideias principais

  1. A Batalha de Mogadishu representou o fim do duplo sonho pós-Guerra Fria: a ideia de que todas as sociedades convergiriam para democracias liberais (tese de Fukuyama) e a supremacia militar incontestável dos Estados Unidos.
  2. Apenas 18 mortos americanos foram suficientes para provocar a retirada dos EUA da Somália, revelando uma profunda relutância civilizacional em aceitar baixas e usar força brutal, ao contrário das potências coloniais europeias do século XIX.
  3. O fracasso em Mogadishu condicionou directamente a inacção americana no genocídio do Ruanda (1994), onde morreu cerca de um milhão de pessoas, segundo o próprio Bill Clinton admitiu retrospectivamente.
  4. A batalha convenceu Osama bin Laden e outros actores de que era possível desafiar os Estados Unidos através de ataques directos, levando à estratégia que culminaria no 11 de setembro de 2001.
  5. A partir de 1993, as intervenções militares americanas ficaram limitadas a meios aéreos (bombardeamentos, mísseis) com extrema relutância em colocar tropas no terreno, padrão que se manteve no Afeganistão e Iraque, impedindo a criação efectiva de ordem nesses territórios.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado à Batalha de Mogadíscio, travada nos dias 3 e 4 de outubro de 1993 na capital da Somália, e imortalizada no filme *Black Hawk Down* de Ridley Scott. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta aparentemente simples: por que razão a morte de apenas 18 soldados norte-americanos num país remoto e sem interesse estratégico óbvio se tornou um dos momentos mais marcantes da política mundial do final do século XX?

Para responder, os apresentadores recuam ao contexto do pós-Guerra Fria. Com o colapso da União Soviética em 1991, instalou-se um duplo sonho no Ocidente. O primeiro era político: a ideia, associada ao pensamento de Francis Fukuyama, de que todas as sociedades convergiram naturalmente para a democracia liberal e a economia de mercado. O segundo era militar e tecnológico: a convicção de que a supremacia dos Estados Unidos era tão esmagadora que bastaria uma demonstração de força para impor ordem em qualquer canto do mundo, tal como parecera confirmado pela rapidíssima vitória americana na Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque. Bill Clinton, o primeiro presidente norte-americano nascido após a Segunda Guerra Mundial e representante da geração que contestara o Vietname, encarnava este optimismo humanitário e intervencionista.

A Somália era então o epítome do Estado falhado. Com a queda da ditadura do general Siad Barre em 1991, o país mergulhara numa guerra civil em que vários senhores da guerra disputavam o território, desviavam a ajuda alimentar das Nações Unidas e atacavam os próprios capacetes azuis, chegando a matar 25 soldados paquistaneses. O general Aidid era o chefe da milícia mais poderosa em Mogadíscio. A operação de outubro de 1993 visava precisamente capturá-lo através de um ataque cirúrgico com helicópteros Black Hawk e forças de elite. O plano correu mal quando as milícias somalis, treinadas por combatentes veteranos do Afeganistão com experiência em abater helicópteros soviéticos, derrubaram duas aeronaves com lança-granadas. Os soldados que sobreviveram ficaram cercados no coração de uma cidade hostil, com a população a participar ativamente nos combates, e a coluna de resgate não chegou a tempo. O resultado foram 18 americanos mortos e centenas de baixas somalis.

Ramos sublinha que o verdadeiro problema não foi tanto a má condução tática da operação, mas a impossibilidade estrutural de alcançar os objetivos políticos com os meios disponíveis. Para pacificar a Somália teria sido necessário algo equivalente a uma ocupação colonial maciça — centenas de milhares de soldados, bombardeamentos extensos, uma presença indefinida no tempo — o que nenhum governo americano estava disposto a assumir, tanto por razões eleitorais como por falta de interesse nacional evidente. Seis meses após a batalha, Clinton ordenou a retirada das tropas. A ONU seguiu-lhe o exemplo. A Somália ficou entregue aos seus próprios demónios, e o genocídio do Ruanda em 1994, em que morreram cerca de um milhão de pessoas, foi em parte favorecido pela paralisia americana provocada pelo trauma de Mogadíscio — o próprio Clinton reconheceu publicamente este erro anos mais tarde.

Os apresentadores identificam dois efeitos duradouros da batalha. O primeiro foi a transformação da doutrina militar americana: daí em diante, os Estados Unidos passaram a preferir intervenções aéreas e ataques com mísseis, evitando sistematicamente colocar tropas no terreno e limitando assim o risco de baixas — uma lógica que se repetiu na Bósnia, no Kosovo, no Iraque em 1998 e que moldou também as guerras do Afeganistão e do Iraque após 2001. O segundo efeito, porventura mais grave, foi a mensagem que a retirada americana enviou a adversários como Osama bin Laden: que os Estados Unidos, apesar do seu poderio tecnológico, não tinham estômago para suportar perdas e recuariam perante uma resistência determinada. Esta convicção terá alimentado diretamente a aposta da Al-Qaeda num ataque direto ao território americano, culminando no 11 de Setembro de 2001. Mogadíscio revelou assim, segundo Ramos e Tavares, não apenas os limites do poder militar norte-americano em conflitos assimétricos urbanos, mas também o fim do sonho de uma nova ordem mundial pacífica e democrática que o fim da Guerra Fria parecia prometer.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Guerra Fria
  • década de 1990
  • pós-Guerra Fria
  • século XIX
  • Segunda Guerra Mundial
  • década de 1960

Temas

  • guerra
  • intervencionismo humanitário
  • supremacia militar
  • terrorismo
  • opinião pública
  • descolonização
  • guerra civil
  • ONU
  • capacetes azuis
  • ditadura militar
  • fome
  • fundamentalismo islâmico
  • isolacionismo
  • império
  • colonialismo

Eventos

  • Batalha de Mogadishu
  • queda da União Soviética
  • fim da Guerra Fria
  • Acordos de Oslo
  • Acordos da Sexta-Feira Santa
  • genocídio do Ruanda
  • 11 de setembro de 2001
  • atentado ao World Trade Center de 1993

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria
  • Guerra do Vietname
  • Primeira Guerra do Golfo
  • Guerra Civil da Somália
  • Guerra da Jugoslávia
  • Guerra da Bósnia
  • conflito israelo-palestiniano
  • conflito da Irlanda do Norte
  • Segunda Guerra do Iraque
  • Guerra do Afeganistão

Livros citados

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