Nº 34517 de fevereiro de 202643:47efeméride
A batalha de um ano que teve um milhão de baixas
O episódio analisa a Batalha de Verdun (21 fevereiro - dezembro 1916), uma das mais mortíferas da Primeira Guerra Mundial, com 700 mil a 1 milhão de baixas. Inicialmente concebida como plano alemão de desgaste do exército francês, tornou-se numa carnificina mútua sem vencedor claro, travada em apenas 20 km². Verdun simboliza o impasse da guerra de trincheiras e marca o colapso da Europa liberal do século XIX, abrindo caminho aos totalitarismos do século XX.
Ideias principais
- O plano alemão de Falkenhayn visava não uma vitória decisiva mas uma batalha de desgaste para 'sangrar' a França, calculando infligir cinco baixas francesas por cada duas alemãs, mas conseguindo apenas uma proporção de 1,1 para 1.
- A Batalha de Verdun tornou-se uma armadilha para ambos os lados: os alemães, após iniciarem o ataque, viram-se obrigados a continuar por questões de prestígio, caindo na mesma lógica de desgaste que tinham planeado para os franceses.
- A guerra de trincheiras favorecia a defesa sobre o ataque devido às metralhadoras e artilharia pesada, mas os exércitos ainda avançavam em linha como nos séculos XVIII-XIX, resultando em baixas catastróficas até aprenderem novas táticas de pequenas unidades infiltradas.
- Verdun provocou uma crise profunda da autoridade militar e política em todas as potências beligerantes, levando à substituição de comandantes e governos, ao surgimento de lideranças autoritárias apocalípticas, e a motins no exército francês em 1917.
- A batalha marca simbolicamente o fim da Europa liberal do século XIX e o nascimento da Europa totalitária do século XX, preparando o terreno cultural e político para o fascismo e comunismo através da mistura de niilismo anti-establishment com messianismo autoritário nacionalista.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado à Batalha de Verdun, cujo início se assinalou há 110 anos, a 21 de fevereiro de 1916. João Miguel Tavares e Rui Ramos partem de uma pergunta simples mas perturbadora: teve esta batalha alguma lógica militar, ou foi apenas uma tragédia sem sentido? A resposta, como Rui Ramos explica, é que começou por ter uma lógica e acabou por a perder, adquirindo uma dinâmica própria e fatal que escapou por completo ao controlo de quem a concebeu.
Para compreender Verdun, os apresentadores recuam ao impasse que se havia instalado na frente ocidental. Desde 1914 que alemães, franceses e britânicos se encontravam entrincheirados numa linha contínua que ia do Canal da Mancha à Suíça. Todas as tentativas de ruptura — bombardeamentos de artilharia, uso de gás químico, reconhecimento aéreo — tinham falhado, porque os defensores, bem protegidos nas trincheiras, infligiam baixas devastadoras aos atacantes que se expunham ao avançar. Era uma guerra de desgaste, não de batalhas decisivas, contrariando séculos de tradição militar europeia. Foi neste contexto que o general alemão Falkenhayn concebeu um plano singular: não romper a frente, mas atrair o exército francês para uma posição onde fosse obrigado a contra-atacar repetidamente, sendo progressivamente sangrado. A zona escolhida foi Verdun, uma praça forte com valor estratégico e simbólico, cuja eventual perda seria insuportável para a França. O cálculo era frio: infligir cinco baixas francesas por cada duas alemãs, até ao esgotamento do adversário. Ramos nota, porém, que alguns historiadores questionam se este plano foi genuinamente concebido antes da batalha ou racionalizado a posteriori para justificar decisões já tomadas.
A armadilha funcionou — mas também apanhou quem a montou. Os franceses reagiram exactamente como previsto, nomeando o general Pétain para defender Verdun a qualquer custo. O que Falkenhayn não antecipou foi que, se os alemães não conquistassem rapidamente a posição, isso seria também visto como uma derrota para eles. Assim, ambos os exércitos passaram a combater ofensivamente em simultâneo, num terreno de apenas 20 quilómetros quadrados — equivalente a uma fracção de Lisboa —, transformando o que era suposto ser uma batalha defensiva alemã num choque mútuo e contínuo de quase dez meses. O rácio de baixas que Falkenhayn calculara desmoronou: em vez de cinco para dois, ficou-se em praticamente um para um. Cerca de 1,3 milhões de toneladas de munições de artilharia foram disparadas, a paisagem tornara-se lunar, e 100 mil soldados desapareceram literalmente — desfeitos pelos bombardeamentos, incorporados na própria terra. A zona permanece hoje vedada ao público, contaminada por munições por explodir, gases tóxicos e restos humanos. A média de mortes rondou os mil por dia.
Os apresentadores explicam como foi possível sustentar um massacre desta escala durante tanto tempo: as sociedades da época tinham elevadas taxas de natalidade que alimentavam continuamente os exércitos, a indústria alemã quintuplicara a produção de artilharia pesada, e as redes ferroviárias permitiam transportar rapidamente homens e material para a frente. Acresce que os oficiais tinham sido formados na crença de que a guerra era uma questão de moral e resistência, não de cálculo técnico. Mas os sinais de colapso multiplicavam-se: em 1917, metade do exército francês entrou em rebelião aberta, com 27 mil deserções, consequência directa do trauma de Verdun.
A batalha teve também um efeito político devastador. Os governos que tinham conduzido os países para a guerra foram caindo — em Inglaterra, em França, na Alemanha, e na Rússia o próprio regime imperial entrou em colapso. Foram substituídos por lideranças mais duras e intransigentes, como Lloyd George, Clemenceau ou Hindenburg e Ludendorff, que adoptaram uma retórica apocalíptica: vencer a guerra custasse o que custasse, identificando a derrota com o fim da civilização. Rui Ramos conclui com uma interpretação ampla: Verdun foi o lugar onde morreu a Europa liberal do século XIX — as monarquias constitucionais, as repúblicas conservadoras, as antigas elites. Do descrédito dessas autoridades e da abertura a novas lideranças messiânicas e autoritárias nasceu o terreno cultural e político que produziu o fascismo, o nazismo e o comunismo. Os 300 mil mortos em 20 quilómetros quadrados não foram apenas uma tragédia militar; foram o início de uma outra Europa, que só uma segunda guerra ainda mais destruidora conseguiria finalmente superar.
Personagens
- Erich von Falkenhayn
- Philippe Pétain
- Alexei Brusilov
- Erich Ludendorff
- Paul von Hindenburg
- John French
- Douglas Haig
- Joseph Joffre
- Robert Nivelle
- H. H. Asquith
- David Lloyd George
- Georges Clemenceau
- Theobald von Bethmann-Hollweg
- Adolf Hitler
- Joseph Stalin
- Benito Mussolini
Lugares
Épocas
- Primeira Guerra Mundial
- século XIX
- século XVIII
- século XX
- Antiguidade Clássica
Temas
- guerra
- estratégia militar
- guerra de trincheiras
- tecnologia militar
- baixas militares
- autoritarismo
- colapso de regimes
- nacionalismo
- totalitarismo
- fascismo
- comunismo
Eventos
- Batalha de Verdun
- Batalha do Somme
- Batalha de Stalingrado
- Ofensiva Brusilov
- Ofensiva de Ludendorff
- Revolução Russa
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra da Ucrânia
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