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Nº 4520 de maio de 202041:00efeméride

O milagre da Alemanha após a Segunda Guerra

O episódio analisa a resistência da Alemanha nazi até à destruição total em maio de 1945 e a sua extraordinária recuperação económica nas duas décadas seguintes. Rui Ramos explica os custos humanos e materiais do prolongamento da guerra após 1944, as razões ideológicas e militares dessa resistência, e como a Alemanha Ocidental se transformou novamente na maior economia europeia através da economia social de mercado, do Plano Marshall e da integração europeia. Termina com a história da presença portuguesa em São João Batista de Ajudá, no actual Benin.

Ideias principais

  1. Metade dos soldados alemães mortos na Segunda Guerra Mundial (2,6 milhões) pereceram nos últimos 10 meses de guerra, quando a derrota já era inevitável, e 60% de todas as bombas lançadas sobre a Alemanha caíram após julho de 1944.
  2. A resistência alemã prolongou-se por uma combinação de terror interno nazi, medo de retaliações soviéticas, exigência aliada de rendição incondicional sem possibilidade de negociação, e esperança de que a resistência levasse a uma divisão entre aliados ocidentais e soviéticos.
  3. O milagre económico alemão foi possível porque apenas 25% da capacidade industrial foi destruída na guerra, e em 1951, apenas seis anos após a rendição, a produção industrial já ultrapassava os níveis de 1938.
  4. O Plano Marshall teve menos impacto económico directo do que impacto psicológico e político, criando confiança internacional na recuperação alemã e facilitando a integração europeia que abriu mercados e permitiu circulação de mão-de-obra e tecnologia.
  5. A Fortaleza de São João Batista de Ajudá foi mantida por Portugal até 1975 como símbolo da presença colonial, ligada ao tráfico de escravos e à figura de Francisco Félix de Sousa, um brasileiro contrabandista de escravos que se tornou 'capitão dos brancos' no Daomé e fundou uma dinastia local.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* debruça-se sobre dois temas interligados: as razões pelas quais a Alemanha nazi resistiu obstinadamente até à destruição total em maio de 1945, e o modo como o país conseguiu recuperar economicamente de forma surpreendentemente rápida após a guerra. A conversa parte de duas efemérides — os 80 anos do início da ofensiva alemã no Ocidente e os 75 anos da rendição incondicional da Alemanha — para explorar questões históricas que os apresentadores consideram ainda hoje pertinentes e pouco compreendidas pelo grande público.

Rui Ramos começa por contextualizar os custos humanos e materiais da resistência alemã prolongada. Metade dos soldados alemães que morreram na guerra perderam a vida nos últimos dez meses do conflito, entre julho de 1944 e maio de 1945, num total de 2,6 milhões de mortos. Sessenta por cento de todas as bombas que caíram sobre a Alemanha foram lançadas depois de julho de 1944. A pergunta central é, portanto, por que razão o regime não capitulou quando a derrota era já evidente, poupando o país a essa destruição adicional. A comparação com a Primeira Guerra Mundial é elucidativa: em 1918, a Alemanha era um Estado constitucional com estruturas que permitiram ao alto comando militar pressionar o governo a negociar; em 1945, a ditadura nazi destruíra qualquer mecanismo de dissidência organizada, e os oficiais que conspiraram contra Hitler foram executados após o atentado falhado de julho de 1944. A resistência era mantida também por um clima de terror interno, onde qualquer expressão derrotista podia custar a vida.

Mas a explicação vai além da simples loucura ou brutalidade do regime. Ramos identifica duas razões estruturais. A primeira é a natureza apocalíptica da ideologia nazi, que transformou a guerra num confronto existencial entre raças e criou, como consequência, um terror real das retaliações soviéticas — terror que se confirmou quando o Exército Vermelho entrou na Prússia e perpetrou violências contra a população civil alemã. A segunda razão é situacional: no outono de 1944, a Alemanha ainda dispunha de dez milhões de homens em armas, atingia o pico da produção de armamentos e conseguia travar as ofensivas aliada e soviética. Havia, portanto, margem para alimentar a esperança — ainda que ilusória — de que uma resistência suficientemente prolongada pudesse dividir os aliados ocidentais dos soviéticos e forçar uma negociação. A isto acrescia a exigência aliada de rendição incondicional desde 1943, que retirava qualquer alternativa aos conspiradores anti-Hitler: não podiam negociar, apenas render-se ao arbítrio dos vencedores.

A segunda parte do episódio aborda o chamado milagre económico alemão. João Miguel Tavares coloca a questão de como um país arrasado, dividido e ocupado pôde tornar-se novamente a maior economia europeia em pouco mais de uma década. Ramos explica que, apesar da destruição visível das cidades, apenas um quarto da capacidade industrial alemã tinha sido efectivamente comprometido. Em 1951, apenas seis anos após o fim da guerra, a produção industrial já superava os níveis de 1938. A base estava lá: mão-de-obra altamente qualificada, uma densa rede de pequenas e médias empresas e uma forte cultura científica e tecnológica. O Plano Marshall é mencionado, mas relativizado: o seu contributo financeiro era, grosso modo, equivalente ao valor das reparações pagas pelos alemães. O que o plano verdadeiramente proporcionou foi confiança política e psicológica nos investidores e empresários. A isso somou-se a política da economia social de mercado promovida por Konrad Adenauer e pelo seu ministro Ludwig Erhard, que combinou apoios sociais com mercados abertos e criou um clima de colaboração entre capital e trabalho sem paralelo em França ou no Reino Unido. A integração europeia e o fim dos protecionismos nacionalistas, patrocinado pelos Estados Unidos no quadro do início da globalização, completaram as condições para que o milagre alemão se inscrevesse num milagre mais amplo da Europa Ocidental, que viveu entre 1950 e 1973 o período de maior crescimento económico da sua história.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • anos 1940
  • anos 1950
  • anos 1960
  • fim do século XVII
  • princípio do século XVIII
  • século XIX

Temas

  • guerra
  • economia
  • reconstrução
  • ocupação militar
  • diplomacia
  • indústria
  • comércio
  • escravatura
  • colonialismo
  • integração europeia
  • globalização
  • nazismo
  • comunismo
  • ditadura

Eventos

  • rendição da Alemanha nazi
  • conquista de Berlim
  • desembarque na Normandia
  • atentado contra Hitler (20 de julho de 1944)
  • destruição de Dresden
  • bloqueio de Berlim
  • golpe de Praga
  • Plano Marshall
  • milagre económico alemão

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Livros citados

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