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Nº 1920 de novembro de 201943:25efeméride

A infanta portuguesa que fundou o Museu do Prado

Episódio dedicado aos 200 anos do Museu do Prado (fundado a 19 de novembro de 1819), cuja criação foi impulsionada pela infanta portuguesa Maria Isabel de Bragança, filha de D. João VI e rainha de Espanha. Aborda também a génese dos museus em Portugal no século XIX, a conspiração do Sinédrio que precedeu a Revolução Liberal de 1820, e termina com recomendações de livros de história bem escritos para o grande público.

Ideias principais

  1. Maria Isabel de Bragança, rainha de Espanha aos 19 anos e morta aos 21, foi a principal impulsionadora do Museu do Prado, construído com as colecções reais espanholas que incluíam a maior coleção de mestres italianos fora de Itália.
  2. Os museus em Portugal surgem sobretudo após a Revolução Liberal de 1834, com duplo objetivo: educar o público e servir de modelo aos artistas e industriais, sendo muitos criados a partir de coleções expropriadas aos conventos extintos.
  3. O Sinédrio de 1818 foi menos uma conspiração organizada e mais uma rede informal de magistrados e maçons no Porto que, inspirados pela revolução espanhola de 1820, acabaram por despoletar a Revolução Liberal portuguesa de 24 de agosto de 1820.
  4. A historiografia portuguesa sofre de um problema de divulgação: ao contrário do mundo anglófono e francês, os historiadores académicos portugueses privilegiam a obscuridade técnica em vez de escrever para o grande público culto e interessado.
  5. Os grandes historiadores do século XIX, como Herculano, Michelet ou Ranke, eram simultaneamente grandes escritores lidos pelo público geral, tradição que se mantém em países anglófonos com autores como Simon Schama ou Niall Ferguson, mas que Portugal tem dificuldade em manter.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* foi gravado a 19 de novembro de 2019, data que coincidiu com o bicentenário da abertura do Museu do Prado, e é precisamente aí que começa a conversa entre Rui Ramos e João Miguel Tavares. Os apresentadores recordam que o museu foi inaugurado a 19 de novembro de 1819 como Museu Real de Pintura e Escultura, e chamam a atenção para uma figura portuguesa frequentemente esquecida nesta história: a infanta Maria Isabel de Bragança, filha de D. João VI e de Carlota Joaquina, que se tornaria a segunda esposa de Fernando VII de Espanha. Foi ela quem impulsionou a criação do museu, ainda que a sua vida tenha sido trágica e breve — morreu aos 21 anos durante o segundo parto, numa circunstância macabra que lhe valeu o epíteto de «a rainha que morreu duas vezes», pois reza a lenda que foi operada pelos médicos após terem presumido erroneamente a sua morte. O casamento de Isabel com Fernando VII, celebrado em 1816, inseria-se numa estratégia diplomática mais ampla da coroa portuguesa, então sediada no Rio de Janeiro, para estreitar laços com as monarquias europeias através de alianças matrimoniais. Ao mesmo tempo, uma irmã de Isabel, D. Maria Francisca, casava com o infante Carlos Maria Isidro, irmão de Fernando VII, tornando as duas irmãs cunhadas. Rui Ramos sublinha que estas infantas portuguesas acabariam por ter um papel politicamente relevante na Espanha das décadas seguintes, sobretudo pelo alinhamento com a causa absolutista que o infante Carlos representava.

A conversa alarga-se depois ao tema dos museus em Portugal, com os apresentadores a interrogarem-se sobre as origens desta instituição no país. Rui Ramos percorre vários casos — desde o Real Museu de História Natural e Jardim Botânico da Ajuda, nos anos 60 do século XVIII, até ao museu privado do comerciante britânico John Francis Allen no Porto, aberto em 1836 e visitável ao domingo com o próprio proprietário como guia — para mostrar que a fronteira entre coleção privada e museu público era, durante muito tempo, ténue. A grande viragem ocorre com o liberalismo: a partir de 1834, os liberais apropriam-se dos espólios artísticos dos conventos e mosteiros extintos e fundam com eles as primeiras coleções públicas. A República de 1910 repetiria o gesto com os bens eclesiásticos. Os museus serviam propósitos variados — educar artistas e artesãos, formar o gosto e a identidade nacional — e o episódio menciona ainda o Museu de Artilharia (1851) e o Museu dos Coches, inaugurado em 1905 por iniciativa da rainha D. Amélia.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores respondem à pergunta de um jovem ouvinte sobre o Sinédrio. Rui Ramos explica que esta associação, fundada no Porto por volta de 1818, era na prática uma rede informal de magistrados e funcionários públicos preocupados com o estado do país — a corte ausente no Brasil, o exército sob comando britânico, as finanças públicas em colapso e o comércio prejudicado pela abertura do Brasil ao mundo. O Sinédrio nunca foi uma organização verdadeiramente conspiratória: os seus membros almoçavam, discutiam, queixavam-se uns dos outros e raramente chegavam a agir. Só a Revolução Liberal espanhola de 1820 os galvanizou a contactar oficiais do exército, o que viria a desencadear o movimento de 24 de agosto de 1820 no Porto. Paradoxalmente, foram depois ultrapassados pelos militares, que construíram uma mitologia em torno da revolução para legitimar o seu poder. O novo governo afastou os oficiais ingleses, exigiu o regresso do rei e convocou as cortes constituintes que produziram a Constituição de 1822.

O episódio encerra com uma reflexão sobre a escrita da história para o grande público. Rui Ramos lamenta o preconceito universitário português contra a divulgação histórica e recorda que os grandes historiadores do século XIX — Herculano, Michelet, Macaulay, Ranke, Mommsen — foram também grandes escritores lidos por públicos vastos. Recomenda dois livros recentes de autores portugueses: *O Drama de Magalhães* de Luís Filipe Thomaz, uma releitura original e acessível da viagem de circum-navegação, e *Templários em Portugal* de Paula Pinto Costa, síntese rigorosa sobre a Ordem do Templo dirigida ao leitor não especializado.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIX
  • século XVIII
  • século XVII
  • Invasões Francesas
  • Período Liberal
  • Primeira República

Temas

  • museus
  • arte
  • monarquia
  • casamentos dinásticos
  • maçonaria
  • revolução liberal
  • constitucionalismo
  • conspiração
  • história da cultura
  • divulgação histórica

Eventos

  • Revolução Liberal de 1820
  • Abertura do Museu do Prado
  • Guerra das Laranjas
  • Invasões Francesas
  • Revolução Constitucional de 1820
  • Extinção das ordens religiosas
  • Proclamação da República (1910)

Guerras e conflitos

  • Guerra das Laranjas
  • Invasões Francesas
  • Primeira Guerra Mundial

Livros recomendados

Livros citados

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