Nº 17623 de novembro de 202248:39resposta a ouvintes
O melhor livro para compreender Portugal? É este
Episódio dedicado a perguntas de ouvintes aborda três temas principais: a importância fundamental da obra de Orlando Ribeiro 'Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico' (1945) para compreender os contrastes norte-sul de Portugal; a evolução histórica da propriedade rural desde o Antigo Regime até ao século XX; e as razões pelas quais a China obteve lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU em 1945, apesar da sua debilidade à época.
Ideias principais
- Orlando Ribeiro foi o primeiro a demonstrar que as diferenças regionais portuguesas entre norte atlântico e sul mediterrâneo não são meras curiosidades, mas estruturam profundamente a sociedade, cultura e política portuguesas até hoje.
- O contraste norte-sul identificado por Orlando Ribeiro manifesta-se em dimensões tão diversas como clima, povoamento, propriedade agrícola, dialetos, práticas religiosas e comportamento eleitoral, criando não uma sociedade homogénea mas plural.
- A transição da propriedade rural do Antigo Regime para o liberalismo foi um processo complexo e juridicamente ambíguo, em que a noção moderna de propriedade só se consolida no século XIX, e os contrastes regionais mantiveram-se apesar das reformas políticas.
- A China obteve assento permanente no Conselho de Segurança da ONU em 1945 porque era já o país mais populoso do mundo, tinha sido aliado crucial dos EUA na guerra contra o Japão desde 1937, e os americanos queriam simbolizar que as Nações Unidas não seriam um novo diretório europeu do mundo.
- O lugar da China no Conselho de Segurança foi inicialmente ocupado pela República da China nacionalista de Chiang Kai-shek até 1971, quando transitou para a República Popular da China comunista, congelando no Conselho uma fotografia do mundo de 1945 que persiste até hoje.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a três perguntas de ouvintes, abordando temas tão distintos como a geografia histórica de Portugal, a estrutura da propriedade rural e a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A primeira e mais desenvolvida questão gira em torno do geógrafo Orlando Ribeiro e do seu livro *Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico*, publicado em 1945. Rui Ramos não hesita em classificá-lo como o livro mais importante publicado sobre Portugal no século XX, defendendo que qualquer pessoa que queira compreender o país deveria lê-lo. Orlando Ribeiro, professor da Faculdade de Letras de Lisboa e discípulo de José Leite de Vasconcelos, foi pioneiro ao levar a sério as diferenças internas de Portugal — até então tratadas como meras curiosidades pitorescas — e ao demonstrar que estruturavam profundamente a sociedade portuguesa. A sua tese central assenta numa divisão entre um Norte atlântico, mais chuvoso, com povoamento disperso, minifúndio e forte prática religiosa, e um Sul mediterrâneo, mais seco, de grandes planícies, latifúndio e menor densidade eclesiástica. A fronteira entre estes dois mundos situa-se grosso modo entre a Serra da Estrela e o rio Tejo. Depois da publicação do livro, historiadores, linguistas, etnólogos e cientistas políticos foram confirmando e aprofundando este contraste. As eleições de abril de 1975 tornaram-no ainda mais evidente: o Norte votou à direita e o Sul à esquerda, revelando que as diferenças identificadas por Ribeiro na paisagem e na sociedade rural se projectavam também nas preferências políticas. O historiador José Mattoso retomou este quadro interpretativo no seu livro *Identificação do País*, de 1985, usando-o para explicar a própria formação do reino de Portugal na Idade Média. Os apresentadores sublinham ainda que o livro de Ribeiro é também um documento literário de grande valor, oferecendo uma descrição sensorial e minuciosa de um Portugal rural que entretanto desapareceu.
A segunda pergunta, sobre como as terras senhoriais passaram para mãos dos camponeses no Norte do país após o liberalismo, dá azo a uma reflexão sobre a história da propriedade rural. Rui Ramos explica que o contraste entre o minifúndio nortenho e o latifúndio alentejano tem raízes muito anteriores ao século XIX, condicionadas pela geografia, pelo clima e pela demografia. Usando dados de 1910, ilustra como Viana do Castelo e Évora representam dois mundos opostos em termos de dimensão e distribuição da propriedade. A ideia moderna de propriedade privada plena é, ela própria, uma construção jurídica do século XIX: antes, os camponeses cultivavam a terra e pagavam foros ou dízimos a nobres e ao clero, mas a titularidade era juridicamente ambígua. Os liberais aboliram dízimos e forais em 1832-34, mas os tribunais ainda debatiam se estavam a extinguir impostos ou contratos. No Norte, factores como a introdução do milho americano no século XVI — que impulsionou a produção agrícola e o crescimento demográfico — e as remessas dos emigrantes para o Brasil terão contribuído para a disseminação da pequena propriedade.
A terceira pergunta incide sobre a presença da China como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas desde 1945. Rui Ramos aponta três razões principais. Em primeiro lugar, a China era então o país mais populoso do mundo, com cerca de 525 milhões de habitantes, e o critério não foi apenas a força presente mas o peso passado e potencial futuro, o mesmo raciocínio que valeu à França o seu lugar apesar da ocupação alemã. Em segundo lugar, a China desempenhou um papel central na Segunda Guerra Mundial: esteve em guerra com o Japão desde 1937 e foi reconhecida pelos Estados Unidos como um dos quatro grandes aliados, tendo o seu líder, Chiang Kai-shek, participado na Conferência do Cairo em 1943. Em terceiro lugar, os Estados Unidos pretendiam sinalizar que as Nações Unidas não seriam um novo directório europeu do mundo. Note-se que o lugar permanente foi inicialmente ocupado pela China nacionalista de Chiang Kai-shek, representada depois em Taiwan, e só em 1971 passou para a República Popular da China. O episódio conclui com a observação de que a composição do Conselho de Segurança continua a reflectir o mundo de 1945, congelado num momento em que havia clareza sobre quem detinha poder suficiente para o definir.
Personagens
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- fins do século XIX
- princípio do século XX
- 1945
- 1975
- Estado Novo
- Idade Média
- século XVI
- 1910
- 1832-1834
- 1937-1945
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- 1941-1945
- 1971
Temas
- geografia
- etnografia
- sociedade rural
- propriedade agrícola
- reforma liberal
- senhorialismo
- geografia eleitoral
- contrastes regionais
- alfabetização
- família
- religião
- dialectos
- imigração
- remessas
- gastronomia
- revolução liberal
- dízimos
- forais
- relações internacionais
- Nações Unidas
- Conselho de Segurança
Eventos
- eleições de 25 de Abril de 1975
- Conferência do Cairo de 1943
- Declaração das Nações Unidas de 1942
- Pearl Harbor
- Revolução do Milho
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Sino-Japonesa
- Primeira Guerra Mundial
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