Nº 12929 de dezembro de 20211h01resposta a ouvintes
O Marquês de Pombal segundo Nuno Gonçalo Monteiro
O episódio debate o impacto da expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal em 1759 sobre a alfabetização e o desenvolvimento de Portugal. Nuno Gonçalo Monteiro argumenta que a influência educativa dos jesuítas foi exagerada historiograficamente e que a expulsão teve efeitos mais limitados do que se supõe. O historiador caracteriza Pombal não como reformador iluminista mas como 'valido' - um favorito real que acumulou poder pragmaticamente, sem programa ideológico coerente.
Ideias principais
- A expulsão dos jesuítas em 1759 teve impacto educativo muito mais limitado do que a mitologia histórica sugere, pois os jesuítas não tinham uma rede escolar que cobrisse o território nacional ao nível da alfabetização de massas.
- A campanha antijesuítica de Pombal resultou de conflitos coloniais no Brasil (Tratado de Madrid) e não de um programa ideológico prévio, tendo o próprio Pombal sido inicialmente visto como 'homem dos jesuítas'.
- Pombal deve ser entendido como 'valido' (favorito real que monopoliza o acesso ao rei) e não como reformador iluminista com programa coerente, exercendo poder baseado na confiança pessoal de D. José I.
- A noção de 'atraso' português emerge no século XVIII quando a polarização religiosa católica-protestante se transmuta em percepção de desfasamento económico entre Europa do Norte e Península Ibérica.
- As reformas liberais do século XIX introduziram transformações jurídicas e políticas fundamentais (igualdade civil, separação público-privado, governo representativo) que não devem ser minimizadas apesar dos fracos resultados económicos imediatos.
Resumo do episódio
Neste episódio de final de 2021, Rui Ramos e João Miguel Tavares convidam o historiador Nuno Gonçalo Monteiro, especialista na história moderna portuguesa, para responder a uma das perguntas mais repetidas pelos ouvintes do programa: terá a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759, provocado um atraso duradouro na escolarização e na alfabetização em Portugal, com consequências negativas para o desenvolvimento económico do país nos séculos seguintes?
Monteiro começa por contextualizar a questão, explicando que a ideia de "atraso" relativamente a outras nações europeias só emerge enquanto conceito articulado na primeira metade do século XVIII. Até então, a polarização entre países católicos e protestantes era sobretudo de natureza religiosa. O que muda neste período é que essa oposição passa a associar-se a uma percepção económica: Inglaterra, Holanda e partes da Alemanha e da França surgem como territórios em crescimento mais rápido, ao passo que a Europa católica, outrora dominada pela Espanha dos Filipes, começa a ser descrita como mais pobre e mais supersticiosa. Os jesuítas tornam-se o símbolo por excelência desse suposto atraso, absorvendo críticas que vinham não apenas do exterior mas também de outras ordens religiosas, como os oratorianos.
Quanto à pergunta central, Monteiro é categórico: existe um grande exagero na ideia de que a expulsão dos jesuítas terá sido a causa principal do analfabetismo português. Os jesuítas nunca constituíram uma rede escolar espalhada por todo o território nacional — havia apenas 818 em Portugal em meados do século XVIII — e o seu ensino atingia sobretudo as elites. A grande alavanca da alfabetização nos países europeus era, nessa época, a leitura da Bíblia ao nível paroquial, nos países protestantes. Portugal, com quase quatro mil paróquias e sem escolas generalizadas, não dispunha de qualquer rede equivalente. A extinção da Companhia de Jesus prejudicou o ensino das elites e foi seguida por um esboço de escola pública que nunca funcionou plenamente, mas não destruiu algo que, na prática, não existia à escala nacional.
Sobre as razões da expulsão, Monteiro desfaz outro mito: Pombal não chegou ao poder com convicções antijesuíticas. Pelo contrário, era visto como próximo da Companhia. A ruptura resultou sobretudo dos conflitos no Brasil em torno da aplicação do Tratado de Madrid, que previa a transferência de territórios sob administração jesuítica para a coroa. Os relatórios enviados pelo seu irmão e por outros governadores foram alimentando uma imagem de resistência organizada, que o terramoto de 1755 e a pregação do padre Malagrida vieram agravar. A esta tensão respondeu Pombal com uma máquina discursiva poderosa — de que a *Dedução Cronológica e Analítica* de 1768 é o exemplo mais extremo — que atribuía todos os males históricos de Portugal à Companhia de Jesus, consolidando paradoxalmente a imagem de uma ordem omnipresente e omnipotente que a realidade não justificava.
Os apresentadores levam depois Monteiro a discutir a natureza do poder pombalino. O historiador prefere a categoria de *valido* ou favorito régio à de reformador iluminista, não para negar as reformas, mas para sublinhar que a autoridade de Pombal assentava na confiança pessoal de D. José e não em qualquer regimento formal. As suas reformas não tinham uma coerência ideológica clara e eram frequentemente respostas oportunistas a circunstâncias concretas. A própria caracterização de Pombal como déspota esclarecido é problemática, dado o controlo cerrado da imprensa e a ausência de qualquer limite institucional ao poder régio durante o seu governo.
Personagens
- Marquês de Pombal
- Sebastião José de Carvalho e Melo
- D. José I
- D. João V
- Nuno Gonçalo Monteiro
- Luís António Verney
- Inácio de Loyola
- Luís de Molina
- Francisco Soares
- Gomes Freire de Andrade
- Francisco Xavier de Mendonça Furtado
- Padre Malagrida
- Alexandre de Gusmão
- Filipe II de Espanha
- Filipe IV de Espanha
- Conde-Duque de Olivares
- Richelieu
- Adam Smith
- Mouzinho da Silveira
- Oliveira Martins
- D. Rodrigo de Sousa Coutinho
- Pufendorf
- Grotius
- Pedro Cardim
- Saldanha
Lugares
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XVII
- século XVI
- século XX
- Antigo Regime
- Iluminismo
- época moderna
Temas
- educação
- analfabetismo
- religião
- jesuítas
- expulsão de ordens religiosas
- reforma do ensino
- absolutismo
- despotismo esclarecido
- razão de Estado
- mercantilismo
- reformismo ilustrado
- polarização religiosa
- catolicismo vs protestantismo
- atraso económico
- crescimento económico
- política colonial
- ordens religiosas
- elites
- alfabetização
- direito natural
- ordem jurídica liberal
- caciquismo
- clientelismo
- igualdade civil
- liberdade de imprensa
- censura
- valido
- favorito real
- poder político
- anticlericalismo
Eventos
- expulsão dos jesuítas (1759)
- Terramoto de Lisboa (1755)
- Tratado de Madrid
- Guerra de Sucessão Espanhola
- extinção da Companhia de Jesus
- Reforma da Universidade de Coimbra
- reconstrução de Lisboa
- Revolução Liberal
- atentado contra D. José (Vila Viçosa, 1769)
Guerras e conflitos
- Guerra de Sucessão Espanhola
Livros citados
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