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Nº 32423 de setembro de 202551:40resposta a ouvintes

Assassinos da Beira: Portugal já teve um faroeste

O episódio explora o fenómeno do banditismo violento em Portugal nos meados do século XIX, focando-se no gangue de João Brandão e outros grupos armados que dominaram a região da Beira após as guerras liberais. Rui Ramos explica como a instabilidade política, as múltiplas revoluções e guerras civis (1820-1851) criaram um vazio de poder que permitiu a estas quadrilhas controlar territórios, influenciar eleições e cometer dezenas de assassinatos com apoio tácito das autoridades. O episódio discute a controversa figura de João Brandão - bandido sanguinário ou político de métodos violentos - e como o seu poder terminou na década de 1860 com a consolidação do Estado liberal.

Ideias principais

  1. Entre 1820 e 1851, Portugal viveu nove revoluções e seis guerras civis em 30 anos, criando um contexto de violência generalizada que armou a sociedade e permitiu o surgimento de gangues como os de João Brandão na Beira e do Remexido no Algarve.
  2. João Brandão e o seu gangue funcionavam como uma autêntica máfia, controlando heranças, casamentos, eleições e cobrando proteção, com dezenas de mortes atribuídas apenas a João Brandão - que chegou a receber poderes oficiais do governo em 1853 para capturar um fugitivo.
  3. A historiografia divide-se entre ver João Brandão como criminoso comum (Joaquim Martins de Carvalho, 1890) ou como político liberal que usava métodos violentos numa época caótica (Dias Ferrão, 1928), sendo difícil distinguir onde acabava a política e começava a delinquência.
  4. O banditismo nas Beiras não se enquadra na tese clássica de Eric Hobsbawm sobre 'bandidos sociais' que roubavam aos ricos para dar aos pobres, tratando-se antes de divisões políticas de elites locais num contexto de fragilidade do Estado liberal.
  5. O fim do poder de João Brandão em 1866, condenado e degredado para Angola, marca a consolidação das autoridades administrativas do Estado centralizado liberal, que já não precisavam de bandos armados para controlar territórios e fazer eleições - terminando uma era de 'lei do punhal'.

Resumo do episódio

O episódio parte de uma referência feita em episódios anteriores sobre a perigosidade das estradas portuguesas no século XIX, nomeadamente a existência de bandos armados que aterrorizavam certas regiões do país. A resposta entusiasta dos ouvintes, curiosos sobre o tema dos "Assassinos da Beira", levou os apresentadores a dedicar este episódio a esse fenómeno. O ponto de partida é um livro publicado em 1890 pelo jornalista de Coimbra Joaquim Martins de Carvalho, que reuniu artigos escritos décadas antes sobre os crimes e a violência que grassavam na região da Beira, em particular na freguesia de Midões, no atual distrito de Coimbra. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram assim um Portugal que, a meados do século XIX, se assemelhava, em certos aspetos, a um faroeste — com gangues armados, extorsão, assassinatos e autoridades impotentes ou coniventes.

A figura central do episódio é João Brandão, nascido em 1825 em Midões, herdeiro de uma família de liberais com longa tradição de violência política e pertença a guerrilhas. O seu bando — composto por homens com alcunhas como o Anjinho ou o Venta Larga, armados com carabinas — era acusado de dezenas de assassinatos, intimidação sistemática de testemunhas e magistrados, extorsão, e controlo de heranças e casamentos na região. Casos paralelos, como o do gangue do Cacá em Coito ou os Marçais de Vila Nova de Foscoa, ilustram que este banditismo organizado não era exclusivo de Midões, mas um fenómeno disseminado por toda a Beira.

Os apresentadores explicam que este estado de coisas só é compreensível à luz da profunda instabilidade que Portugal atravessou entre 1820 e 1851: nove revoluções e seis guerras civis em trinta anos. As guerrilhas que apoiaram liberais e miguelistas durante os conflitos não se dissolveram com o fim das guerras, mantendo-se como bandos armados que preencheram o vazio deixado pela subversão das antigas hierarquias sociais — conventos extintos, fidalgos esvaziados de poder, câmaras municipais suprimidas, clero em conflito com o Estado. A estes fatores somou-se a utilidade eleitoral destes grupos: os partidos serviam-se deles para mobilizar votos ou impedir os adversários de votar, conferindo-lhes uma respeitabilidade política paradoxal. João Brandão chegou a ser vereador da câmara de Midões entre 1849 e 1854, e em 1853 o próprio governo de Lisboa, incapaz de capturar um preso fugido, entregou-lhe autoridade formal sobre todas as autoridades administrativas da região durante três meses — escândalo que Martins de Carvalho denunciou vigorosamente.

O episódio debate também a interpretação do fenómeno. Martins de Carvalho via João Brandão como um criminoso comum protegido pela cumplicidade política; um livro de 1928, da autoria do jurista Dias Ferrão, defendia que se tratava de um político liberal injustiçado pela má fama criada pelos seus adversários. Rui Ramos considera que ambas as visões captam algo de real: é difícil separar convicção política de delinquência num contexto em que muitos entraram nestes bandos por razões ideológicas e depois se habituaram à violência, enquanto outros usaram a cobertura política para se dedicar ao crime. A tese do historiador marxista Eric Hobsbawm sobre o "banditismo social" — segundo a qual estes bandidos seriam vistos pelas populações como justiceiros que roubavam aos ricos para dar aos pobres — é referida mas descartada como pouco aplicável ao caso da Beira.

A queda de João Brandão acompanha a consolidação do Estado liberal. Com o fim das guerras civis após 1851, a chegada dos caminhos de ferro e o reforço das autoridades administrativas, os políticos deixaram de precisar de bandos armados para controlar o território. Em 1866, João Brandão foi preso e condenado pelo assassinato de um padre, num julgamento em que as provas diretas eram escassas mas o peso dos crimes anteriores era avassalador. A pena de morte, entretanto abolida, foi comutada em degredo para África. Instalou-se em Angola, onde prosperou no negócio da cana-de-açúcar, morrendo em 1880. Os apresentadores concluem evocando a figura clássica do último pistoleiro do western, aquele que já sabe que o seu tempo acabou — só que, no caso português, em vez de cavalgar em direção ao sol poente, João Brandão seguiu de barco para Angola tratar da cana-de-açúcar.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIX
  • meados do século XIX
  • década de 1840
  • década de 1850
  • década de 1860
  • guerras liberais
  • guerras civis
  • 1807-1813
  • 1820-1851

Temas

  • banditismo
  • criminalidade
  • violência
  • política
  • guerras civis
  • liberalismo
  • absolutismo
  • eleições
  • justiça
  • miguelismo
  • guerrilha
  • máfia
  • colonialismo
  • Estado
  • administração pública
  • religião
  • Igreja Católica

Eventos

  • Revolução Liberal de 1820
  • Guerra Civil (1832-1834)
  • Maria da Fonte (1846)
  • Patuleia (1846-1847)
  • Regeneração (1851)

Guerras e conflitos

  • Guerras Liberais
  • Guerras Napoleónicas em Portugal
  • Guerra Civil Portuguesa (1832-1834)
  • Guerra da Patuleia

Livros citados

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