Nº 30728 de maio de 202552:06resposta a ouvintes
Fim da Segunda Guerra na Europa – o dia seguinte
O episódio analisa o período imediatamente após a rendição da Alemanha a 8 de maio de 1945, revelando que o fim formal da guerra não trouxe paz à Europa. Rui Ramos descreve as violações em massa de mulheres alemãs pelo exército soviético, as gigantescas limpezas étnicas de milhões de pessoas, a continuação de guerras civis em França, Itália e Grécia, e a brutal realidade de uma Europa em ruínas povoada por refugiados, órfãos e populações desenraizadas, até à recuperação promovida pelo Plano Marshall.
Ideias principais
- Entre 1 a 2 milhões de mulheres alemãs foram violadas pelo exército soviético durante e após a guerra, com autorização dos comandos militares como política deliberada de terror e vingança.
- Cerca de 10 milhões de alemães foram expulsos da Prússia Oriental e outros territórios anexados, numa das maiores limpezas étnicas da história, realizadas de forma brutal com expulsões sumárias e sem aviso prévio.
- A Europa do pós-guerra viveu múltiplas guerras civis simultâneas, com destaque para a Grécia onde morreram 100 mil pessoas entre 1946-1949, três vezes mais do que na guerra contra os alemães.
- A União Soviética deportou cerca de 220 mil dos seus próprios prisioneiros de guerra libertados para campos na Sibéria, considerando-os suspeitos por terem estado em contacto com o Ocidente.
- O Plano Marshall de 1947 foi decisivo para a recuperação europeia, permitindo que a Alemanha Ocidental duplicasse o seu PIB em apenas 15 anos, num milagre económico sem precedentes.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* parte de uma pergunta enviada por um ouvinte sobre as violações em massa de mulheres alemãs pelo exército soviético no final da Segunda Guerra Mundial, para explorar um tema mais amplo: o que aconteceu na Europa no dia a seguir ao fim da guerra, após a rendição alemã a 8 de maio de 1945.
Rui Ramos começa por sublinhar que os últimos meses do conflito foram extraordinariamente sangrentos, tendo morrido mais soldados alemães nos primeiros seis meses de 1945 do que em todo o biénio 1942-1943. A rendição trouxe cerca de dez milhões de prisioneiros de guerra, cuja gestão representou por si só um enorme desafio logístico, com muitos a morrer à intempérie nos campos improvisados, tanto nas zonas aliadas como nas soviéticas. No caso da União Soviética, a violência contra as populações civis alemãs — incluindo violações em massa, pilhagens e deportações de mão-de-obra para campos de trabalho na Sibéria — não foi um fenómeno espontâneo, mas uma política tolerada e até encorajada pelas autoridades soviéticas, como forma de compensar as devastadoras perdas sofridas durante a guerra. Os próprios soldados soviéticos que tinham sido prisioneiros dos alemães foram, ao regressar, internados em campos na Sibéria, por serem vistos como potencialmente contaminados pelo contacto com o Ocidente.
A violência não se limitou às zonas de ocupação soviética. Em França, em Itália e noutros países libertados, vagas de saneamento e vingança vitimaram pelo menos dez mil pessoas só em França, com grupos de resistência — muitos deles comunistas a tentar conquistar o poder — a executar sumariamente colaboradores ou suspeitos de colaboração. Dezenas de milhares de mulheres foram publicamente humilhadas por terem mantido relações com soldados alemães. A Itália optou por uma saída diferente: uma amnistia geral em 1946 que abrangeu crimes cometidos por ambas as partes, reconhecendo implicitamente que fascistas e antifascistas tinham ambos as mãos sujas. Noutros locais, como nos países bálticos e na Ucrânia, a resistência armada contra a ocupação soviética prolongou-se até meados dos anos 1950, e na Grécia deflagrou uma guerra civil entre 1946 e 1949 que matou mais gregos do que a própria guerra contra a Alemanha.
Um dos fenómenos mais marcantes deste período, e frequentemente esquecido, foi a escala das limpezas étnicas. A Alemanha perdeu um quinto do seu território de 1937, e os cerca de dez milhões de alemães que aí viviam foram expulsos de forma brutal — acordavam de manhã e tinham meia hora para sair de casa, a pé, com o que pudessem carregar nas mãos. A Checoslováquia expulsou três milhões de alemães dos Sudetos; a Polónia, entretanto ela própria deslocada para ocidente à custa do território alemão, viu dois milhões dos seus cidadãos expulsos pela União Soviética. A Europa de 1945 era um continente de milhões de pessoas em movimento pelas estradas, sem abrigo, sem comunicações, sem serviços básicos, em cidades reduzidas a escombros. O tecido social estava tão destruído que surgiam fenómenos como a bigamia involuntária — maridos dados por mortos que regressavam anos depois da Sibéria — ou impostores a exercer medicina sem qualificações.
A este cenário de destruição física e moral soma-se o embrutecimento generalizado das populações, que tornava as pessoas indiferentes ao sofrimento alheio: os sobreviventes dos campos de concentração nazis encontravam, ao regressar, muito pouca empatia num continente onde quase toda a gente tinha perdido alguém ou algo. A recuperação começou a esboçar-se com o Plano Marshall a partir de 1947, quando os Estados Unidos perceberam que precisavam de uma Europa Ocidental próspera para enfrentar a União Soviética. A reintegração da Alemanha Ocidental como peça central da economia europeia — motivada pela lógica da Guerra Fria — acabou por gerar o célebre milagre económico alemão: em apenas quinze anos, o PIB alemão duplicou face aos níveis anteriores à guerra. O episódio termina com uma nota sobre as consequências coloniais do conflito: o enfraquecimento da Grã-Bretanha, da França e da Holanda abriu caminho à descolonização, primeiro na Ásia e no Médio Oriente e depois, nos anos 1960, em África.
Personagens
Lugares
- Alemanha
- União Soviética
- Rússia
- França
- Itália
- Polónia
- Checoslováquia
- Ucrânia
- Hungria
- Roménia
- Finlândia
- Jugoslávia
- Grécia
- Holanda
- Países Bálticos
- Estónia
- Letónia
- Lituânia
- Grã-Bretanha
- Reino Unido
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Japão
- China
- Suíça
- Espanha
- Suécia
- Portugal
- Berlim
- Moscovo
- Varsóvia
- Silésia
- Prússia
- Sibéria
- Mar Egeu
- Adriático
- Indonésia
- Índia
- Paquistão
- Israel
- Médio Oriente
- África
- Ásia
- Europa Oriental
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- pós-Segunda Guerra Mundial
- anos 40
- anos 50
- anos 60
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Fria
Temas
- guerra
- violações em massa
- limpeza étnica
- expulsões populacionais
- guerra civil
- ocupação militar
- colaboracionismo
- resistência
- comunismo
- fascismo
- nazismo
- descolonização
- economia
- reconstrução
- pilhagem
- prisioneiros de guerra
- deportações
- refugiados
- milagre económico
- integração europeia
- racionamento
- inflação
- justiça transitória
Eventos
- Rendição da Alemanha
- V-Day
- G-Day
- Construção do Muro de Berlim
- Revolta de Varsóvia
- Cerco de Berlim
- Plano Marshall
- Bombardeamento das cidades alemãs
- Cortina de Ferro
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Francesa
- Guerra Civil Italiana
- Guerra Civil Grega
- Guerra Fria
- Primeira Guerra Mundial
Episódios relacionados
- Nº 45 · O milagre da Alemanha após a Segunda Guerra (Segunda Guerra Mundial)
- Nº 338 · E se a Alemanha tivesse ganho a Segunda Guerra? (Segunda Guerra Mundial)
- Nº 195 · Plano Marshall: a salvação da Europa no pós-Guerra (Europa — Guerras e Política)
- Nº 319 · A Segunda Guerra Mundial acabou há 80 anos (Segunda Guerra Mundial)
- Nº 71 · Os 75 anos dos julgamentos de Nuremberga (Segunda Guerra Mundial)
- Nº 290 · O campo de Auschwitz foi libertado há 80 anos (Segunda Guerra Mundial)