Nº 3219 de fevereiro de 202041:17resposta a ouvintes
A origem da expressão "no tempo da outra senhora"
O episódio aborda três temas distintos: a evolução histórica das atitudes perante a morte e a eutanásia no Ocidente, segundo Philippe Ariès; a origem da expressão "no tempo da outra senhora" relacionada com o serviço doméstico; e a conquista de Madrid pelo exército português em 1706, durante a Guerra da Sucessão Espanhola, comandado pelo Marquês de Minas.
Ideias principais
- A atitude perante a morte no Ocidente evoluiu de uma morte pública e resignada na Idade Média para uma morte privada e vista como injustiça a partir dos séculos XIV-XV, tornando-se tabu no século XIX enquanto o sexo se dessexualizava.
- O debate sobre eutanásia médica começa no século XIX com médicos alemães que defendem o alívio do sofrimento dos moribundos, associado a movimentos laicistas que contestam a ideia cristã da santidade da vida.
- A expressão "no tempo da outra senhora" refere-se à patroa antiga numa época em que os criados domésticos entravam ao serviço de uma casa muito novos e lá ficavam décadas, servindo várias gerações da mesma família.
- O exército português conquistou Madrid em junho de 1706 durante a Guerra da Sucessão Espanhola, apoiando o Arquiduque Carlos contra Filipe V, mas teve de retirar e foi derrotado em Almansa em 1707.
- A corte portuguesa permaneceu no Brasil até 1821, dez anos após as invasões francesas, porque o Brasil era considerado a parte mais importante do reino e havia o risco de contágio independentista da América Espanhola.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* articula três temas distintos: a história das atitudes perante a morte e a eutanásia, a origem da expressão popular "no tempo da outra senhora", e dois episódios da história portuguesa — a conquista de Madrid pelo Marquês de Minas em 1706 e os motivos que levaram a Corte portuguesa a permanecer no Brasil durante uma década depois de afastada a ameaça napoleónica.
O episódio abre com uma reflexão sobre a história das atitudes perante a morte no Ocidente, ancorada sobretudo no trabalho do historiador francês Philippe Ariès. Rui Ramos sintetiza a tese central de Ariès: na Idade Média, a morte era um acontecimento público e partilhado, vivido com resignação, em que o moribundo era rodeado de familiares, vizinhos e crianças, e o enterramento era anónimo e colectivo. A partir dos séculos XIV e XV, foi-se instalando uma visão da morte como ruptura injusta e dolorosa, o que gerou dois movimentos aparentemente contraditórios — a privatização e o ocultamento da morte, e simultaneamente o surgimento de um culto individualizado dos mortos, com campas pessoais e rituais de memória. Ariès observou ainda que, a partir do século XIX, a morte foi progressivamente substituída pelo sexo como o grande tabu social, e que os hospitais passaram a ser o lugar privilegiado onde se morre, afastando a morte do espaço doméstico. Este percurso histórico enquadra o debate contemporâneo sobre a eutanásia: ao longo dos séculos, a ideia de uma "boa morte" esteve associada à fé cristã, ao heroísmo militar, à honra pessoal ou ao sacrifício pela pátria; hoje, a morte voluntária é cada vez mais enquadrada em termos de conforto, dignidade individual e recusa do sofrimento prolongado. O debate médico sobre a eutanásia surge formalmente no século XIX, com um médico alemão chamado Karl Heinrich Friedrich Marx, que defendeu que a medicina devia ocupar-se de aliviar o sofrimento dos moribundos — ideia que acabaria por conduzir, em Inglaterra e nos Estados Unidos, à discussão sobre o uso de drogas como a morfina para encurtar a vida.
A segunda parte do episódio responde a uma pergunta de um ouvinte sobre a expressão "no tempo da outra senhora". A explicação avançada remete para o mundo do serviço doméstico de outros tempos: "a outra senhora" seria simplesmente a patroa anterior da casa. Num tempo em que era comum os criados entrarem ao serviço de uma família muito jovens e aí permanecerem durante décadas, era natural que conhecessem sucessivas donas de casa e se referissem à anterior como "a outra senhora". Os apresentadores sublinham que o estranhamento actual face a esta explicação evidencia o quanto essa realidade social desapareceu.
A segunda metade do episódio é dedicada à entrada do exército português em Madrid em 1706, no contexto da Guerra da Sucessão de Espanha. Rui Ramos explica que, após a morte sem descendência de Carlos II de Espanha em 1700, dois pretendentes disputaram o trono: o arquiduque Carlos da Áustria e Filipe de Bourbon, neto de Luís XIV, que viria a ser Filipe V. Portugal, inicialmente apoiante dos Bourbon, mudou de campo em 1703, associando-se à Inglaterra e à Áustria. O Marquês de Minas, aproveitando a ausência de Filipe V de Madrid, entrou na cidade em junho de 1706 e proclamou Carlos rei de Espanha. A presença portuguesa em Madrid foi, porém, efémera: o apoio da população castelhana era escasso, o abastecimento era difícil e os exércitos franco-espanhóis regressaram rapidamente. A derrota na Batalha de Almança em 1707 selou o destino da campanha. O episódio termina com um balanço desta guerra: a Espanha perdeu os seus territórios europeus fora da Península, Portugal não obteve as cidades prometidas por Carlos de Áustria, mas saiu do conflito com a colónia do Sacramento no Rio da Prata e com a independência consolidada face a uma Espanha enfraquecida.
O episódio conclui explicando por que razão a Corte portuguesa só regressou do Brasil em 1821, dez anos após a última invasão francesa. A principal razão foi a prioridade estratégica do Brasil — considerado a parte irrecuperável do império — numa conjuntura de agitação independentista generalizada na América espanhola. A presença do rei no Rio de Janeiro era vista como garantia contra o contágio revolucionário, tanto mais que a Inglaterra, dominante nos mares, parecia favorável às independências americanas. A isso acrescia o interesse português em expandir o Brasil para o Rio da Prata, aproveitando a instabilidade na América espanhola.
Personagens
- Philippe Ariès
- Johan Huizinga
- Cristo
- Bocage
- Lucrecia
- Tarquínio
- Goethe
- Karl Heinrich Friedrich Marx
- Salazar
- Carlos II de Espanha
- Filipe V de Espanha
- Luís XIV
- Arquiduque Carlos de Áustria
- Leopoldo I
- D. Afonso VI
- D. Pedro II
- Marquês de Minas
- Dom António Luís de Sousa
- Duque de Alba
- D. João VI
- D. Pedro I do Brasil
- D. Carlota Joaquina
- Simón Bolívar
- Napoleão
Lugares
Épocas
- Idade Média
- século XIV
- século XV
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Antiguidade Clássica
- República Romana
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- Romantismo
Temas
- morte
- eutanásia
- religião
- historiografia
- guerra
- sucessão dinástica
- colonialismo
- diplomacia
- serviço doméstico
- independência
- comércio
Eventos
- fundação da República Romana
- perseguições romanas
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- ocupação soviética da Alemanha
- Revolução Bolivariana
- Batalha de Waterloo
Guerras e conflitos
- Guerra da Restauração
- Guerra da Sucessão Espanhola
- Batalha de Almansa
- invasões francesas
- guerras napoleónicas
Livros citados
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