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Nº 15606 de julho de 202242:45série especial

Biblioteca básica de História de Portugal 1

Episódio especial de aniversário dedicado a criar uma biblioteca básica de história de Portugal, focando em 10 monografias académicas publicadas nos últimos 50 anos. Rui Ramos apresenta obras fundamentais que mudaram a historiografia portuguesa, desde a formação medieval do reino até à aristocracia do século XVIII, destacando novos métodos e perspectivas que revolucionaram a compreensão de temas aparentemente esgotados.

Ideias principais

  1. A renovação historiográfica portuguesa dos últimos 50 anos permitiu contar histórias completamente novas mesmo sobre temas muito estudados, através de novos métodos (estudos de parentesco, geografia histórica, arqueologia) e novas perspectivas teóricas.
  2. José Matoso revolucionou o estudo da formação de Portugal ao reconstruir as redes familiares da nobreza e ao aplicar a perspectiva geográfica de Orlando Ribeiro sobre os contrastes regionais entre senhorios do norte e concelhos do sul.
  3. Luís Krus demonstrou que a nobreza portuguesa medieval se via como vanguarda de uma missão providencialista peninsular de reconquista, revelando uma identidade que transcendia as fronteiras do reino através da análise dos livros de linhagens.
  4. António José Saraiva lançou a provocação fundamental sobre a fiabilidade dos documentos inquisitoriais obtidos sob tortura, questionando se a Inquisição não seria uma 'máquina de fazer judeus' motivada pelo confisco de bens.
  5. A expansão portuguesa foi uma empresa descentralizada de todos os grupos sociais, não um projeto imperial centralizado a partir de Lisboa, com muitos portugueses integrados nas economias locais por conta própria, segundo Luís Filipe Tomás.

Resumo do episódio

Neste episódio especial, gravado para assinalar o terceiro aniversário do podcast, Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a um pedido recorrente dos ouvintes: que livros de história de Portugal vale a pena ler? Em vez de recomendar histórias gerais, já mais conhecidas do público, Rui Ramos elaborou uma lista de vinte e dois estudos especializados, publicados nos últimos cinquenta anos, que trouxeram perspectivas novas à historiografia portuguesa. Por razões práticas, o episódio cobre apenas os primeiros dez títulos, ficando os restantes doze para uma segunda parte. Os critérios de selecção são três: obras especializadas e não sínteses gerais, publicadas desde o final da década de 1960, e que tenham efectivamente mudado a maneira de olhar para a história de Portugal. A ordem de apresentação é cronológica pelos temas abordados, da Idade Média ao século XIX.

O primeiro livro é *Identificação de um País*, de José Mattoso, publicado em 1985, sobre a formação do reino de Portugal nos séculos XII e XIII. Partindo de documentação há muito conhecida, Mattoso renovou completamente o tema ao reconstruir as linhagens e os conflitos entre famílias nobres na corte régia, e ao integrar a ideia dos contrastes regionais entre um norte dominado por senhorios e um sul de concelhos, mostrando como o rei soube tirar partido dessa tensão para se afirmar como figura acima dos poderes locais. O segundo título é *A Concepção Nobiliárquica do Espaço Ibérico*, de Luís Krus, de 1994, obra que Rui Ramos elogia sem reservas como uma das maiores da historiografia portuguesa e europeia do século XX. Krus estudou os livros de linhagens medievais para perceber a lógica com que a nobreza portuguesa atribuía lugares geográficos aos acontecimentos narrados, concluindo que essa geografia reflectia uma visão providencialista: a nobreza portuguesa via-se como vanguarda de uma nobreza peninsular com missão histórica de conquista aos mouros, o que lança nova luz sobre figuras como Nuno Álvares Pereira.

O terceiro livro, *Aljubarrota Revisitada*, coordenado por João Gouveia Monteiro em 2001, recorre a métodos arqueológicos, forenses e topográficos para ir além das fontes narrativas sobre a batalha de 1385, analisando ossadas, armamento e tácticas de combate. O quarto, *Os Descobrimentos e a Formação do Oceano Atlântico*, de Luís Adão da Fonseca, propõe uma leitura medievalista da expansão marítima, situando as suas raízes já no século XIV e num Atlântico que as sociedades europeias já exploravam e imaginavam antes do Renascimento. O quinto é *A Expansão Portuguesa*, de Luís Filipe Thomaz, que desmonta a ideia de um império centralizado e comandado de Lisboa, sublinhando o carácter descentralizado da expansão e a integração de muitos portugueses nas economias locais onde chegaram.

Os títulos seguintes alargam o arco temático e metodológico. Os *Ensaios* de Vitorino Magalhães Godinho, de 1968, incluem análises decisivas sobre as finanças públicas portuguesas e a dependência do Estado face às receitas do comércio ultramarino, gerando um Estado desproporcionadamente grande para um país pequeno. *Inquisição e Cristãos Novos*, de António José Saraiva, de 1969, desafia a fiabilidade dos documentos inquisitoriais obtidos sob tortura, levantando a hipótese de a Inquisição ter fabricado confissões de judaísmo para confiscar bens, numa das obras mais polémicas e intelectualmente corajosas da historiografia portuguesa. O oitavo título é um estudo de Jorge Borges de Macedo sobre Damião de Góis e a historiografia portuguesa, que examina como foi construído o conhecimento histórico no século XVI. O nono, *O Maneirismo e o Estatuto Social dos Pintores Portugueses*, de Vítor Serrão, de 1983, estuda o momento em que os pintores portugueses deixaram de ser tratados como artesãos e passaram a ser reconhecidos como artistas, associados às artes liberais e ao estatuto da nobreza. O décimo livro é *O Crepúsculo dos Grandes*, de Nuno Gonçalo Monteiro, de 1998, que analisa os patrimónios, as alianças matrimoniais e os empregos públicos da grande aristocracia portuguesa entre meados do século XVIII e o início do século XIX, iluminando a Restauração de 1640, o ataque pombalino à nobreza e o significado social da Revolução Liberal.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Idade Média
  • século XII
  • século XIII
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX

Temas

  • historiografia
  • metodologia histórica
  • formação de Portugal
  • nobreza
  • expansão marítima
  • descobrimentos
  • Inquisição
  • cristãos-novos
  • história da arte
  • maneirismo
  • aristocracia
  • revolução liberal

Eventos

  • Batalha de Aljubarrota
  • fundação do Reino de Portugal
  • Restauração de 1640
  • Revolução Liberal

Guerras e conflitos

  • Batalha de Aljubarrota
  • crise de 1383-1385
  • Reconquista

Livros recomendados

Livros citados

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