Nº 6828 de outubro de 202043:17efeméride
A China da dinastia Ming e o navegador Zheng He
O episódio aborda a dinastia Ming chinesa, marcada pela designação de Pequim como capital em 1420 e pela construção da Cidade Proibida, explorando as expedições navais de Zheng He no Índico. Compara a expansão chinesa com a portuguesa, centrando-se na Batalha Naval de Diu (1509), onde D. Francisco de Almeida derrotou uma coligação mameluca-otomana-indiana, garantindo o domínio português no Índico durante mais de um século.
Ideias principais
- A China da dinastia Ming foi uma das maiores economias mundiais até ao século XVIII, com 125 milhões de habitantes no século XVI, mantendo uma continuidade civilizacional e imperial sem paralelo no Ocidente através do confucionismo e de uma burocracia mandarinal.
- As expedições de Zheng He (1405-1433) foram demonstrações de poder imperial com até 317 navios e 28 mil homens, seguindo rotas comerciais árabes estabelecidas para recolher tributo e reconhecimento do imperador, não sendo viagens de exploração como as portuguesas.
- A Batalha Naval de Diu (1509) foi decisiva para o domínio português no Índico, destruindo uma frota mameluca apoiada por Veneza e otomanos, sendo motivada também pela vingança pessoal de D. Francisco de Almeida pela morte do filho D. Lourenço em Chaul (1508).
- O poder português na Índia dependia de alianças locais e da divisão entre poderes regionais, com apenas 8 mil portugueses na Ásia em 1540, enfrentando impérios muito maiores como o Mughal (150 milhões) e o Otomano (30 milhões de habitantes).
- A prioridade de D. Manuel I era o Norte de África, não a Índia, enviando 400 navios e 25 mil homens para Azamor (1513), mas a derrota em Mâmora (1515) e a conquista otomana do Egito (1517) alteraram o equilíbrio de forças, com os otomanos a restabelecer a rota do Levante em meados do século XVI.
Resumo do episódio
Este episódio de *O Resto é História* parte de uma efeméride curiosa: a designação de Pequim como capital da dinastia Ming, há precisamente 600 anos, após a conclusão da Cidade Proibida. O pretexto serve a Rui Ramos e João Miguel Tavares para explorar a história da China imperial e, em seguida, a presença portuguesa no Índico, através da Batalha Naval de Diu de 1509.
Rui Ramos começa por enquadrar a China numa perspectiva historiográfica mais ampla. Durante décadas, a história universal foi contada essencialmente a partir da Europa, com a China a aparecer apenas quando os europeus com ela contactavam. Hoje, com a ascensão económica chinesa, o olhar mudou. A China é apresentada como uma das grandes civilizações agrárias e imperiais da Eurásia, com uma característica distintiva: uma continuidade notável ao longo de milénios. Ao contrário do Ocidente, marcado por rupturas como a queda de Roma e a cristianização, a China manteve a ideia de Império e a tradição confucionista desde o século V a.C. até ao início do século XX. Mesmo os invasores mongóis se apresentaram como herdeiros dos imperadores anteriores. Esta lógica de continuidade chega ao ponto de, em 1994, o Partido Comunista Chinês ter publicado uma lista de 85 obras fundamentais do pensamento chinês, das quais apenas cinco foram escritas depois de 1700 — contraste revelador com o que seria uma lista equivalente no mundo ocidental.
Dentro deste quadro, os apresentadores debruçam-se sobre a dinastia Ming, uma das poucas de origem Han, a etnia maioritária, encaixada entre os invasores mongóis e os futuros manchus. Foi sob os Ming que se construiu a Cidade Proibida e que surgiu a figura do navegador Zheng He, muçulmano, eunuco e almirante ao serviço do imperador Yongle. Zheng He comandou frotas colossais — a primeira, em 1405, reunia 317 barcos e 28 mil homens — que percorreram as rotas comerciais marítimas árabes até ao Mar Vermelho e às costas africanas. O objectivo não era explorar territórios desconhecidos, mas demonstrar o poder do novo imperador, que chegara ao trono por via de um golpe de Estado e precisava de legitimar o seu reinado perante o mundo. As expedições recolhiam delegados de reinos distantes para prestarem homenagem na Cidade Proibida, e traziam curiosidades exóticas como girafas, equivalente ao rinoceronte que mais tarde Dom Manuel receberia.
A segunda parte do episódio centra-se na Batalha Naval de Diu, em fevereiro de 1509, que dois ouvintes apontaram como a mais importante da história da Marinha Portuguesa. Rui Ramos contextualiza: os portugueses estavam no Índico há apenas uma década, a construir uma rede de fortes costeiros com o apoio de aliados locais, num tabuleiro político extremamente fragmentado. O comércio de especiarias exigia domínio militar, pois os comerciantes marítimos eram maioritariamente muçulmanos, hostis aos portugueses cristãos. A ameaça mais séria veio do sultanato mamluco do Egito, apoiado por Veneza — que temia perder o lucrativo comércio do Levante — e aliado ao Samorim de Calicut. Esta coligação reunia uma armada cosmopolita, com navios venezianos, artilheiros europeus, tripulações gregas e contingentes otomanos. Antes da batalha decisiva, o filho do vice-rei D. Francisco de Almeida, D. Lourenço, morreu num confronto preliminar em Chaul, transformando a campanha em vingança pessoal para o pai. A vitória portuguesa em Diu eliminou durante muitos anos qualquer poder naval capaz de rivalizar com Portugal no Índico.
Os apresentadores sublinham, porém, que esta hegemonia foi limitada e contestada. Quando os otomanos substituíram os mamelucos no Egito em 1517, tornaram-se adversários muito mais temíveis. Dio foi cercada por frotas otomanas em 1538 e 1546, e os otomanos chegaram mesmo a restabelecer as rotas do Levante como alternativa à Rota do Cabo. O episódio conclui com uma reflexão sobre escala e perspectiva: no século XVI e XVII, os impérios asiáticos — chinês, mughal, otomano — tinham populações e recursos muito superiores aos europeus. Portugal era, nas palavras de Rui Ramos, um império entre impérios, e os portugueses, conquistadores entre conquistadores, que souberam tirar partido das divisões locais, sem qualquer superioridade numérica ou tecnológica determinante.
Personagens
- Confúcio
- Marco Polo
- Zheng He
- Imperador Yongle
- Vasco da Gama
- D. Manuel I
- D. Francisco de Almeida
- D. Lourenço de Almeida
- Afonso de Albuquerque
- Amir Hussein
- D. Fernando Coutinho
- D. João III
- Solimão o Magnífico
Lugares
Épocas
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- século XXI
- dinastia Ming
- Antiguidade Clássica
- século V a.C.
Temas
- navegação
- expansão marítima
- comércio
- guerra naval
- imperialismo
- diplomacia
- colonialismo
- religião
- islamismo
- cristianismo
- burocracia
- filosofia
- eunucos
- especiarias
- escravatura
- castração
Eventos
- Designação de Pequim como capital Ming (1420)
- Construção da Cidade Proibida
- Expedições de Zheng He (1405-1433)
- Viagem de Vasco da Gama (1497-1499)
- Batalha Naval de Diu (1509)
- Batalha de Chaul (1508)
- Conquista otomana do Egito (1517)
- Cerco de Diu (1538)
- Expedição a Azamor (1513)
- Derrota portuguesa em Mâmora (1515)
- Massacre de portugueses em Calicut (1500)
Guerras e conflitos
- Batalha Naval de Diu
- Batalha de Chaul
- Cerco de Diu
- Guerras entre portugueses e otomanos no Índico
- Conquista portuguesa do Norte de África
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