Nº 2211 de dezembro de 201945:11resposta a ouvintes
O que é essa coisa da Maçonaria, exatamente?
O episódio aborda três temas principais da história portuguesa: o regresso de D. João VI do Brasil em 1821 e a sua submissão ao novo regime constitucional; a história e influência da maçonaria em Portugal desde o século XVIII até à actualidade; e o brutal Processo dos Távoras de 1759, incluindo o atentado contra D. José I e a violenta repressão do Marquês de Pombal contra a aristocracia e os jesuítas.
Ideias principais
- O regresso de D. João VI a Lisboa em 1821 foi cuidadosamente controlado pela regência constitucional, que o impediu de desembarcar livremente e o manteve sob escolta para evitar que contactasse com apoiantes absolutistas.
- A maçonaria portuguesa dividiu-se entre a tradição anglo-saxónica 'regular' (mística e compatível com a religião) e os 'Grandes Orientes' de inspiração francesa (revolucionária e republicana), sendo esta última a mais influente nos movimentos liberais e republicanos portugueses.
- O Processo dos Távoras representou uma ruptura violenta com as práticas anteriores de execução em Portugal, com torturas públicas sem precedentes que visavam não só punir um alegado atentado mas também quebrar o poder da aristocracia tradicional.
- O Marquês de Pombal utilizou o atentado contra D. José I para eliminar sistematicamente todos os grupos que limitavam o poder real: a aristocracia tradicional (Távoras), os jesuítas (Padre Malagrida) e até movimentos populares (Motim do Porto), tornando o seu governo um dos mais sanguinários da história portuguesa.
- A rivalidade dinástica entre os Duques de Aveiro (descendentes de D. João II) e os Braganças tinha paralelos noutras cortes europeias, como a tensão entre Bourbons e Orléans em França, mostrando que a política dinástica era central na organização do poder no Antigo Regime.
Resumo do episódio
O episódio abre com uma comparação bem-humorada entre a chegada de Greta Thunberg a Lisboa, em 2019, e o regresso do rei D. João VI do Brasil, a 4 de julho de 1821. Rui Ramos explica que este regresso, exigido pela Revolução Liberal de agosto de 1820, foi rodeado de uma encenação política muito calculada. O rei tinha permanecido no Rio de Janeiro durante treze anos, mesmo após o fim das guerras napoleónicas, em parte para evitar que o Brasil seguisse o caminho das independências latino-americanas e, mais tarde, também por receio de ficar sob a tutela do novo poder constitucional em Lisboa. Quando afinal regressou, as Cortes fizeram questão de controlar meticulosamente o seu desembarque: impediram-no de sair do navio na hora que desejava, cercaram a embarcação real com escaleres para evitar qualquer contacto com apoiantes e conduziram-no diretamente ao Palácio das Necessidades para jurar a Constituição. O Marquês de Fronteira, nas suas memórias, descreveu a cena com ironia: os deputados que queriam mostrar que mandavam acabaram por se ajoelhar todos perante o rei, numa submissão involuntária e ridícula. D. João VI aceitou a situação sem resistência, ao contrário da rainha D. Carlota Joaquina e do infante D. Miguel, que nunca se conformaram com o novo regime.
O tema central do episódio é a Maçonaria, recuperado a propósito de declarações feitas durante debates internos no PSD. Rui Ramos traça a origem histórica da instituição, situando o seu surgimento significativo no século XVIII, em Inglaterra e na Escócia, associado ao espírito iluminista: por um lado, os ideais de fraternidade e progresso; por outro, uma dimensão hermética e secreta que gerou desconfiança nas monarquias e na Igreja Católica. Inicialmente, a Maçonaria era sobretudo uma moda das elites — aristocratas, militares, magistrados —, com rituais de iniciação e jantares em comum. Foi a Revolução Francesa de 1789 que lhe conferiu uma conotação política mais intensa, ao ser acusada pelos contra-revolucionários de ter conspirado para derrubar Luís XVI. A partir daí, consolidou-se uma associação entre Maçonaria, republicanismo e liberalismo, que em Portugal se revelou particularmente forte: muitos dos líderes da Revolução Liberal de 1820 e da vitória liberal de 1834 eram maçons, assim como quase todos os dirigentes republicanos que fizeram a revolução de 1910. Rui Ramos sublinha, porém, que seria um erro imaginar a Maçonaria como uma organização unida e coerente: estava dividida em lojas e federações frequentemente em conflito, e muitos dos seus membros nunca passavam do primeiro grau de iniciação, participando de forma intermitente e pouco comprometida. Durante o Estado Novo, uma lei de 1936 proibiu as sociedades secretas sem nomear explicitamente a Maçonaria, e os funcionários públicos eram obrigados a jurar que não pertenciam a tais organizações, embora o próprio Presidente Carmona fosse conhecido por ter sido iniciado.
A segunda parte do episódio é dedicada ao caso dos Távoras, a partir de uma pergunta de um ouvinte sobre a influência desta família antes e depois da perseguição pombalina. Os Távoras eram uma das mais antigas e poderosas famílias da nobreza portuguesa, com raízes desde os séculos XIV e XV, uma forte implantação regional em Trás-os-Montes, uma tradição militar e laços estreitos com a Companhia de Jesus. Na sequência do atentado contra D. José, na noite de 3 de setembro de 1758, os principais membros da família foram presos e executados em janeiro de 1759, num suplício de extrema violência — mortos à pancada com massas de ferro —, pouco comum para aristocratas. Rui Ramos explica que o Marquês de Pombal aproveitou o atentado para golpear precisamente os grupos que limitavam o poder régio: a aristocracia tradicional, as ordens religiosas e uma população habituada a resistir. A mesma lógica de repressão brutal aplicou-se ao Motim do Porto de 1757, onde dezenas de pessoas, incluindo mulheres, foram condenadas à morte. O Duque de Aveiro, único a confessar o atentado, foi o mais duramente punido: além da execução, o seu palácio foi demolido, o terreno salgado e a cidade de Aveiro chegou a ser renomeada Nova Bragança. Rui Ramos enquadra estes conflitos numa rivalidade dinástica de fundo, comparando a situação dos Aveiros — descendentes bastardos de D. João II — com a dos Duques de Orleães em França, famílias que, sem reinar, nutriam ressentimentos e ambições que podiam ter consequências políticas imprevisíveis.
Personagens
- Greta Thunberg
- D. João VI
- D. Carlota Joaquina
- Infante D. Miguel
- D. Pedro I do Brasil (D. Pedro IV de Portugal)
- Marquês de Fronteira
- Rui Rio
- Luís XVI
- D. José I
- Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal)
- Marquesa de Távora
- Marquês de Távora
- Duque de Aveiro (José de Mascarenhas)
- Teresa Leonor
- Padre Gabriel Malagrida
- D. Maria I
- Marquês de Lorna
- General Carmona
- Palma Carlos
- Mário Soares
- Barão de Forrester
- Nuno Gonçalo Monteiro
- D. João V
- Frei Gaspar da Encarnação
- Duque de Cadaval
- D. João II
- D. João I
- Duque de Orléans
Lugares
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira República
- Estado Novo
- Revolução Liberal de 1820
- Invasões Francesas
- Revolução Francesa de 1789
- Iluminismo
Temas
- monarquia
- constitucionalismo
- maçonaria
- revolução
- aristocracia
- repressão política
- conspirações
- sociedades secretas
- iluminismo
- Igreja Católica
- jesuítas
- atentados políticos
- execuções públicas
- regionalismo
- política dinástica
Eventos
- Invasões Francesas (1807)
- Revolução Liberal de 1820
- Regresso de D. João VI a Lisboa (1821)
- Independência do Brasil (1822)
- Terremoto de Lisboa (1755)
- Atentado contra D. José I (1758)
- Processo dos Távoras (1759)
- Motim do Porto (1757)
- Revolução Francesa (1789)
- Revolução Republicana (1910)
- 25 de Abril de 1974
Guerras e conflitos
- Invasões Francesas
- Guerra Civil de 1834
Livros citados
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