Nº 35314 de abril de 202648:19resposta a ouvintes
Remexido: o guerrilheiro que aterrorizou o Algarve
O episódio analisa a figura de José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, guerrilheiro miguelista que aterrorizou o Algarve entre 1833 e 1838. Rui Ramos argumenta que, mais do que um bandido, o Remexido foi um guerrilheiro político que manteve uma guerra de resistência miguelista após o fim da Guerra Civil, com um exército organizado que incluía secretaria militar, regimentos e sistema de pagamento. A discussão explora a violência de ambos os lados, as condições que permitiram a guerrilha e a repressão brutal que levou à sua captura e execução sumária em 1838.
Ideias principais
- O Remexido era um homem instruído e educado no seminário, de família abastada, que se tornou capitão das ordenanças miguelistas e não um simples bandido ou delinquente comum.
- A guerrilha do Remexido (1836-1838) foi uma campanha política organizada para restaurar D. Miguel, com estrutura militar completa incluindo regimentos, arquivo, secretaria e sistema de pagamento de soldados.
- A violência da Guerra Civil no Algarve foi extrema de ambos os lados: liberais fuzilavam prisioneiros sistematicamente e miguelistas massacravam adversários, com a população civil apanhada no meio das represálias.
- As autoridades liberais recorreram a medidas drásticas como a evacuação total da Serra do Algarve e uma política de terra queimada, fuzilando qualquer pessoa encontrada na serra, incluindo menores de idade.
- O mito do 'quem vive' (escolher entre D. Miguel ou D. Pedro à porta) é provavelmente falso porque nas comunidades locais toda a gente sabia quem estava de cada lado, embora ilustre bem a violência sectária do período.
Resumo do episódio
O episódio é dedicado à figura de José Joaquim de Sousa Reis, conhecido como o Remexido, um guerrilheiro miguelista que perturbou o Algarve e parte do Alentejo entre 1836 e 1838, na sequência da Guerra Civil liberal. O ponto de partida é o pedido de um ouvinte de 82 anos, natural de São Bartolomeu de Messines, que recorda histórias transmitidas pelo bisavô sobre o terror que o Remexido semeava pela Serra Algarvia — incluindo a lenda da pergunta "Quem vive?", com que guerrilheiros de ambos os lados obrigavam os camponeses a declarar se eram de Dom Miguel ou de Dom Pedro, sob pena de morte. Rui Ramos questiona a veracidade literal desta história, argumentando que, numa guerra tão localizada, toda a gente sabia bem de que lado estava cada família, mas reconhece que o episódio capta bem o clima de violência e de escolhas forçadas que marcou a época.
O Remexido não era um bandido de origem humilde. Nascido em 1796 em Estombar, filho de lavrador e sobrinho de um padre que custeou a sua educação no Seminário de Faro, chegou a receber ordens menores e a pregar. Acabou por abandonar a carreira eclesiástica para casar com uma herdeira rica, contra a vontade do tio, e fixou-se em São Bartolomeu de Messines como administrador de propriedades e cobrador de dízimos. Era uma figura pública respeitada na região: fundou uma escola primária, promoveu uma feira local e era descrito como homem eloquente, cortês e de boas maneiras. A sua filiação miguelista era anterior à aclamação de Dom Miguel em 1828 — já em 1826 participara numa sublevação na região —, pelo que a sua explicação posterior de que simplesmente obedecia à autoridade constituída não convence os apresentadores.
Quando os liberais desembarcaram no Algarve em junho de 1833, o Remexido entrou em guerra à frente de centenas de homens das ordenanças miguelistas, conquistando Portimão e Albufeira e travando combates significativos. A guerra no Algarve distinguia-se do resto do país pela brutalidade: massacres de prisioneiros, incêndios de cartórios, saques de ambos os lados. Depois da derrota de Dom Miguel em 1834, o Remexido alegou querer beneficiar da amnistia, mas a violência das represálias liberais — incluindo o açoitamento público da sua mulher e a perseguição ao filho — terá inviabilizado qualquer regresso à vida civil. Rui Ramos aceita que houve perseguições sérias: um jornal inglês registou 67 miguelistas assassinados no Algarve num único ano, muitos mortos pelas próprias escoltas que os transportavam presos.
Em julho de 1836, o Remexido recomeça a guerrilha, desta vez com uma estrutura surpreendentemente organizada: arquivo militar, correspondência oficial, regimentos com designações regulares, soldados pagos e relatórios de operações. Dom Miguel, no exílio, nomeia-o governador do Algarve e brigadeiro. Os guerrilheiros ocupavam temporariamente aldeias, faziam proclamações a favor de Dom Miguel, assaltavam estancos e cobravam "requisições" segundo listas previamente elaboradas com os nomes e os montantes devidos por cada habitante. Liberais notórios eram executados. Os apresentadores sublinham que este projeto tinha objetivos políticos claros — restaurar Dom Miguel, articular com os carlistas espanhóis que avançavam sobre a Andaluzia — e não se reduzia a mero banditismo, embora o Remexido próprio reconhecesse, no seu julgamento, que as guerras civis sempre atraem quem delas se serve para vinganças e saques.
A resposta liberal foi igualmente dura: suspensão de garantias constitucionais no Algarve, fuzilamento imediato de todos os guerrilheiros capturados incluindo menores, e, em maio de 1838, a evacuação forçada de toda a população da Serra para isolar os combatentes. Privado de apoio logístico, o Remexido foi capturado a 28 de julho de 1838 após uma batalha que causou 56 baixas entre os seus homens. Levado a Faro montado num burro para o humilhar, foi julgado num conselho de guerra que os apresentadores descrevem como uma farsa: sem advogado, sem direito de recurso, condenado e fuzilado em menos de 24 horas. O seu filho Manuel da Graça Reis assumiu o comando, mantendo a guerrilha ativa até 1839, quando acabou por morrer das feridas na sequência de uma captura. O episódio termina com os apresentadores a lamentar que esta história, rica em fontes documentais e em personagens cativantes, ainda não tenha merecido adaptação cinematográfica.
Personagens
- José Joaquim de Sousa Reis (Remexido)
- D. Miguel I
- D. Pedro IV
- D. Maria II
- João Brandão de Midões
- José do Telhado
- Visconde de Sá da Bandeira
- Manuel da Graça Reis
- Marçal Espada (Padre)
- D. Carlos (Infante de Espanha)
- Isabel II de Espanha
- José Domingos (ouvinte)
- Marçais de Foscoa
- Brandões
Lugares
Épocas
- século XIX
- guerras liberais
- anos 1830
- década de 1820
Temas
- guerra civil
- guerrilha
- banditismo
- conflito político
- miguelismo
- liberalismo
- violência política
- represálias
- religião
- perseguição política
Eventos
- Guerras Liberais
- Revolução de Setembro de 1836
- Aclamação de D. Miguel (1828)
- Desembarque liberal no Algarve (1833)
- Batalha de São Bartolomeu de Messines (1834)
- Captura do Remexido (1838)
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Portuguesa (1828-1834)
- Guerra Civil Espanhola Carlista
- Guerrilha do Remexido (1836-1838)
Livros citados
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