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Nº 5024 de junho de 202041:06efeméride

Cabo Verde podia ainda fazer parte de Portugal?

O episódio 50 celebra três efemérides: os 80 anos da Exposição do Mundo Português (1940), os 45 anos da independência de Cabo Verde (1975) e os 70 anos da Guerra da Coreia (1950). Rui Ramos explica como a exposição de 1940 foi o maior golpe propagandístico do Estado Novo, que procurava consenso nacional em plena Segunda Guerra Mundial, e analisa porque é que Cabo Verde não se manteve como região autónoma portuguesa, ao contrário dos Açores e Madeira. O episódio termina com uma análise da Guerra da Coreia como o primeiro grande conflito armado da Guerra Fria.

Ideias principais

  1. A Exposição do Mundo Português de 1940 foi a maior realização cultural e propagandística em Portugal entre o século XIX e a Expo 98, reconfigurando toda a zona de Belém e fixando a imagética dos Descobrimentos que perdura até hoje.
  2. O Estado Novo conseguiu, pela primeira vez desde o século XIX, ter recursos financeiros suficientes para grandes obras públicas graças à política de estabilização financeira de Salazar nos anos 30, ao contrário da Monarquia Constitucional e da Primeira República que viveram em permanente austeridade.
  3. Cabo Verde poderia ter-se mantido ligado a Portugal como região autónoma (à semelhança dos Açores e Madeira), o que seria vantajoso para a população local, mas a prioridade portuguesa em 1974-75 era acabar rapidamente com a guerra, entregando todos os territórios aos movimentos armados sem realizar referendos de autodeterminação.
  4. As populações dos territórios ultramarinos não tiveram poder de decisão sobre o seu futuro nem antes nem depois de 1974: o Estado Novo defendia todos os territórios por princípio ideológico, e as autoridades revolucionárias entregaram todos por igual, independentemente das condições locais ou da vontade das populações.
  5. A Guerra da Coreia (1950-53) foi o único conflito direto entre potências da Guerra Fria, com chineses e americanos em combate aberto, e quase levou ao uso da bomba nuclear, mas não se tornou um atoleiro como o Vietnã porque foi uma guerra convencional com apoio das Nações Unidas e sem a contestação interna que marcaria os anos 60.

Resumo do episódio

Este episódio assinala o quinquagésimo programa do podcast e aborda três temas distintos, ligados por efemérides históricas. O primeiro é a Exposição do Mundo Português de 1940, o segundo é a independência de Cabo Verde, cujos 45 anos se comemoravam aquando da gravação, e o terceiro é o 70.º aniversário do início da Guerra da Coreia.

Rui Ramos e João Miguel Tavares começam por contextualizar a Exposição do Mundo Português, inaugurada a 23 de junho de 1940 na zona de Belém, em Lisboa. Os apresentadores sublinham que durante quase um século esta foi a maior realização do género em Portugal, não sendo superada até à Expo 98. A exposição transformou fisicamente toda a área junto ao Mosteiro dos Jerónimos, legando à cidade a praça fronteira ao mosteiro, o Monumento aos Descobrimentos — naquela altura construído em materiais efémeros e posteriormente reconstruído em pedra para o centenário henriquino de 1960 — e os jardins circundantes. Os pavilhões foram concebidos pelos melhores arquitectos e artistas plásticos portugueses da época, como Pardal Monteiro, Raul Lino, Almada Negreiros e Leopoldo de Almeida. Os apresentadores explicam que a exposição não foi um fenómeno isolado, inserindo-se num programa mais vasto de obras públicas que incluiu o aeroporto da Portela, centenas de escolas primárias e um ambicioso programa de restauro de monumentos. A razão pela qual o Estado Novo pôde financiar tudo isto residia no facto de, pela primeira vez em décadas, as finanças públicas estarem saneadas, ao contrário do que acontecera com a Monarquia Constitucional, prostrada desde a bancarrota de 1892, ou com a Primeira República, marcada por austeridade crónica. Do ponto de vista político, a exposição servia o propósito de apresentar o regime como uma terceira via entre as democracias liberais e os totalitarismos, e de o identificar com a totalidade da história e da cultura portuguesas, mobilizando para isso artistas de diversas sensibilidades, incluindo alguns da oposição. Os apresentadores salientam ainda que as imagens criadas por esta exposição — designadamente as representações dos navegadores quinhentistas — acabaram por moldar o imaginário colectivo de gerações inteiras, sobretudo porque coincidiram com o esforço de escolarização massiva da juventude empreendido pelo Estado Novo a partir dos anos 40.

O segundo tema, suscitado pela pergunta de um ouvinte, é se Cabo Verde poderia ter permanecido como região autónoma de Portugal, à semelhança dos Açores e da Madeira, em vez de se ter tornado independente em 1975. Rui Ramos considera que, no contexto da época, tal era impossível, não tanto por vontade expressa das populações — em Cabo Verde não havia guerra nem um movimento independentista de base alargada — mas pela lógica política que se instalou após o 25 de Abril. A prioridade das novas autoridades portuguesas era acabar rapidamente com as guerras coloniais, o que implicava reconhecer os partidos armados como representantes legítimos dos povos e entregar-lhes o poder, sem realizar os referendos prometidos. Esta lógica, que antes da revolução se traduzia em defender todos os territórios por igual, passou a traduzir-se em entregá-los todos por igual, independentemente das circunstâncias locais. Em Cabo Verde, as eleições de junho de 1975 foram condicionadas: os opositores ao PAIGC foram presos ou deportados para Lisboa pelas próprias Forças Armadas Portuguesas, e o sistema eleitoral adoptado garantiu uma assembleia monopartidária. Só em 1990, após a queda do Muro de Berlim, se realizaram eleições verdadeiramente pluripartidárias, nas quais o partido no poder foi de imediato derrotado. Os apresentadores notam que a própria liderança histórica cabo-verdiana chegou a reconhecer, retrospectivamente, que uma solução federada ou autonómica poderia ter sido mais vantajosa para o arquipélago.

O terceiro tema é a Guerra da Coreia, iniciada a 25 de junho de 1950. Os apresentadores descrevem como a divisão da península ao longo do paralelo 38, acordada entre soviéticos e americanos no final da Segunda Guerra Mundial, gerou dois regimes opostos. A invasão do Sul pelo Norte, ordenada por Kim Il-sung com a aprovação de Estaline — que subestimou a reacção americana, tal como Hitler subestimara a dos aliados europeus —, desencadeou uma intervenção massiva sob mandato das Nações Unidas, possível apenas porque a União Soviética boicotava o Conselho de Segurança e não exerceu o direito de veto. Ao contrário do Vietname, a Guerra da Coreia foi um conflito convencional, o que favoreceu a superioridade tecnológica americana, e decorreu numa época em que a sociedade americana mantinha a coesão moral herdada da Segunda Guerra Mundial. O conflito permanece singular por ter sido o único em que forças americanas e chinesas combateram directamente, e por o seu resultado — a divisão persistente da península — se manter inalterado até hoje.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Estado Novo
  • Segunda Guerra Mundial
  • século XIX
  • século XX
  • Primeira República
  • Guerra Fria
  • Idade Média
  • anos 20
  • anos 30
  • anos 40
  • anos 60

Temas

  • propaganda
  • colonialismo
  • descolonização
  • independência
  • guerra
  • império
  • ditadura
  • democracia
  • arquitetura
  • arte
  • escolarização
  • obras públicas
  • autonomia
  • federalismo
  • autodeterminação
  • Guerra Fria
  • conflito nuclear

Eventos

  • Exposição do Mundo Português
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução dos Cravos
  • Restauração de 1640
  • independência de Cabo Verde
  • Expo 98
  • bancarrota de 1892
  • Primeira Guerra Mundial
  • golpe comunista na Checoslováquia
  • queda do muro de Berlim
  • crise dos mísseis de Cuba

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra da Coreia
  • Guerra Colonial Portuguesa
  • Guerra Fria
  • Guerra do Vietnã
  • guerra da Guiné

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