Nº 3725 de março de 202043:23resposta a ouvintes
O sapateiro Bandarra, profeta do século XVI
Episódio de resposta a ouvintes sobre três temas: a história da dívida pública portuguesa e os períodos de 'vacas gordas' e 'vacas magras'; a vida nas colónias africanas entre a Primeira República e os anos 50; e a guerra civil entre D. Miguel e D. Pedro no século XIX, terminando com a figura do sapateiro-profeta Bandarra e o sebastianismo.
Ideias principais
- A distinção entre 'vacas gordas' e 'vacas magras' foi introduzida por Marcelo Caetano em 1973, mas Rui Ramos argumenta que mesmo períodos de grande crescimento económico, como os anos 60, coexistiram com pobreza, emigração maciça e guerra colonial.
- A colonização portuguesa em África foi tardia e limitada até meados do século XX: em 1900 havia apenas 15 mil portugueses em Angola e Moçambique, com o grande afluxo de colonos a ocorrer apenas nos anos 50 e 60, criando uma sociedade moderna e urbana.
- A guerra civil entre D. Miguel e D. Pedro (1828-1834) não foi apenas uma disputa dinástica, mas um confronto entre dois projectos políticos: o absolutismo tradicional contra a monarquia constitucional liberal, reflectindo correntes ideológicas europeias da época.
- O sapateiro Gonçalo Anes Bandarra, com as suas trovas proféticas do século XVI, originou uma corrente messiânica e sebastianista que atravessou séculos, influenciando o Padre António Vieira e Fernando Pessoa, e representando uma forma de milenarismo popular urbano.
- O messianismo português, embora com características próprias, não é um fenómeno único: correntes milenaristas similares, ligadas à expectativa apocalíptica e à transformação do mundo, existiram noutros países europeus, como a seita da Quinta Monarquia em Inglaterra no século XVII.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* foi gravado durante o período de confinamento da pandemia de COVID-19 e organiza-se em torno de três perguntas enviadas por ouvintes, percorrendo temas que vão da economia portuguesa à guerra civil do século XIX e à figura mítica do sapateiro Bandarra.
A primeira pergunta, colocada por Fernando Menezes Lopes, interroga se houve genuinamente um tempo de vacas gordas em Portugal e como se chegou a uma dívida pública na casa dos 120% do PIB. Rui Ramos recorda que a própria expressão foi introduzida por Marcelo Caetano numa alocução televisiva em 1973, precisamente no ano do choque petrolífero que separou os anos dourados do pós-guerra das décadas de dificuldade que se seguiram. Os apresentadores reconhecem que os anos sessenta registaram taxas de crescimento económico entre as mais elevadas da história portuguesa, chegando perto dos 10% anuais, mas sublinham um paradoxo: as pessoas viviam ainda em condições de grande pobreza, e foi precisamente nessa época que a emigração para França atingiu o seu pico. A guerra colonial e a ditadura completavam o quadro. O argumento central é que as fronteiras entre vacas gordas e vacas magras são sempre ambíguas: as épocas de prosperidade carregam em si crises, epidemias e guerras, e são muitas vezes elas próprias que preparam as dificuldades seguintes, seja porque a riqueza é efémera e conjuntural, seja porque gera expectativas e compromissos insustentáveis a longo prazo.
A segunda pergunta, do ouvinte André Rei, incide sobre a vida nas colónias africanas entre a Primeira República e os anos cinquenta. Rui Ramos explica que a escassez de memórias desse período tem uma razão simples: a presença portuguesa em Angola e Moçambique era então muito reduzida. Em 1900 calcula-se que havia apenas dez mil europeus em Angola e cinco mil em Moçambique, na sua maioria militares ou funcionários de companhias coloniais estrangeiras. Estas colónias tinham servido sobretudo como entrepostos do tráfico de escravos e, depois da abolição, tornaram-se destino de deportados, vistas como costas mortíferas e pouco atraentes. Foram as duas guerras mundiais que transformaram estes territórios em espaços economicamente relevantes, gerando mercados para os seus produtos. A grande mudança qualitativa deu-se na década de cinquenta, quando os colonos passaram a chegar com as famílias, instalando-se nas cidades e construindo uma vida moderna e relativamente abastada. Em 1960 havia 172 mil europeus em Angola, número que duplicaria até 1974, o que explica a memória quase paradisíaca que os retornados guardam de África.
A terceira pergunta, sobre a guerra civil entre D. Miguel e D. Pedro, e sobre a persistência de simpatias miguelistas em certos meios conservadores, permite a Rui Ramos clarificar que o conflito não era apenas dinástico, mas representava duas visões opostas de sociedade: a monarquia absoluta e a Igreja tradicional de um lado, a monarquia constitucional e o liberalismo do outro. O problema da legitimidade surgiu porque D. Pedro, herdeiro legítimo, se tornara imperador do Brasil após se ter revoltado contra o pai; mas D. Miguel também se tinha rebelado contra D. João VI durante a Abrilada de 1824. O engenhoso compromisso proposto por D. Pedro — dar uma Constituição a Portugal e casar a filha D. Maria com o tio D. Miguel, tornando-o regente — não satisfez nenhum dos campos e desembocou na guerra civil.
O episódio encerra com a figura do sapateiro Gonçalo Anes Bandarra, nascido por volta de 1500 em Trancoso, autor de trovas proféticas de inspiração bíblica que lhe valeram problemas com a Inquisição. Rui Ramos explica como os seus versos, deliberadamente enigmáticos, foram relidos em cada crise nacional: primeiro pelos sebastianistas após Alcácer-Quibir, depois pelos partidários de D. João IV após a Restauração de 1640, e ainda pelo Padre António Vieira, que os incorporou na sua teoria do Quinto Império. Fernando Pessoa retomou o tema na *Mensagem* em 1934. O messianismo do Bandarra inscreve-se numa corrente mais ampla de milenarismo popular europeu, que combina a crítica da ordem vigente com a expectativa de uma renovação quase apocalíptica, e que em Portugal atravessa séculos, reaparecendo, com roupagem secular, no republicanismo do início do século XX.
Personagens
Lugares
Épocas
- século XVI
- século XIX
- século XX
- anos 60
- anos 70
- Estado Novo
- Primeira República
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- guerras napoleónicas
- século XVII
- século XVIII
- século XV
Temas
- economia
- dívida pública
- crescimento económico
- colonialismo
- emigração
- guerra civil
- monarquia
- absolutismo
- liberalismo
- constitucionalismo
- messianismo
- sebastianismo
- profecia
- Inquisição
- comércio marítimo
- ouro do Brasil
- especiarias
Eventos
- Revolução do 25 de Abril
- choque do petróleo de 1973
- guerra de outubro de 1973
- crise financeira de 2008-2009
- bloqueio continental
- independência do Brasil
- Abrilada de 1824
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Restauração de 1640
- milagre de Ourique
- invasões francesas
- Revolução Puritana
Guerras e conflitos
- guerra colonial
- Guerra Civil de 1828-1834
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- guerras napoleónicas
- Revolução Francesa
- Batalha de Alcácer-Quibir
Livros citados
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