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Nº 19826 de abril de 202350:40resposta a ouvintes

Há um rei português enterrado em Espanha? Sim, há

Episódio que aborda duas questões históricas: primeiro, a deposição de D. Sancho II no século XIII pelo irmão, o futuro D. Afonso III, e o facto de ser o único rei português sepultado fora de Portugal (em Toledo); segundo, a Revolta do Gueto de Varsóvia em abril-maio de 1943, o maior ato de resistência coletiva de judeus contra os nazis, uma luta desesperada de 700 combatentes mal armados que durou 27 dias contra forças alemãs superiores.

Ideias principais

  1. D. Sancho II foi afastado do governo por incapacidade de manter a ordem no reino, numa época marcada por violência entre nobres e saques generalizados, sendo declarado 'rex inutilis' pelo Papa Inocêncio IV em 1245.
  2. O padrão histórico português de destronamento mostra que até ao século XX apenas membros da família real podiam afastar um monarca, como aconteceu com D. Sancho II, D. Afonso VI e D. Miguel, todos depostos por irmãos.
  3. O Gueto de Varsóvia concentrava 400 mil judeus em apenas 2,4% da área metropolitana, com condições terríveis onde um quarto da população morreu de fome antes mesmo das deportações para campos de extermínio começarem no verão de 1942.
  4. A Revolta do Gueto em abril de 1943 foi motivada pela consciência de que a deportação significava morte certa e pela perceção de que a Alemanha começava a perder a guerra, levando os combatentes a quererem decidir eles próprios quando morreriam.
  5. A resistência judaica durou 27 dias contra 2 mil soldados alemães com artilharia e tanques, obrigando os nazis a demolir sistematicamente todas as edificações e conquistar o gueto casa a casa, numa demonstração de heroísmo desesperado que continua a ser comemorada.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: o destino do rei Dom Sancho II de Portugal, o único monarca português sepultado fora do território nacional, e a Revolta do Gueto de Varsóvia de 1943. A pergunta de partida, enviada por um ouvinte, é precisamente por que razão Dom Sancho II jaz em Toledo e não em Portugal.

Rui Ramos começa por contextualizar o reinado de Dom Sancho II, filho de Dom Afonso II, que subiu ao trono por volta dos treze ou catorze anos, em 1223. O seu reinado foi marcado por uma grave incapacidade de impor autoridade: as conquistas territoriais no Alentejo e no Algarve, ainda no contexto da Reconquista, foram levadas a cabo sobretudo pelas ordens militares e não pelo próprio rei, e a única iniciativa militar direta conhecida — a tentativa de tomar Elvas em 1226 — terminou em fracasso. O reino vivia um clima de violência generalizada entre grupos nobres, com ataques a mosteiros e saques de propriedades, situação que o rei parecia incapaz de controlar. A família real foi-se dispersando: uma irmã casou com o rei da Dinamarca, um irmão foi para Castela, e o infante Dom Afonso, irmão mais novo, acabou por se instalar em França sob a proteção da rainha Branca de Castela, tornando-se conde de Bolonha por via do casamento.

A crise decisiva começa em 1245. Dom Afonso, conde de Bolonha, denuncia ao Papa o casamento do irmão com Dona Mécia Lopes de Haro, alegando parentesco ilícito entre os cônjuges, numa manobra interpretada pelos historiadores como tentativa de impedir a geração de herdeiros legítimos. O Papa Inocêncio IV aproveita a ocasião para declarar Dom Sancho II *rex inutilis* — rei incapaz de governar — e nomeia o conde de Bolonha regente do reino. A partir do final de 1245, Dom Afonso entra em Portugal, toma Lisboa e controla a Extremadura, enquanto Dom Sancho II fica sitiado em Coimbra, vendo até a própria rainha ser raptada pelas forças adversárias. Em finais de 1246, o rei de Castela Fernando III envia um exército em socorro de Dom Sancho II, comandado pelo seu filho e futuro Afonso X, que derrota os partidários do conde de Bolonha. Todavia, em março de 1247, o príncipe castelhano retira-se — provavelmente atraído pela iminente conquista de Sevilha — e leva consigo Dom Sancho II, que morre em Toledo em janeiro de 1248, com cerca de trinta e nove anos, sem nunca ter regressado a Portugal.

Os apresentadores evocam a lenda de Martim de Freitas, alcaide do castelo de Coimbra que, fiel ao juramento prestado a Dom Sancho II, recusou entregar a praça ao conde de Bolonha enquanto não confirmasse pessoalmente a morte do rei. Segundo a tradição, terá viajado a Toledo, colocado as chaves nas mãos do cadáver real e só então as entregado ao novo governante. Dom Sancho II, que no testamento expressara o desejo de ser sepultado em Alcobaça, ficou na Catedral de Toledo junto de antepassados castelhanos. Remodelações no século XVI fizeram perder o rasto do túmulo, e uma comissão portuguesa enviada em 1947 também não o conseguiu identificar.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores abordam a Revolta do Gueto de Varsóvia, ocorrida entre abril e maio de 1943. Rui Ramos explica como os nazis concentraram cerca de quatrocentos mil judeus numa área de pouco mais de três quilómetros quadrados no centro de Varsóvia, cercada por muros de três metros. As condições eram devastadoras: fome, epidemias de tifo e superlotação causaram a morte de cerca de cem mil pessoas antes mesmo das deportações. A partir do verão de 1942, os nazis começaram a esvaziar o gueto, enviando os seus habitantes para campos de extermínio. Com a confirmação dos rumores sobre o destino dos deportados e as notícias das derrotas alemãs em Stalingrado e no Norte de África, cerca de setecentos jovens combatentes, muito mal armados, decidiram resistir. A revolta durou vinte e sete dias, obrigando as tropas alemãs a conquistar o gueto casa a casa e túnel a túnel, até à destruição sistemática de todos os edifícios. Rui Ramos sublinha que esta foi a primeira grande revolta urbana contra a ocupação nazi na Europa, e que o seu significado maior reside na decisão dos seus protagonistas de escolherem eles próprios as condições da sua morte, num ato de afirmação da dignidade humana perante o extermínio.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIII
  • século XVII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Segunda Guerra Mundial
  • Reconquista

Temas

  • monarquia
  • sucessão régia
  • guerra civil
  • reconquista
  • ordens militares
  • igreja e papado
  • destronamento
  • Holocausto
  • resistência
  • genocídio
  • guetos

Eventos

  • Deposição de D. Sancho II
  • Conquista de Sevilha
  • Cerco de Elvas
  • Revolta do Gueto de Varsóvia
  • Conferência de Wannsee
  • Batalha de Stalingrado
  • Solução Final

Guerras e conflitos

  • Reconquista
  • Segunda Guerra Mundial

Livros citados

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