← Arquivo

Nº 37225 de agosto de 202647:43resposta a ouvintes

Como aprenderam os portugueses a ler e a escrever?

O episódio analisa a evolução da alfabetização em Portugal desde o século XVI até ao século XX, explicando por que Portugal manteve taxas de analfabetismo excepcionalmente elevadas na Europa Ocidental. Rui Ramos argumenta que a ausência de uma Reforma Protestante e a inexistência de disputas linguísticas nacionais impediram a alfabetização massiva que ocorreu noutros países europeus. O Estado Novo, ao contrário da Primeira República e do liberalismo monárquico, conseguiu progressos significativos através do "método dos países pobres", recorrendo a postos de ensino baratos em vez de escolas caras e ideologicamente condicionadas.

Ideias principais

  1. Portugal teve a mais alta taxa de analfabetismo da Europa Ocidental até muito tarde no século XX, chegando a 1980 com 17% de adultos analfabetos, quase três vezes mais que a Grécia
  2. A alfabetização massiva na Europa resultou de dois processos que não operaram em Portugal: a Reforma Protestante no Norte, que promoveu o acesso direto à Bíblia, e a construção de Estados Nacionais no século XIX que precisaram de impor línguas nacionais em territórios linguisticamente fragmentados
  3. Os liberais e republicanos portugueses falharam na alfabetização porque subordinaram o objectivo de ensinar a ler e escrever a uma guerra cultural contra a tradição católica, insistindo em escolas caras que o Estado nunca teve recursos para generalizar
  4. O Estado Novo conseguiu o maior avanço na alfabetização portuguesa ao adoptar o "método dos países pobres": postos de ensino com professores amadores locais pagos com gratificações, duplicando a escolarização infantil entre 1926 e 1940
  5. Em 1960, pela primeira vez desde a proclamação da obrigatoriedade em 1835, 100% das crianças em idade escolar estavam na escola, embora o analfabetismo adulto permanecesse elevado porque nunca houve esforço sério de recuperação da população rural mais velha

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma dúvida enviada por um ouvinte sobre o papel da Primeira República na democratização do ensino em Portugal para abordar uma questão mais ampla: como é que os portugueses aprenderam a ler e a escrever, e por que razão o analfabetismo foi durante tanto tempo o mais elevado da Europa Ocidental? Rui Ramos, que estudou e publicou sobre o tema, conduz a discussão com base na sua própria investigação.

O ponto de partida é a constatação de que Portugal foi, durante séculos, o país mais analfabeto da Europa Ocidental, ficando abaixo de Espanha, Itália e Grécia. Em 1980, ainda havia 17% de adultos analfabetos, quase o triplo da Grécia, que era o segundo pior. Para explicar esta situação, Rui Ramos identifica dois grandes motores históricos da alfabetização na Europa que simplesmente não funcionaram em Portugal. O primeiro foi a Reforma Protestante, que no norte da Europa levou as populações a aprender a ler para aceder directamente à Bíblia, ainda que se tratasse de uma literacia rudimentar, muitas vezes sem escrita. O segundo foi a construção dos Estados nacionais no século XIX, que precisaram de ensinar línguas nacionais a populações que falavam dialectos ou línguas muito distintas — como aconteceu em França, Itália ou Espanha. Em Portugal, nenhum destes estímulos se aplicou: a Igreja Católica não valorizava a leitura individual dos textos sagrados, e a língua portuguesa era já falada de forma mutuamente compreensível dentro de fronteiras estáveis, sem disputas territoriais que tornassem urgente "nacionalizar" a população através da escola.

Apesar disso, havia alguma literacia em Portugal, estimada entre 25% e 30% dos adultos na segunda metade do século XIX. Rui Ramos sublinha que esta alfabetização era antiga, provavelmente já presente no século XVIII, e de melhor qualidade do que a escandinava: quem sabia ler, sabia também escrever, ao contrário do que sucedia no norte da Europa. Era uma literacia adquirida com mestres particulares, fora do sistema escolar, de forma utilitária — aprendia-se quando havia necessidade prática, como o comércio com o Brasil, que explicaria os altos níveis de alfabetização masculina no Minho. As mulheres, por seu turno, eram mais alfabetizadas no Sul do que no Norte, o que poderá relacionar-se com os diferentes papéis sociais em cada região.

A grande questão é perceber por que razão a monarquia constitucional, que decretou o ensino primário obrigatório em 1835, e depois a Primeira República, que fez grandes proclamações a favor da instrução, não conseguiram reduzir significativamente o analfabetismo. Rui Ramos avança com uma hipótese: para liberais e republicanos, o objetivo real da escola não era ensinar técnicas de leitura e escrita, mas arrancar as crianças ao meio tradicional e católico, convertendo-as aos valores do liberalismo e do republicanismo. Isso implicava escolas com edifícios próprios, laboratórios, ginásios e professores profissionais bem pagos e ideologicamente formados — um modelo extraordinariamente caro que o Estado, cronicamente deficitário, nunca conseguiu financiar. A colaboração da Igreja e das congregações religiosas, que poderiam ter desempenhado um papel semelhante ao que tiveram noutros países europeus, foi sistematicamente recusada por razões ideológicas. O resultado foi que a taxa de analfabetismo passou de 70% em 1910 para 66% em 1926 — uma redução mínima, inferior à que ocorreria naturalmente sem qualquer intervenção.

É o Estado Novo que, paradoxalmente, regista os maiores avanços. Salazar propõe o que designa de "método dos países pobres": em vez de escolas caras com professores diplomados, criam-se postos de ensino confiados a pessoas locais com alguma instrução, pagas com uma gratificação modesta, que ensinam as crianças nas suas próprias aldeias. Em dez anos, a taxa de escolarização das crianças passa de 26% para 53%, e o analfabetismo infantil cai de 73% para 46%. Em 1940, pela primeira vez, mais de metade dos portugueses adultos sabe ler e escrever. Em 1960, pela primeira vez desde que o ensino obrigatório fora decretado em 1835, todas as crianças em idade escolar estão efectivamente na escola. Rui Ramos é claro ao dizer que este facto não legitima o regime nem compensa a ausência de liberdades públicas, mas que ignorá-lo seria fazer história pela legislação em vez de pelos factos.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Primeira República
  • Estado Novo
  • Reforma Protestante
  • Revolução Francesa
  • monarquia constitucional

Temas

  • educação
  • alfabetização
  • analfabetismo
  • religião
  • Igreja Católica
  • protestantismo
  • Estado Nacional
  • língua nacional
  • política educativa
  • liberalismo
  • republicanismo
  • industrialização
  • urbanização
  • desenvolvimento
  • migração

Eventos

  • Reforma Protestante
  • Revolução Francesa
  • unificação italiana
  • obrigatoriedade do ensino primário (1835)
  • retirada do direito de voto aos analfabetos (1913)
  • plano dos centenários (1940)
  • plano de educação popular (1952)

Episódios relacionados