Nº 9031 de março de 202138:26efeméride
O canal do Suez e o fim da inquisição
Episódio dedicado a três efemérides de 31 de março: a recente crise do Canal do Suez (com história da construção do canal em 1869), o fim da Inquisição portuguesa em 1821 pelas Cortes Constituintes, e o fim do Pacto de Varsóvia em 1991. Aborda ainda o fascínio português pela Albânia comunista e maoísta nas décadas de 1970-80, revelando as raízes ideológicas da esquerda radical portuguesa.
Ideias principais
- O Canal do Suez foi inaugurado em 1869 após obras que arruinaram o Egito e criaram condições para a ocupação britânica, mas sempre que esteve fechado Portugal beneficiou pela rota do Cabo.
- A Inquisição portuguesa foi extinta em 1821, mas já tinha sido esvaziada pelo Marquês de Pombal que aboliu a distinção entre cristãos novos e velhos, mantendo contudo a estrutura institucional como instrumento do Estado.
- As Cortes Constituintes que aboliram a Inquisição decretaram simultaneamente a expulsão de quem recusasse jurar a Constituição, substituindo a intolerância religiosa pela intolerância ideológica.
- O Pacto de Varsóvia serviu sobretudo para legitimar a presença militar soviética e invasões como a da Checoslováquia em 1968; todos os seus membros são hoje da NATO.
- A Albânia de Enver Hoxha, o país mais pobre e repressivo da Europa que aboliu toda a religião, serviu de modelo aos maoístas portugueses pós-25 de Abril por mostrar que era possível fazer comunismo isolado do Ocidente.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* organiza-se em torno de três efemérides que ocorreram num dia 31 de março, em anos distintos. Antes de as abordar, Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitam o encalhe do navio Ever Given no canal do Suez, então na memória recente, para traçar uma breve história daquela passagem estratégica. O sonho de ligar o Mar Vermelho ao Mediterrâneo remonta aos faraós, que terão tentado unir o Nilo ao Mar Vermelho há cerca de quatro mil anos. No século XVI, Veneza negociou com os mamelucos egípcios a construção de um canal, projeto que a conquista otomana de 1517 inviabilizou. Só em 1859 se iniciou a construção do canal moderno, dirigida pelo engenheiro francês Ferdinand Lesseps, inaugurado em 1869 com grande pompa — o Quediva do Egito encomendou uma ópera a Verdi para a ocasião, e Eça de Queirós esteve presente. As despesas ruinosas levaram o Egito ao endividamento junto da banca britânica e, em 1882, o Reino Unido apoderou-se do país. Os apresentadores sublinham ainda que Portugal beneficiou historicamente sempre que o canal esteve inoperacional — desde a rota do Cabo aberta por Vasco da Gama até ao encerramento do canal entre 1967 e 1975, que impulsionou os estaleiros navais portugueses com a construção de super-petroleiros.
A primeira efeméride redonda é o bicentenário da extinção da Inquisição portuguesa, decretada pelas Cortes Constituintes a 31 de março de 1821. O Tribunal do Santo Ofício havia sido criado em 1533 e o seu último auto de fé ocorreu em 1766, pelo que, em 1821, já pouco restava da instituição além dos arquivos e dos edifícios prisionais. Os arquivos, incorporados na Biblioteca Pública de Lisboa apesar de uma proposta para os queimar, constituem hoje uma fonte histórica inestimável, com cerca de vinte e três mil processos sobre costumes e mentalidades de três séculos. Os cárceres de Lisboa, no Rossio, foram abertos ao público como demonstração dos horrores inquisitoriais, mas acabaram saqueados, pelo que as Cortes ordenaram a sua demolição. Rui Ramos explica que o Marquês de Pombal havia já esvaziado a Inquisição ao abolir a distinção jurídica entre cristãos-novos e cristãos-velhos, eliminando assim a sua principal razão de ser. A Inquisição nunca condenava à morte — entregava os acusados ao braço secular —, e serviu sobretudo para garantir a unidade religiosa que os Estados do século XVI viam como condição da coesão política, numa Europa dilacerada por guerras de religião. O episódio termina com uma observação irónica: no mesmo mês em que aboliu a Inquisição, as Cortes decretaram que quem recusasse jurar a Constituição seria expulso do território, substituindo a intolerância religiosa por uma intolerância ideológica que viria a alimentar as guerras civis das décadas seguintes.
A segunda efeméride é a dissolução da estrutura militar do Pacto de Varsóvia, a 31 de março de 1991. Fundado em maio de 1955 como resposta à entrada da Alemanha Ocidental na NATO, o Pacto reunia a União Soviética e os seus países satélites da Europa de Leste. Sob a designação oficial de Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, serviu na prática para legitimar a presença de tropas soviéticas nesses países e para intervir militarmente sempre que os regimes comunistas estivessem ameaçados, como sucedeu na Hungria em 1956 e na Checoslováquia em 1968. A sua dissolução foi consequência direta da recusa de Gorbachev em repetir essas intervenções, o que permitiu a queda em cadeia das ditaduras comunistas em 1989. Significativamente, todos os antigos membros do Pacto integram hoje a NATO.
A terceira efeméride são as primeiras eleições livres na Albânia em quase meio século, também a 31 de março de 1991. O episódio aproveita o momento para explicar por que razão a Albânia de Enver Hoxha fascinava setores da esquerda radical portuguesa nos anos setenta. Isolada primeiro da Jugoslávia, depois da União Soviética e por fim da China após a morte de Mao em 1976, a Albânia tornou-se o último reduto do maoísmo europeu e uma referência para os partidos comunistas marxistas-leninistas portugueses que viam no seu isolamento total — simbolizado pelos cento e setenta mil bunkers distribuídos pelo país — a prova de que era possível construir o comunismo sem dependências externas. Era, concluem os apresentadores, uma espécie de Coreia do Norte europeia, o país mais pobre do continente, que alguns chegaram a propor como modelo para Portugal.
Personagens
Lugares
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- meados do século XIX
- anos 1820
- anos 1830
- anos 1960
- anos 1970
- anos 1990
- pós-Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
Temas
- religião
- inquisição
- judaísmo
- engenharia
- colonialismo
- comércio marítimo
- guerra
- direitos humanos
- constituição
- comunismo
- maoísmo
- ditadura
- alianças militares
- liberalização política
- economia
- repressão religiosa
- revolução
Eventos
- inauguração do Canal do Suez
- encalhe do navio Ever Given
- extinção do Tribunal do Santo Ofício
- Cortes Constituintes de 1821
- Constituição de 1822
- Crise do Suez
- queda do Muro de Berlim
- Primavera de Praga
- Revolução Cultural chinesa
- 25 de Abril
- dissolução do Pacto de Varsóvia
- primeiras eleições livres na Albânia
Guerras e conflitos
- Guerra Fria
- guerras religiosas do século XVI
- guerras entre Egito e Israel
- invasão da Checoslováquia 1968
- invasão da Hungria 1956
Livros citados
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