Nº 33723 de dezembro de 202555:14efeméride
Margaret Thatcher: os 100 anos da Dama de Ferro
Episódio dedicado ao centenário de Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990. Rui Ramos analisa a chegada ao poder de Thatcher num Reino Unido em profunda crise económica, sindical e imperial, e como as suas políticas liberais transformaram radicalmente a economia britânica, derrotaram o poder sindical e marcaram uma mudança de época que ainda hoje define a política britânica e mundial.
Ideias principais
- Margaret Thatcher foi a primeira mulher primeira-ministra no Ocidente e apenas a segunda líder britânica do século XX, a par de Churchill, com funeral de Estado e impacto histórico duradouro.
- O Reino Unido dos anos 70 era um país falido, dependente do FMI, paralisado por greves sindicais que literalmente impediam o governo de governar, com inflação de 27% e o 'inverno do descontentamento' de 1978-79.
- Thatcher venceu os sindicatos através da descoberta de petróleo e gás do Mar do Norte, que permitiu libertar-se da chantagem dos mineiros, e derrotou definitivamente o poder sindical na greve de 1984-85.
- A vitória de Thatcher deveu-se em parte à sorte: a Guerra das Falklands restaurou o prestígio britânico, a divisão do Partido Trabalhista em 1981 fragmentou a oposição, e o sistema maioritário permitiu-lhe maiorias parlamentares enormes com apenas 42% dos votos.
- Apesar de transformar a economia britânica de industrial para de serviços e criar uma sociedade de proprietários, Thatcher não conseguiu mudar o ambiente cultural de esquerda nas universidades e imprensa, nem reduzir significativamente a despesa do Estado Social.
Resumo do episódio
O episódio de *E o Resto é História* dedicado ao centenário de Margaret Thatcher — nascida a 13 de outubro de 1925 — procura responder a uma pergunta aparentemente simples: o que é que esta mulher tinha de diferente dos outros líderes britânicos? Rui Ramos e João Miguel Tavares partem da constatação de que, entre todos os primeiros-ministros do século XX, apenas Churchill e Thatcher parecem verdadeiramente gravados na memória coletiva, e que a Rainha Isabel II apenas esteve presente em dois funerais de chefes de governo: o de Churchill e o de Thatcher.
Para explicar o significado histórico de Thatcher, os apresentadores começam por traçar o seu percurso biográfico. Filha de um lojista metodista de Lincolnshire, Margaret Roberts ascende a Oxford com uma bolsa, onde estuda Química, se converte ao anglicanismo e adere ao Partido Conservador — rompendo assim com o liberalismo do pai. Mais tarde reconverte-se ao direito fiscal, casa com o empresário Dennis Thatcher e inicia uma carreira parlamentar desde 1959, destacando-se rapidamente pela combatividade e pela frontalidade, ao ponto de, ainda nos anos cinquenta, alguns já a imaginarem como futura primeira-ministra.
O contexto em que Thatcher chega à liderança do Partido Conservador, em 1975, é o de uma Grã-Bretanha em declínio acentuado. Rui Ramos descreve pormenorizadamente o estado do país: décadas de desindustrialização, nacionalizações pós-guerra, inflação que atinge quase 27% em 1975, desemprego crescente e um poder sindical capaz de paralisar literalmente o país. Os mineiros, ferroviários e outros trabalhadores de indústrias nacionalizadas tinham força suficiente para impor greves indefinidas, e todos os governos anteriores — trabalhistas e conservadores — recuavam perante essa pressão. O chamado "inverno do descontentamento" de 1978-79, com lixo acumulado nas ruas, morgues a transbordar e hospitais a funcionar apenas em regime de urgência, ilustra o colapso do sistema. É neste cenário que Thatcher chega ao poder em 1979, a primeira mulher a liderar um governo no mundo ocidental.
A sua política económica — corte da despesa pública, combate à inflação, privatizações, enfraquecimento dos sindicatos — é inicialmente bombardeada por centenas de economistas que a consideram errada e condenada ao fracasso. Dois fatores imprevistos salvam a sua posição: a vitória na guerra das Falklands, em 1982, que lhe confere uma imagem de determinação e reverte a perceção internacional da Grã-Bretanha como potência decadente; e a cisão do Partido Trabalhista, que em 1981 vê os seus membros moderados fundar o Partido Social-Democrata, dividindo o voto da esquerda e permitindo a Thatcher enormes maiorias parlamentares com pouco mais de 40% dos votos. Em 1984-85, vence a greve dos mineiros depois de um ano de confronto, invertendo simbolicamente a relação de forças que em 1974 havia afundado Edward Heath. A inflação desce para 4% em 1987, as greves reduzem-se drasticamente e Londres regressa ao papel de grande praça financeira mundial.
Para além da economia, Thatcher marca também a política externa. Aliada incondicional de Ronald Reagan, defende o reforço do armamento nuclear americano na Europa e assume uma postura ideológica clara contra o comunismo soviético — o que lhe valeu, da imprensa soviética, o epíteto de "Dama de Ferro", que ela rapidamente transformou em bandeira. Paradoxalmente, é também uma das primeiras líderes europeias a reconhecer a autenticidade das reformas de Gorbachev, saindo reforçada com a queda do Muro de Berlim em 1989.
Personagens
- Margaret Thatcher
- Winston Churchill
- Edward Heath
- Harold Wilson
- James Callaghan
- Keith Joseph
- Friedrich Hayek
- Milton Friedman
- John Keynes
- Ronald Reagan
- Mikhail Gorbachev
- Tony Blair
- John Major
- Alfred Roberts
- Dennis Thatcher
- São Francisco de Assis
Lugares
Épocas
- Segunda metade do século XX
- Segunda Guerra Mundial
- Pós-guerra
- Anos 60
- Anos 70
- Década de 80
- Década de 90
- Guerra Fria
- Século XIX
- Século XVIII
Temas
- política
- economia
- guerra
- sindicatos
- nacionalização
- privatização
- liberalismo económico
- conservadorismo
- trabalhismo
- social-democracia
- terrorismo
- inflação
- desemprego
- Estado Social
- indústria
- greves
- energia
- imperialismo
- descolonização
- europeísmo
- relações internacionais
- classe social
- propriedade
Eventos
- Funeral de Margaret Thatcher
- Crise do petróleo de 1973
- Desvalorização da Libra 1967
- Greves de 1972
- Greves de 1974
- Eleições de fevereiro de 1974
- Programa do FMI 1977
- Inverno do descontentamento 1978-79
- Eleições de 1979
- Guerra das Falklands 1982
- Atentado de Brighton 1984
- Greve dos mineiros 1984-85
- Liberalização da Bolsa de Londres 1986
- Eleições de 1987
- Queda do Muro de Berlim 1989
- Desafio interno 1990
- Eleições de 1992
- Crise financeira de 2008
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Guerra das Falklands
- Campanha do IRA
- Crise do Suez 1956
Livros citados
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