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Nº 24703 de abril de 202457:06análise histórica

O que separa árabes e persas? E xiitas e sunitas?

Episódio que explica as principais divisões étnicas, linguísticas e religiosas do Médio Oriente, desde a conquista árabe do século VII até aos conflitos sectários actuais. Rui Ramos traça a história da islamização e arabização da região, a ascensão e queda do Império Otomano, a divisão artificial do Médio Oriente por França e Inglaterra após a Primeira Guerra Mundial, e a origem e consequências da divisão entre xiitas e sunitas, hoje instrumentalizada pela rivalidade entre Irão e Arábia Saudita.

Ideias principais

  1. O Médio Oriente até ao século VII era maioritariamente cristão e parte do Império Romano do Oriente (Bizantino) e do Império Persa, sendo conquistado por guerreiros árabes que trouxeram o Islão e arabizaram a região através de incentivos fiscais à conversão.
  2. A divisão entre xiitas e sunitas remonta à sucessão de Maomé em 632: os xiitas defendem a liderança da família do profeta (Ali e descendentes) com autoridade infalível, enquanto os sunitas seguem a tradição escrita (suna) e dispensam um clero carismático, numa divisão que faz lembrar católicos e protestantes no cristianismo.
  3. As fronteiras actuais da Síria, Iraque, Líbano, Jordânia e Palestina foram artificialmente desenhadas por França e Inglaterra após a Primeira Guerra Mundial, sem respeito pela diversidade étnica e religiosa, ignorando completamente os curdos (hoje 40 milhões sem Estado próprio, os 'polacos do século XXI').
  4. O fracasso dos nacionalismos árabes seculares pós-Segunda Guerra Mundial, incapazes de gerir a explosão demográfica (o Egito passou de 12 milhões em 1920 para 100 milhões hoje) e derrotados nas guerras com Israel, devolveu protagonismo às identidades religiosas, fragmentando países como a Síria em comunidades sectárias.
  5. A maior parte da violência fundamentalista sunita actual dirige-se não contra o Ocidente mas contra xiitas, num contexto de rivalidade entre Irão (xiita, persa) e Arábia Saudita (sunita, árabe), que instrumentalizam as divisões religiosas em conflitos como as guerras civis do Iraque, Síria e Iémen, com centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se a esclarecer um conjunto de distinções fundamentais que o Ocidente tende a ignorar quando olha para o Médio Oriente: as diferenças entre árabes, persas, turcos e curdos, e as divisões religiosas entre xiitas e sunitas. O ponto de partida é precisamente o hábito de tratar o mundo muçulmano como um bloco homogéneo, quando na verdade a sua diversidade étnica, linguística e religiosa é tão acentuada quanto a que existe na Europa.

Para explicar como surgiu esta configuração, os apresentadores recuam ao século VII, quando a maior parte do Médio Oriente estava integrada no Império Romano do Oriente, de língua grega e religião cristã, enquanto a Pérsia constituía o principal poder rival. É neste contexto que guerreiros vindos da Península Arábica conquistam rapidamente toda a região, impondo uma islamização e uma arabização progressivas. A adesão ao Islão era incentivada por razões práticas: os muçulmanos estavam isentos de impostos, ao contrário das populações submetidas. A Pérsia, embora islamizada, preservou a sua língua e cultura, e a partir do século XVI adoptou o Islão xiita como religião de Estado, sob os Safávidas, distinguindo-se assim do resto do mundo muçulmano. Os turcos, vindos da Ásia Central, tornaram-se a partir do século XIII a elite dominante e fundaram o Império Otomano, que no seu apogeu controlava o Médio Oriente, o Norte de África e grande parte da Europa Oriental. Este império mantinha uma organização por comunidades religiosas e étnicas separadas, sem qualquer processo de homogeneização semelhante ao que ocorria nas monarquias europeias da mesma época.

Com a Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Otomano, os ingleses utilizaram o agente T. E. Lawrence para instigar uma revolta árabe contra os otomanos, apoiando a dinastia hachemita com promessas de um grande reino árabe. Essas promessas não foram cumpridas: franceses e ingleses dividiram o Médio Oriente entre si, criando estados cujas fronteiras não respeitaram qualquer homogeneidade étnica ou religiosa. Os curdos, com quarenta milhões de pessoas distribuídas pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria, ficaram sem qualquer estado próprio, tornando-se a maior nacionalidade do mundo sem representação estatal.

A divisão entre sunitas e xiitas remonta às origens do próprio Islão. Após a morte de Maomé em 632, surgiu o debate sobre quem deveria liderar a comunidade muçulmana. Os xiitas — cujo nome deriva de "partido de Ali" — defendiam que essa liderança pertencia aos descendentes do profeta, dotados de autoridade espiritual infalível para interpretar as revelações divinas. Os sunitas, por sua vez, consideravam que o que importava era seguir a tradição escrita sobre os ditos e hábitos do profeta, podendo os califas ser escolhidos independentemente da linhagem familiar. Os apresentadores traçam um paralelo esclarecedor: o xiismo, com o seu clero hierárquico e os seus imãs infalíveis, aproxima-se do catolicismo, enquanto o sunismo, centrado nos textos e dispensando uma autoridade carismática intercessora, faz lembrar o protestantismo. A corrente xiita dominante, que prevalece no Irão, acredita que o décimo segundo imã não morreu mas se ocultou em 939, aguardando a hora do seu regresso.

O episódio termina com uma reflexão sobre os factores que tornaram estas divisões tão explosivas na contemporaneidade. O fracasso das ditaduras militares nacionalistas e seculares que dominaram o mundo árabe após a Segunda Guerra Mundial, incapazes de enquadrar um crescimento demográfico extraordinário — o Egito passou de doze milhões de habitantes em 1920 para cem milhões hoje —, fez regressar as identidades religiosas como principal força de coesão e conflito. A rivalidade geopolítica entre o Irão xiita e a Arábia Saudita sunita veio politizar ainda mais estas divisões, alimentando guerras civis devastadoras na Síria, no Iraque e no Iémen. A grande tragédia do Médio Oriente, concluem os apresentadores, é que estes estados, construídos por potências europeias sobre populações profundamente heterogéneas, nunca conseguiram desenvolver regimes capazes de assegurar uma coexistência pacífica entre elas.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século VI-VII
  • Idade Média
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • século XXI
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 80

Temas

  • religião
  • islamismo
  • cristianismo
  • guerra
  • imperialismo
  • nacionalismo
  • identidade étnica
  • conflitos sectários
  • demografia
  • petróleo
  • fundamentalismo religioso
  • colonialismo
  • guerra civil
  • refugiados

Eventos

  • conquista árabe do Médio Oriente
  • islamização do Médio Oriente
  • arabização do Médio Oriente
  • queda do Império Otomano
  • revolta árabe de 1916
  • divisão do Médio Oriente por França e Inglaterra
  • Revolução Iraniana de 1979
  • invasão do Iraque em 2003
  • guerra civil síria desde 2011
  • massacre dos arménios
  • expulsão dos cristãos gregos da Ásia Menor

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra Irão-Iraque (anos 80)
  • guerra civil do Iraque (pós-2003)
  • guerra civil da Síria (desde 2011)
  • guerra civil do Iémen
  • conflito israelo-árabe

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