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Nº 20912 de julho de 202358:41efeméride

José Mattoso, a morte de um grande historiador

Episódio dedicado à memória de José Mattoso (1933-2023), considerado o maior medievalista português e um dos principais historiadores nacionais de sempre. Rui Ramos, que foi seu aluno, analisa o contributo revolucionário de Mattoso para o estudo da formação de Portugal nos séculos XI-XII, através de métodos prosopográficos inovadores e da articulação entre erudição alemã e história social francesa. O episódio explora como Mattoso redefiniu a interpretação das origens nacionais enquanto processo histórico plural, tornando-se também o historiador da democracia portuguesa.

Ideias principais

  1. José Mattoso revolucionou o estudo da formação de Portugal ao identificar sistematicamente, através de métodos prosopográficos, os milhares de personagens menores da nobreza medieval (infanções), transformando um tema aparentemente esgotado numa história social complexa e inédita.
  2. A génese de Portugal resulta da articulação de dois mundos contrastantes: o Norte senhorial aristocrático (infanções entre Douro e Minho) e o Sul concelhio popular (comunidades militarizadas entre Douro e Tejo), sintetizados pelo poder real de D. Afonso Henriques.
  3. Mattoso introduziu na historiografia portuguesa a reflexão geográfica de Orlando Ribeiro sobre os contrastes Norte-Sul (Atlântico vs. Mediterrâneo), aplicando-a sistematicamente à interpretação histórica e tornando-a central para compreender a identidade nacional.
  4. A obra de Mattoso representa uma 'história democrática' adequada ao pluralismo político pós-1974, contrapondo-se às visões homogeneizadoras e centralizadoras da 'intolerância inquisitorial' e do 'totalitarismo pombalino', e valorizando a complexidade e pluralidade como características intrínsecas de Portugal.
  5. A História de Portugal de 1994 dirigida por Mattoso reuniu historiadores de perspetivas muito diversas num momento histórico excecional de abertura intelectual pós-Guerra Fria, representando provavelmente a 'época mais feliz da historiografia portuguesa', hoje irrepetível devido à crescente sectarização e politização do debate histórico.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado a José Mattoso, medievalista português falecido aos 90 anos, que Rui Ramos considera um dos maiores historiadores portugueses de todos os tempos. A conversa combina uma homenagem pessoal com uma explicação do contributo historiográfico de Mattoso, percorrendo tanto a sua obra central como o contexto intelectual em que ela surgiu.

Rui Ramos começa por evocar a memória do professor que conheceu em 1982 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas: um homem de aspecto ascético, voz grave, cabelo e barba brancos, que interrompia as aulas quando considerava que não estava a explicar bem o suficiente — um traço que revelava a exigência que tinha consigo próprio. Embora já não fosse monge beneditino há muitos anos, conservava uma gravidade e um cuidado quase monásticos, temperados por uma acessibilidade genuína: tratava os alunos por tu e perguntava como estavam com real interesse. Essa formação monástica não era apenas um dado biográfico: foi através do estudo dos mosteiros beneditinos e dos seus patronos aristocráticos que Mattoso se familiarizou com a documentação portuguesa dos séculos XI e XII, o que acabaria por lançar as bases de toda a sua obra sobre a formação do Reino de Portugal.

O grande feito de Mattoso foi renovar completamente um tema que parecia esgotado. A origem da independência portuguesa tinha sido estudada desde o século XVII por Frei António Brandão e, no século XIX, por Alexandre Herculano, e toda a documentação disponível estava publicada e analisada há muito. Não havia fontes inéditas, não havia terreno aparentemente virgem. Mattoso, porém, realizou uma prosopografia exaustiva: cruzando documentos de chancelaria, crónicas e livros de linhagens, identificou os indivíduos que surgiam como testemunhas nos diplomas do Conde D. Henrique, da Rainha D. Teresa e de D. Afonso Henriques, e reconstituiu as famílias a que pertenciam. Essas famílias funcionavam como os "partidos políticos" da época. A análise de quem aparecia e desaparecia dos documentos ao longo do tempo revelou uma história política inteiramente nova: a afirmação de uma nobreza local intermédia — os infanções entre o Douro e o Minho — que, na periferia dos reinos cristãos do norte peninsular, tinha funções militares de fronteira e ambicionava autonomizar-se da nobreza condal galega. Foi esta nobreza que se ligou a D. Afonso Henriques e constituiu a base social da independência portuguesa, não uma nação já formada desde sempre nem o simples voluntarismo de um príncipe. O livro que expôs este argumento, *Ricos Homens, Infanções e Cavaleiros*, publicado em 1982, impressionou o jovem Rui Ramos ainda antes de entrar para a universidade — a ponto de o comprar nas férias de verão para ler na praia.

A outro nível, Mattoso também introduziu na historiografia portuguesa a reflexão geográfica de Orlando Ribeiro sobre os contrastes entre o Portugal atlântico do norte e o Portugal mediterrânico do sul, articulando-a com dados de estruturas de parentesco, linguística, tecnologia agrária e práticas religiosas. Nesta leitura, D. Afonso Henriques não unificou apenas nobres do Entre-Douro-e-Minho: ao deslocar-se para Coimbra, articulou também o mundo senhorial do norte com o mundo concelhio e popular do sul do Douro, comunidades semi-autónomas forjadas pela vida de fronteira com os poderes islâmicos. Esta síntese ficou plasmada em *A Identificação de um País* (1985), obra que começa, de forma reveladora, com uma análise dos resultados eleitorais de abril de 1975. Mattoso inscrevia assim o debate medieval num debate contemporâneo: o que é Portugal? A sua resposta — um país feito de contrastes que o poder político tem de equilibrar e compor, e não de apagar — contrariava tanto o nacionalismo essencialista de direita como o centralismo ideológico de esquerda, e oferecia uma visão da identidade nacional compatível com uma democracia pluralista.

Os apresentadores sublinham ainda o papel de Mattoso como construtor de pontes: entre a tradição erudita de Lovaina e a *Nouvelle Histoire* francesa dos *Annales*; entre a história universitária e o grande público, nomeadamente através da *História de Portugal* em oito volumes que dirigiu em 1994, obra que reuniu historiadores de perspectivas muito diversas e chegou a dezenas de milhares de leitores. O episódio termina com Rui Ramos a sugerir três livros para quem queira descobrir Mattoso: *O Essencial sobre a Formação da Nacionalidade* para uma primeira aproximação, o volume da *Monarquia Feudal* na *História de Portugal* para uma síntese mais desenvolvida, e *Ricos Homens, Infanções e Cavaleiros* para quem queira perceber como o historiador trabalhava.

Personagens

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Temas

  • historiografia
  • medievalismo
  • formação nacional
  • nobreza
  • religião
  • mosteiros
  • identidade nacional
  • estruturas sociais
  • concelhos
  • geografia histórica
  • cultura monástica
  • prosopografia
  • democracia
  • pluralismo
  • integração europeia

Eventos

  • fundação de Portugal
  • independência de Portugal
  • Batalha de Ourique
  • Revolução de 25 de Abril de 1974
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  • Prémio Pessoa 1987

Guerras e conflitos

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