Nº 14520 de abril de 202242:20resposta a ouvintes
História dos judeus sefarditas e da sua expulsão
O episódio explora a história dos judeus sefarditas na Península Ibérica, desde a sua presença comprovada no século IV até à expulsão de Espanha em 1492 e à conversão forçada em Portugal em 1496-97. Rui Ramos contextualiza estas perseguições no processo de formação das monarquias modernas europeias e na busca de uniformidade religiosa, analisando a diáspora sefardita para o Médio Oriente e Europa do Norte, e o seu legado cultural até ao Holocausto.
Ideias principais
- Portugal não expulsou os judeus mas forçou-os à conversão ao cristianismo em 1496-97, retirando crianças aos pais e impedindo depois a saída do reino, ao contrário de Espanha que os expulsou efectivamente em 1492
- As perseguições aos judeus na Idade Média tardia resultaram da combinação entre movimentos de renovação religiosa popular e o interesse político das novas monarquias territoriais em garantir uniformidade religiosa para legitimar o seu poder 'pela graça de Deus'
- A Península Ibérica e a Europa de Leste tornaram-se refúgio dos judeus expulsos da França e Inglaterra nos séculos XIII-XIV, mas quando a Península se 'europeizou' nos séculos XV-XVI, os judeus migraram para o Império Otomano e, mais tarde, aproveitaram a pluralidade religiosa criada involuntariamente pela Reforma Protestante para regressar ao Norte da Europa
- A diáspora sefardita manteve identidade cultural própria através do ladino (castelhano medieval), do português em Amesterdão, e dos apelidos ibéricos, distinguindo-se dos judeus Ashkenazi do Leste europeu e produzindo figuras como Spinoza, David Ricardo e Benjamin Disraeli
- A ironia trágica da história sefardita é que fugiram da Inquisição ibérica nos séculos XVI-XVII para países onde 80% foram exterminados pelos nazis no século XX, como em Amesterdão onde de 4.300 sefarditas em 1939 restaram apenas 800 em 1945
Resumo do episódio
O episódio debruça-se sobre a história dos judeus sefarditas na Península Ibérica, desde a sua presença medieval até à diáspora que se seguiu às expulsões e conversões forçadas do final do século XV. O ponto de partida é a pergunta de vários ouvintes, motivada em parte pela polémica lei portuguesa que atribui nacionalidade aos descendentes de judeus sefarditas, e também por uma questão mais ampla: o que explica a perseguição sistemática dos judeus ao longo da história?
Rui Ramos começa por esclarecer um equívoco habitual: o decreto assinado por D. Manuel em dezembro de 1496 não foi propriamente uma expulsão, mas uma tentativa de conversão forçada. Os judeus — e também os muçulmanos — eram obrigados a converter-se ao cristianismo ou a abandonar o reino até outubro de 1497. No ano seguinte, crianças judias com menos de catorze anos foram retiradas aos pais e baptizadas à força. Quem se deslocou a Lisboa para partir foi igualmente compelido a converter-se. Em 1499, D. Manuel foi ainda mais longe e proibiu os recém-convertidos de saírem do reino, revelando que o objectivo nunca foi expulsar, mas reter e assimilar aquela população. O contraste com Espanha é assinalável: os Reis Católicos tinham efectivamente expulsado os judeus em 1492, e muitos deles refugiaram-se em Portugal, engrossando a comunidade judaica portuguesa precisamente antes do decreto manuelino. A decisão de D. Manuel terá sido condicionada pelo seu projecto de casamento com a filha dos Reis Católicos, de quem esperava herdar os tronos de Castela e Aragão.
Os apresentadores contextualizam estas expulsões num movimento mais vasto de homogeneização religiosa que já tinha varrido a Europa Ocidental séculos antes: os judeus tinham sido expulsos de Inglaterra em 1290 e de França em 1306 e 1394. A Península Ibérica chegava atrasada a este processo. Rui Ramos explica que as perseguições não se confundem com o antissemitismo racial do século XX: tratava-se de uma questão religiosa, num tempo em que a religião era assunto público e político. Os judeus eram a maior minoria religiosa da Europa cristã, tolerados enquanto povo bíblico mas ressentidos pela recusa em converter-se. A partir do século XII e XIII, movimentos de renovação religiosa — associados, por exemplo, aos frades dominicanos — aumentaram a pressão sobre as comunidades judaicas, vistas como um obstáculo à pureza e coesão da fé colectiva. Ao mesmo tempo, os novos reis das grandes monarquias territoriais que se formavam no Ocidente derivavam a sua autoridade da graça divina e sentiam-se responsáveis pela uniformidade religiosa dos seus súbditos. A expulsão ou conversão dos judeus servia também para afirmar, perante outras cortes europeias, a imagem de reis devotos e defensores da cristandade.
Em Portugal, os judeus convertidos à força ficaram identificados como cristãos novos e não escaparam à suspeita de continuar a praticar ritos judaicos em segredo. O massacre de Lisboa de 1506, em que cerca de dois mil cristãos novos foram assassinados pela população e por marinheiros flamengos e alemães presentes na cidade, ilustra a violência a que estavam sujeitos. A Inquisição só chegou a Portugal em 1536, apesar de D. Manuel ter prometido em 1497 um período de graça de vinte anos. Calcula-se que, ao longo do século XVI, cerca de dez a onze por cento dos cristãos novos portugueses tiveram problemas com o Santo Ofício. As leis de limpeza de sangue, introduzidas mais tarde em Portugal do que em Espanha, limitavam o acesso de descendentes de convertidos a cargos públicos e religiosos.
Muitos cristãos novos acabaram por fugir, apesar das proibições de saída do reino. O principal destino foi o mundo islâmico, sobretudo o Império Otomano, onde formaram comunidades sefarditas que mantiveram durante séculos o castelhano medieval — o ladino — como língua própria. Outros foram para o norte da Europa, onde a Reforma Protestante, ao gerar uma pluralidade de seitas cristãs incapazes de se eliminarem mutuamente, criou espaço para a tolerância forçada das minorias. Em Amesterdão desenvolveu-se uma comunidade sefardita próspera, que se identificava como portuguesa — o que convinha, dado o conflito entre a Holanda e Espanha — e que manteve o português nas sinagogas e nos registos até tarde. Desta diáspora sefardita saíram figuras como o filósofo Espinosa, o economista David Ricardo e o primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli, descendente de uma família originária de Trancoso.
Personagens
- D. Manuel I
- Isabel de Castela
- Fernando de Aragão
- D. Afonso V
- D. João II
- Eduardo I de Inglaterra
- Martinho Lutero
- Damião de Góis
- Uriel da Costa
- Baruch Spinoza
- David Ricardo
- Benjamin Disraeli
- Pierre Mendès France
- Agostina Bessa-Luís
- Oliver Cromwell
- Rainha Vitória
Lugares
Épocas
- século IV d.C.
- Idade Média
- século XII
- século XIII
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- religião
- perseguição religiosa
- conversão forçada
- expulsão
- Inquisição
- antissemitismo
- migração
- diáspora
- comércio
- limpeza de sangue
- reforma protestante
- tolerância religiosa
- genocídio
- cultura judaica
Eventos
- Expulsão dos judeus de Espanha (1492)
- Decreto de expulsão de D. Manuel I (1496)
- Massacre de Lisboa (1506)
- Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1536)
- Expulsão dos judeus de Inglaterra (1290)
- Expulsão dos judeus de França (1306)
- Holocausto
Livros citados
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