Nº 29505 de março de 202552:11resposta a ouvintes
11 de Março: o dia em que a revolução aqueceu
O episódio analisa o golpe falhado de 11 de março de 1975, quando António de Spínola tentou retomar o controlo político em Portugal, mas foi derrotado pela esquerda militar. O fracasso do golpe intensificou o processo revolucionário (PREC), permitindo nacionalizações, a criação do Conselho da Revolução e a ascensão das forças pró-soviéticas, abrindo caminho ao Verão Quente de 75. Rui Ramos desconstrói mitos sobre o evento, mostrando o caos, a desinformação e as divisões que caracterizaram aquele dia decisivo da revolução portuguesa.
Ideias principais
- O golpe de 11 de março resultou de enorme desconfiança mútua e más informações, com ambos os lados a prepararem contra-golpes sem saberem claramente o que o adversário planeava fazer.
- Spínola cometeu um erro estratégico ao abandonar a sua casa e ir para Tancos, quando o tempo corria a seu favor: tinha apoio crescente nas Forças Armadas, sintonia com o PS e eleições marcadas para 12 de abril.
- A vitória da esquerda militar deveu-se sobretudo ao controlo dos meios de comunicação (rádio e televisão), que davam aparência de domínio do país e influenciavam mais os militares que as próprias comunicações militares.
- O 11 de março marca a institucionalização do poder militar através do Conselho da Revolução e o abandono do objetivo de mera transição democrática, substituído pela imposição de um socialismo de tipo soviético antes das eleições.
- Paradoxalmente, a vitória da esquerda militar foi o início da sua fragmentação: com Spínola no exílio, desapareceu o inimigo comum que unia facções com visões profundamente divergentes sobre o futuro de Portugal.
Resumo do episódio
O episódio 295 de *E o Resto é História* é dedicado ao 11 de Março de 1975, data que assinala os 50 anos de uma das jornadas mais turbulentas do período revolucionário português. O tema chegou por sugestão de um ouvinte que, há três anos, pediu uma análise do bombardeamento ao Regimento de Artilharia Ligeira nº 1, da fuga do general Spínola para Espanha e da chamada Assembleia Selvagem. Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitam a efeméride para reconstituir o contexto, os acontecimentos e as suas consequências.
Os apresentadores começam por explicar que, ao contrário do que se poderia supor, Spínola estava em posição vantajosa no início de 1975. Afastado da presidência após o fracasso de setembro de 1974, o general vivia em Massamá sem qualquer cargo, mas recuperava influência a bom ritmo. As eleições para os Conselhos das Armas, realizadas em março, estavam a ser ganhas pelos espinolistas. O Partido Socialista, alarmado com a unicidade sindical imposta pelo governo em benefício do PCP, procurava um interlocutor militar alternativo e encontrava-o no próprio Spínola, que recebia dirigentes socialistas em casa e adotava a linguagem do socialismo em liberdade. Com eleições para a Assembleia Constituinte marcadas para abril, o tempo parecia correr a seu favor. A lógica estratégica aconselhava, portanto, a esperar.
Ainda assim, Spínola acabou por agir. Rui Ramos sublinha que este é um dos momentos históricos mais caóticos do processo revolucionário, em que nenhum dos protagonistas soube bem porque ganhou ou porque perdeu. Toda a gente conspira, mas conspira sobretudo para reagir a uma conspiração do lado oposto. Circulavam rumores de uma suposta «matança da Páscoa», um plano atribuído à esquerda militar para eliminar fisicamente os oficiais próximos de Spínola. Esse rumor, cuja veracidade nunca ficou demonstrada, terá contribuído para criar um ambiente de urgência à volta do general. Na tarde de 10 de março, Spínola desloca-se à Base Aérea nº 3 em Tancos, onde se reúne com cerca de meia centena de oficiais. O plano passa por atacar o RAL 1, em Lisboa, com dois aviões T6 numa operação de intimidação, seguida de um assalto de paraquedistas. O ataque matou um soldado e feriu vários militares, mas a operação rapidamente se desagregou: outras unidades em que Spínola confiava — a Escola Prática de Cavalaria de Santarém, os Comandos da Amadora — optaram por não avançar. A esquerda militar manteve o controlo das rádios e da televisão, o que, tal como no 25 de Abril, foi decisivo para consolidar a aparência de domínio. Às 17 horas, Spínola fugiu de helicóptero para a base espanhola de Talavera-la-Real.
O fracasso do golpe teve consequências imediatas e de grande alcance. Na noite de 11 para 12 de março, reuniu-se a Assembleia Selvagem do MFA, presidida pelo Presidente da República Costa Gomes, mas de composição caótica e decisões tomadas por simples aclamação. Aí foram decretadas as nacionalizações da banca e das seguradoras, criado o Conselho da Revolução como órgão de poder supremo e institucionalizado o papel tutelar das Forças Armadas sobre o processo político. O objetivo da democracia pluralista prometida em abril de 1974 foi substituído pela imposição de um socialismo de modelo soviético, ainda antes de os portugueses se pronunciarem nas urnas. Para além das medidas políticas, instalou-se um clima de violência e intimidação: no dia seguinte, soldados do RAL 1 assassinaram a tiro um civil cujos comentários sobre os acontecimentos não terão agradado, cena filmada e transmitida pelas televisões europeias. As prisões em massa e os maus-tratos levaram muitos portugueses ao exílio.
Os apresentadores concluem que o 11 de Março teve ainda um efeito paradoxal: ao expulsar Spínola de cena, eliminou o principal fator de coesão da esquerda militar. Sem o inimigo comum, as profundas divergências entre figuras como Melo Antunes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho tornaram-se inevitáveis, alimentando a crise revolucionária do Verão Quente de 1975 e abrindo caminho para o desenlace do 25 de Novembro. O 11 de Março foi, assim, simultaneamente o apogeu e o início do declínio do processo revolucionário radical.
Personagens
- Simão Vasconcelos Soares
- António de Spínola
- Costa Gomes
- Vasco Gonçalves
- Melo Antunes
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Vasconcelos Coutinho
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Salgueiro Maia
- Jaime Neves
- Dinis de Almeida
- Sebastião Martins
- António Ramalho Fialho
- Conceição Santos
- Joaquim Carvalho Luís
- Marcelo Rebelo de Sousa
Lugares
Épocas
- Estado Novo
- Revolução de Abril
- PREC
- século XX
- descolonização
Temas
- revolução
- golpes de Estado
- guerra colonial
- descolonização
- comunismo
- socialismo
- democracia
- militarismo
- nacionalizações
- violência política
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- 11 de Março de 1975
- 28 de Setembro de 1974
- 25 de Novembro de 1975
- 16 de Março de 1974
- Assembleia Selvagem
- bombardamento do RAL 1
- Acordo de Alvor
- Verão Quente de 75
- unicidade sindical
- nacionalização da banca
- matança da Páscoa
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
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