Nº 2104 de dezembro de 201943:53resposta a ouvintes
O que faz um avião nazi numa praia portuguesa?
Episódio variado que aborda três temas principais: a tradição administrativa portuguesa e a questão da regionalização, mostrando como Portugal sempre foi marcado por identidades locais fragmentadas (concelhos) e não por regiões políticas; a história dos partidos políticos portugueses desde o século XIX, marcados por divisões personalistas e cultura anti-partidária; e a presença de aviões militares beligerantes em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, com destaque para o incidente de 1942 em que um avião alemão aterrou na praia da Apúlia.
Ideias principais
- Portugal nunca teve tradição de regiões políticas autónomas com identidade própria no continente, sendo a regionalização sempre uma criação artificial do Estado central e não um reconhecimento de identidades territoriais pré-existentes.
- A sociedade portuguesa sempre foi marcada por identidades muito locais e fragmentadas (concelhos, freguesias, aldeias, bairros) com fortes rivalidades entre si, que prevaleciam sobre qualquer sentimento regional mais amplo.
- Os partidos políticos portugueses, desde o século XIX até ao Estado Novo, eram estruturas frágeis e personalistas que não sobreviviam aos regimes políticos que os geravam, desaparecendo completamente quando esses regimes caíam.
- Durante a Segunda Guerra Mundial, Portugal como país neutral recebeu centenas de aviadores aliados e alemães acidentados ou abatidos, que deviam ser internados mas frequentemente eram devolvidos aos Aliados através de fugas organizadas ou do estatuto de 'náufragos'.
- O ensino da história em Portugal está em crise por privilegiar a memorização de factos e datas desconexos em vez da narrativa histórica, contrariando o crescente interesse popular pela história visível no sucesso de romances, séries e turismo histórico.
Resumo do episódio
Neste vigésimo primeiro episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três temas distintos: a questão da regionalização em Portugal e as suas raízes históricas, a origem dos partidos políticos portugueses, e um episódio curioso da Segunda Guerra Mundial envolvendo um avião alemão numa praia minhota. O programa termina com uma reflexão sobre o ensino da história nas escolas portuguesas.
O episódio abre com a discussão sobre a regionalização, motivada por declarações recentes do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Rui Ramos argumenta que Portugal, apesar de ser um país geograficamente diverso — como já Orlando Ribeiro assinalava —, nunca desenvolveu regiões políticas com identidade própria no continente, ao contrário do que sucedeu nos Açores e na Madeira. A organização territorial portuguesa foi sempre marcada por uma enorme fragmentação: no início do século XIX havia cerca de 800 concelhos, muitos dos quais foram extintos pelos liberais nos anos 1830, dando origem a rivalidades que persistiram durante gerações. A capital Lisboa funcionou historicamente como uma espécie de cidade-estado que concentrava o poder, enquanto o restante do território se dividia em pequenas comunidades rurais com identidades muito locais — aldeias, bairros, freguesias. Nesse contexto, as províncias e os distritos foram sempre mais criações administrativas do Estado do que expressão de identidades vividas pelas populações. Ramos conclui que uma eventual regionalização seria, por isso, essencialmente uma inovação política e não o reconhecimento de uma tradição histórica enraizada.
De seguida, os apresentadores percorrem a história dos partidos políticos em Portugal, desde os primórdios liberais até ao Estado Novo. Ramos explica que a própria palavra "partido" tinha, durante muito tempo, conotação negativa, associada à divisão e à fação, sendo que o ideal político dominante era sempre o da unidade nacional. Os primeiros agrupamentos que podem ser chamados partidos surgem após a Revolução Liberal, mas eram mais correntes de opinião do que organizações estruturadas: não tinham sedes, siglas, nem militantes registados, e identificavam-se sobretudo com um líder e com um grupo de deputados parlamentares — como o Partido Cabralista, associado a Costa Cabral. A maçonaria desempenhava um papel central na organização informal destes grupos. Com a Regeneração, a partir de 1851, surgem partidos mais estáveis, como o Regenerador e o Progressista, com jornais, centros partidários e algumas assembleias. Na República, os partidos adquirem uma estrutura mais próxima da contemporânea, com registos de militantes e congressos, mas mantêm uma tendência para a fragmentação personalista. Um traço comum a todos estes partidos, sublinha Ramos, é que nenhum sobreviveu ao regime que o viu nascer: quando a monarquia caiu em 1910, todos os partidos monárquicos desapareceram; o mesmo aconteceu aos partidos republicanos após o golpe de 1926. A votação em partidos, aliás, só foi introduzida em 1975.
O terceiro tema parte de uma pergunta de um ouvinte sobre um avião alemão que aterrou de emergência na praia da Apúlia, em Esposende, em maio de 1942, tendo sido incendiado pela própria tripulação. Ramos contextualiza o episódio: Portugal, país neutro, estava rodeado de guerra, e o espaço aéreo e marítimo próximo da costa portuguesa era frequentemente atravessado por aviões e navios beligerantes de ambos os lados. O livro *Aterra em Portugal*, de Carlos Guerreiro, regista mais de uma centena destes incidentes e cerca de quinhentos pilotos aliados e alemães que acabaram em território português. Os aviadores internados, sobretudo nas Caldas da Rainha e em Elvas, guardavam geralmente boas memórias da estadia, sendo bem recebidos pela população. As autoridades portuguesas, por sua vez, encontravam frequentemente formas de devolver os pilotos aliados aos seus países, invocando o estatuto de náufragos ou facilitando fugas.
O episódio encerra com uma reflexão sobre o ensino da história. Ramos defende que o problema não está nos factos e nas datas em si, mas na forma como são apresentados — desligados entre si, como cacos sem sentido. A solução estaria na narrativa: contar uma história que ligue os acontecimentos numa sequência compreensível e interpretável. Paradoxalmente, o interesse do público pela história nunca foi tão grande — visível no sucesso de séries, romances históricos e turismo cultural —, enquanto a memória escolar da disciplina é quase universalmente negativa.
Personagens
Lugares
- Portugal
- Alemanha
- Grã-Bretanha
- França
- Estados Unidos
- África
- Médio Oriente
Épocas
- século XIX
- século XX
- Revolução Liberal
- Primeira República
- Estado Novo
- Segunda Guerra Mundial
- 25 de Abril de 1974
Temas
- regionalização
- organização territorial
- partidos políticos
- neutralidade
- aviação militar
- ensino de história
- identidade local
- maçonaria
- sistema representativo
- ditadura
Eventos
- Revolução de Setembro de 1836
- Maria da Fonte
- Regeneração de 1851
- 25 de Abril de 1974
- Revolução de 1974-75
- Reforma Agrária
- Revolução Constitucional de 1820
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil (liberal)
- Guerra Colonial
Livros recomendados
Livros citados
- A Terra em Portugal, Aviadores e Aviões Beligerantes em Portugal na Segunda Guerra Mundial
Episódios relacionados
- Nº 12 · Quando começaram as preocupações com o ambiente (e uma mina no Bugio) (Portugal — Origens e Império)
- Nº 8 · Papas, tiroteios e Portugal na Segunda Guerra Mundial (Portugal — Ditadura e Estado Novo)
- Nº 31 · Quando se acendeu a primeira lâmpada em Portugal? (Portugal — Origens e Império)
- Nº 16 · Governos, excentricidades parlamentares e epidemias (Portugal — Origens e Império)
- Nº 75 · Quantas ditaduras já houve em Portugal? (Portugal — Revolução e Democracia)
- Nº 47 · A Inglaterra planeou invadir os Açores? (Segunda Guerra Mundial)