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Nº 38020 de outubro de 202651:16resposta a ouvintes

Afinal, quando é que Portugal faz 900 anos?

O episódio debate quando se deve comemorar a fundação de Portugal, analisando quatro datas possíveis: 1128 (Batalha de São Mamede), 1139 (Batalha de Ourique), 1143 (Tratado de Zamora) e 1147 (conquista de Lisboa). Rui Ramos contextualiza a formação do Reino de Portugal no século XII como um processo de autonomização de Afonso Henriques face ao Reino de Leão e Castela, explicando como diferentes historiadores e épocas escolheram datas distintas conforme os seus critérios e visões do que constitui a fundação de uma nação. Conclui que 1128 é defensável como momento inicial de afirmação política independente, embora a independência portuguesa tenha sido um processo longo que dependeu de sucessivos esforços ao longo de séculos.

Ideias principais

  1. Portugal não teve uma independência ao estilo das nações pós-coloniais do século XX com data marcada, mas resultou de um processo medieval gradual de autonomização política de Afonso Henriques face ao Reino de Leão e Castela
  2. A escolha da data de fundação reflecte as preocupações de cada época: o século XV privilegiou 1139 pelo elemento providencial do Milagre de Ourique; Alexandre Herculano em 1846 preferiu 1128 por ser um movimento colectivo contra estrangeiros; juristas do século XX defenderam 1143 ou 1179 pelo reconhecimento legal; e Oliveira Martins propôs 1147 pela integração de Lisboa
  3. A fundação de Portugal no século XII não foi uma luta de libertação nacional de um povo oprimido, mas sim a afirmação independente de um membro da família real de Leão e Castela apoiado por nobreza local — o que José Mattoso chamou de 'pré-história da nacionalidade'
  4. A independência portuguesa dependeu tanto dos actos fundadores de Afonso Henriques como de momentos posteriores cruciais de reafirmação: 1383-1385 contra Castela, 1640 contra Espanha, e 1808 contra a França napoleónica
  5. Rui Ramos defende 1128 (Batalha de São Mamede) como data comemorativa por marcar o momento em que Afonso Henriques e nobres portugueses se afirmaram como actor político independente, iniciando uma cadeia de esforços que culminou na nação portuguesa, mesmo reconhecendo que não havia ainda consciência nacional nessa data

Resumo do episódio

Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre uma questão aparentemente simples mas historiograficamente complexa: quando é que Portugal fez, ou faz, 900 anos? A pergunta chega por via de uma ouvinte que notou uma mudança na forma como as comemorações foram apresentadas — de «900 anos da Batalha de São Mamede» para «900 anos da fundação de Portugal» —, e pede ao historiador que esclareça o debate.

Rui Ramos começa por explicar que Portugal não nasceu como os Estados modernos, com um ato jurídico preciso e documentado, à maneira das independências africanas dos anos cinquenta e sessenta do século XX ou da declaração americana de 1776. Surgiu antes na Idade Média, num período com poucos documentos, o que significa que nem sequer é seguro saber se certos acontecimentos decisivos ocorreram de facto. O ponto de partida é o Condado Portucalense, um território vassalo do rei de Leão e Castela, governado por membros da família real desse reino — nomeadamente Dona Teresa, filha de Afonso VI, e o seu marido, o Conde Dom Henrique. A aspiração à autonomia não era surpreendente: em toda a Europa medieval, os grandes reinos tendiam a fragmentar-se, e a região de Portugal e Coimbra tinha condições específicas para isso — separação geográfica, uma fronteira militar activa com os muçulmanos, rivalidades eclesiásticas entre Braga e Santiago de Compostela, e uma nobreza local coesa entre o Douro e o Minho.

O episódio percorre então as várias datas que diferentes tradições e historiadores propuseram como momento fundador. A primeira grande data da tradição portuguesa foi 1139, associada à Batalha de Ourique, na qual Afonso Henriques teria derrotado forças muçulmanas e, segundo uma lenda que só surge no século XV, recebido a aparição de Cristo antes do combate. É nessa narrativa providencialista, trabalhada nos *Lusíadas* e noutros textos, que assenta a ideia de Portugal como reino escolhido por Deus. No século XIX, Alexandre Herculano recusou este mito e deslocou o momento fundador para 1128 e a chamada Batalha de São Mamede, em que Afonso Henriques e a nobreza portuguesa afastaram Dona Teresa e os seus aliados galegos — um confronto que Herculano leu como uma espécie de libertação nacional, uma colectividade a afirmar-se. Foi José Mattoso quem retomou esta leitura, falando numa «primeira tarde portuguesa». A data de 1143, a mais ensinada nas escolas durante décadas, corresponde a um encontro entre Afonso Henriques e o seu primo Afonso VII em Zamora, por volta do qual a chancelaria leonesa começou a tratar o primo como rei — mas não há nenhum tratado, nenhum documento formal. Ramos sugere mesmo que esta data se fixou em grande medida pela conveniência das comemorações do Estado Novo em 1940. Por fim, 1179 é a data do reconhecimento papal através da bula *Manifestis probatum*, em que Alexandre III reconhece explicitamente Afonso Henriques como rei de um reino cristão pleno — o documento mais sólido de todos, mas tardio. Oliveira Martins propôs ainda 1147, a conquista de Lisboa, argumentando que sem a capital o território não seria reconhecível como Portugal.

Confrontado com todas estas hipóteses, Rui Ramos recusa a ideia de que o processo do século XII deva ser lido como uma luta de libertação nacional no sentido moderno: não havia uma nação com consciência de si a libertar-se de um ocupante estrangeiro. O que havia era um membro da família real de Leão e Castela que, apoiado por uma nobreza local, criou um poder político autónomo. O historiador sublinha ainda que datas como 1383, 1640 e 1808 foram igualmente decisivas para a existência continuada de Portugal — mas que todas elas pressupõem o que aconteceu no século XII. No final, inclina-se para 1128 como a data mais defensável para comemorar: um momento real, documentável, em que um actor político independente se afirmou no noroeste peninsular — o ponto de partida de um longo processo, e não a manifestação de uma essência nacional eterna.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Idade Média
  • século XII
  • século IX
  • século XI
  • século XV
  • século XIX
  • século XX
  • década de 1840
  • anos 40
  • Estado Novo
  • décadas de 1950
  • décadas de 1960
  • décadas de 1970

Temas

  • fundação nacional
  • independência
  • monarquia
  • vassalagem
  • guerra
  • religião
  • historiografia
  • mitologia nacional
  • nacionalismo
  • documentação medieval
  • aristocracia
  • diplomacia papal
  • reconquista cristã
  • formação de Estados
  • memória histórica
  • identidade nacional

Eventos

  • Batalha de São Mamede
  • Batalha de Ourique
  • Tratado de Zamora
  • conquista de Lisboa
  • conquista de Santarém
  • conquista de Coimbra
  • Milagre de Ourique
  • Revolução de 1383-1385
  • Restauração de 1640
  • invasões francesas de 1808
  • celebrações dos 900 anos de Portugal
  • comemoração dos centenários
  • unificação da Itália
  • independência de Angola
  • declaração de independência dos Estados Unidos

Guerras e conflitos

  • Reconquista
  • ofensivas almorávidas
  • Guerra da Independência de 1808

Livros citados

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