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Nº 2425 de dezembro de 201942:44efeméride

D. Afonso Henriques comia peru no Natal?

Episódio especial de Natal que explora a história e evolução da celebração do Natal desde a Idade Média até aos dias de hoje. Rui Ramos desmistifica tradições, explicando que o peru, as batatas e a árvore de Natal são invenções modernas vindas da América e Inglaterra do século XIX. O episódio aborda também a trégua de Natal de 1914 na Primeira Guerra Mundial e termina com a execução de Ceaușescu na Roménia em 1989.

Ideias principais

  1. O Natal como celebração cristã só foi fixado no século IV e incorporou muitos costumes pagãos do solstício de inverno, tendo sido até proibido por puritanos em Inglaterra no século XVII.
  2. As tradições natalícias modernas (peru, batatas, árvore de Natal, Pai Natal) são criações do século XIX, maioritariamente importadas de Inglaterra e Estados Unidos através da família real e do comércio.
  3. A trégua de Natal de 1914 na Primeira Guerra Mundial foi um fenómeno muito delimitado entre tropas britânicas e alemãs, romantizado posteriormente, e que os comandos militares impediram de repetir nos anos seguintes.
  4. A cultura cristã e católica é indispensável para compreender a história, arquitetura, costumes e valores portugueses, mesmo numa sociedade cada vez mais secular, pois conceitos como igualdade e dignidade humana têm raízes cristãs.
  5. A execução de Ceaușescu no Natal de 1989 marcou o fim violento de uma das ditaduras comunistas mais brutais da Europa, contrastando com as transições pacíficas noutros países do Leste e mostrando que nem todas seguiriam esse caminho.

Resumo do episódio

Este episódio especial de Natal do podcast *E o Resto é História*, emitido pela primeira vez a 25 de dezembro, organiza-se em torno de três grandes blocos temáticos: as origens e a evolução das tradições natalícias, a famosa trégua de Natal de 1914 na Primeira Guerra Mundial, e a execução do ditador romeno Nicolae Ceaușescu no dia de Natal de 1989.

O ponto de partida é uma pergunta aparentemente ingénua: terá D. Afonso Henriques comido peru com batatas no Natal? A resposta de Rui Ramos é categórica — não. Nem peru, nem batatas, nem árvore de Natal. Estes elementos são todos posteriores ao rei fundador: as batatas e o peru são produtos americanos que só chegaram à Europa a partir do século XVI, e a árvore de Natal é uma tradição alemã que não se generalizou antes do século XIX. Para dar uma ideia do que seria um Natal medieval em Portugal, Rui Ramos cita uma peça do poeta António Ribeiro Chiado, do século XVI, onde se descrevem decorações com ramos verdes, cidra, figos, pinhões, linguiça e castanhas, seguidos de Missa do Galo e jogos entre vizinhos. A festa de Natal cristã em si também é mais tardia do que se imagina: os primeiros indícios da celebração do nascimento de Cristo só surgem no século IV, e a data de 25 de dezembro foi fixada pela Igreja sobre uma festa pagã já existente do solstício de inverno. O Natal que hoje conhecemos — com árvore, presentes, Pai Natal e peru — é em larga medida uma criação do século XIX, impulsionada pela família real britânica de origem alemã, nomeadamente pelo Príncipe Alberto, marido da Rainha Vitória, e divulgada pela imprensa ilustrada da época. Em Portugal, foi o Rei D. Fernando II, também de Saxe-Coburgo-Gota, quem introduziu costumes semelhantes na corte. Charles Dickens, com o seu *Conto de Natal* de 1843, fixou a ideia do Natal como momento de redenção, reconciliação e compaixão. O comércio e, mais tarde, a globalização — com exemplos como o Japão — trataram de universalizar a festa, mesmo em sociedades não cristãs.

Este percurso histórico serve de mote para uma reflexão mais ampla sobre o lugar do cristianismo na cultura portuguesa. Rui Ramos defende, com uma citação de Jorge de Sena, que o catolicismo em Portugal é muito mais do que uma religião: é uma cultura que moldou a arquitetura, a toponímia, os feriados, os dias da semana e até conceitos filosóficos como a igualdade e a dignidade humana. Numa sociedade cada vez mais secularizada, alguém sem qualquer iniciação na cultura cristã terá sérias dificuldades em compreender a história e a paisagem de Portugal.

Na segunda parte do episódio, João Miguel Tavares e Rui Ramos analisam a trégua de Natal de 1914. Ramos relativiza a dimensão do episódio: terá ocorrido em setores muito limitados da frente ocidental, num momento de impasse em que as trincheiras acabavam de ser cavadas e os comandantes ainda não sabiam que estratégia seguir. Soldados alemães e britânicos terão cantado canções de Natal, trocado saudações e, em alguns casos, jogado futebol na Terra de Ninguém. A hierarquia militar não aprovou, e nos anos seguintes houve barragens de artilharia deliberadas para impedir qualquer confraternização. A narrativa posterior que transformou a trégua num símbolo pacifista — a ideia de que os soldados não tinham nada uns contra os outros e eram os generais que faziam a guerra — é, na opinião de Ramos, uma simplificação. A desconfiança entre os combatentes era enorme, como o demonstra, por exemplo, a dificuldade em render-se sem receio de ser abatido.

O episódio termina com a história da queda de Ceaușescu. O ditador romeno, no poder desde 1965, destacou-se no bloco de leste pela sua relativa independência em relação a Moscovo e por um comunismo de cariz megalómano e nacionalista, inspirado na Coreia do Norte e na China maoísta. Enquanto noutros países da Europa de Leste a transição de 1989 foi pacífica, na Roménia o regime ordenou uma repressão sangrenta. Quando Ceaușescu tentou discursar perante uma multidão em Bucareste a 21 de dezembro, foi vaiado em direto — imagem que ficou para a história. Fugiu de helicóptero, foi capturado e, no próprio dia de Natal, foi sumariamente julgado e fuzilado juntamente com a mulher. A gravação desse julgamento e dos cadáveres tornou-se uma das imagens marcantes do Natal de 1989. Ramos conclui que, apesar de não ser uma história bonita, o desfecho libertou os romenos de uma ditadura de pesadelo — e que o comunismo, em todos os países onde foi experimentado, tendeu a produzir este tipo de faraós megalómanos e desligados da realidade.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XII
  • século XVI
  • século XVII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Primeira Guerra Mundial
  • Antiguidade

Temas

  • religião
  • cristianismo
  • cultura
  • tradições
  • guerra
  • comunismo
  • ditadura
  • secularização
  • comércio
  • globalização

Eventos

  • Natal
  • Trégua de Natal de 1914
  • Queda do Muro de Berlim
  • Revolução Francesa
  • Massacre da Praça Tiananmen
  • Revolução do Volutudo
  • Guerra de Outubro

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerras da Religião
  • Guerras Civis da Jugoslávia

Livros citados

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