Nº 28708 de janeiro de 20251h02resposta a ouvintes
Síria: que país é este e qual a sua história?
Episódio sobre a história da Síria, desde as origens da civilização neolítica até à queda de Bashar al-Assad. Rui Ramos desmonta a ideia de que o colonialismo europeu criou as divisões sectárias do Médio Oriente, argumentando que essas divisões têm raízes profundas no Império Otomano e nas dinâmicas internas das comunidades religiosas e étnicas. O episódio explica como a diversidade (cristãos, sunitas, xiitas, alauítas, drusos, curdos) se transformou em conflito através de ditaduras militares, sectarismo, explosão demográfica e intervenções externas da Guerra Fria.
Ideias principais
- As divisões sectárias na Síria não foram criadas pelas potências coloniais europeias, mas têm raízes muito anteriores no sistema de hierarquização de comunidades religiosas e étnicas do Império Otomano, que mantinha cristãos, judeus e outras minorias em estatuto legal inferior aos muçulmanos sunitas.
- O mandato francês na Síria (1923-1946) foi temporário e limitado pela Liga das Nações, ao contrário do colonialismo em África, com o objectivo declarado de preparar a independência - embora tenha favorecido certas comunidades como os alauítas no exército.
- O pan-arabismo dos anos 50-60, com partidos como o Baath na Síria e no Iraque, rejeitava as fronteiras desenhadas pelos europeus e aspirava a um grande Estado árabe unificado, mas cada regime queria ser ele próprio o líder dessa unificação, gerando conflitos entre países árabes.
- A explosão demográfica na Síria - de 3 milhões em 1950 para 21 milhões em 2010 - criou pressões enormes sobre recursos, território e poder que nenhum regime conseguiu gerir de forma inclusiva, agravando o sectarismo como meio de protecção em sociedades sem Estado de Direito.
- O regime de Assad tornou-se uma ditadura hereditária alauíta (minoria de 13% da população) dependente do Irão e da Rússia, financiada principalmente pelo tráfico de Captagon numa escala três vezes superior aos cartéis mexicanos, revelando a transformação da Síria num narco-estado.
Resumo do episódio
O episódio parte de uma pergunta enviada por um ouvinte sobre a complexidade do Médio Oriente, tendo como mote a recente queda do regime de Bashar al-Assad na Síria. A questão central é saber em que medida as intervenções externas — nomeadamente o colonialismo europeu e a Guerra Fria — amplificaram os conflitos sectários na região. Rui Ramos começa por relativizar essa responsabilidade, argumentando que atribuir aos europeus toda a origem dos males do Médio Oriente é uma forma de eurocentrismo invertido: passa-se de "somos os melhores do mundo" para "somos os piores do mundo", mas em ambos os casos os europeus ocupam um lugar de protagonismo excessivo na história alheia.
Para contextualizar a Síria, Rui Ramos recua à antiguidade. Damasco e Alepo figuram entre as cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, e a região foi durante milénios um ponto de cruzamento de rotas comerciais entre a Europa, a Ásia e África. A população síria é descrita como uma sobreposição histórica de grupos que nunca foram exclusivos daquele território: cristãos de várias denominações, muçulmanos sunitas árabes (maioria), alauítas, xiitas, curdos e drusos. Nenhum destes grupos existe apenas dentro das fronteiras da Síria moderna, o que torna qualquer projeto de Estado-nação homogéneo particularmente difícil. Os curdos são comparados aos polacos do século XIX — a maior nacionalidade sem Estado próprio, dividida entre vários países.
A narrativa histórica avança pelo período islâmico, quando Damasco se tornou capital do califado omíada no século VII, e pelo Império Otomano, que dominou a região até à Primeira Guerra Mundial. Rui Ramos sublinha que foram os otomanos, e não os europeus, quem institucionalizou a separação das comunidades religiosas, mantendo-as em estatutos legais desiguais e explorando-as fiscalmente. Esta organização congelou divisões profundas e gerou ressentimentos que já se manifestavam em massacres de cristãos em Alepo em 1850 e em Damasco em 1860, muito antes da chegada dos mandatos europeus. Quando o Império Otomano entrou em colapso, os franceses e os ingleses ficaram encarregues, sob mandato da Liga das Nações, de preparar estes territórios para a independência — não como potências coloniais clássicas, mas como administradores temporários. Os franceses separaram o Líbano da Síria com a intenção de criar um Estado de maioria cristã; os ingleses criaram a Jordânia e o Iraque, colocando membros da família real hachemita nesses tronos, e separaram a Palestina do restante mandato.
A independência da Síria em 1946 não trouxe estabilidade. Nos anos seguintes instalaram-se ditaduras militares em toda a região, alimentadas pelo pan-arabismo do partido Baath — que aspirava à unificação de todos os árabes num só Estado — e pela rejeição das fronteiras herdadas, incluindo as dos próprios vizinhos. O sectarismo foi-se tornando o verdadeiro motor da política: os líderes rodearam-se dos seus, fossem familiares, compatriotas regionais ou correligionários. Em 1970, Hafez al-Assad, alauíta, tomou o poder e construiu um regime modelado no exemplo soviético, com partido único e economia estatizada, cada vez mais dependente do Irão e da Rússia. A ditadura tornou-se hereditária em 2000, quando o filho Bashar a herdou, e transformou-se num narco-Estado centrado no tráfico do Captagon, com receitas estimadas em valores muito superiores às dos cartéis mexicanos. A explosão demográfica — a Síria passou de cerca de um milhão de habitantes em 1800 para mais de vinte milhões no século XXI — agravou todas estas tensões, sobrecarregando um Estado arbitrário e incapaz de garantir direitos de cidadania, o que empurrou os indivíduos para a proteção dos seus grupos religiosos e étnicos.
O episódio conclui com uma reflexão mais ampla: o que a Síria atravessa assemelha-se, em traços gerais, ao processo violento de formação de Estados nacionais que a Europa também viveu nos séculos XIX e XX, incluindo limpezas étnicas e guerras devastadoras. No Médio Oriente esse processo ainda está em curso, com populações muito diversas e sem as homogeneidades que na Europa foram forjadas, a sangue e fogo, ao longo de gerações. A responsabilidade histórica pelos conflitos sírios é, portanto, difusa e profunda — e não pode ser reduzida às decisões tomadas em Paris ou Londres há um século.
Personagens
- Bashar al-Assad
- Hafez al-Assad
- São Paulo
- Jesus Cristo
- Maomé
- Lawrence da Arábia
- Gamal Abdel Nasser
- Saddam Hussein
Lugares
Épocas
- Neolítico
- Império Romano
- Império Bizantino
- século VII
- século VIII
- Idade Média
- séculos XI-XIII
- século XVI
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- século XXI
Temas
- religião
- sectarismo
- colonialismo
- nacionalismo
- ditadura
- guerra civil
- petróleo
- tráfico de drogas
- cristianismo
- islamismo
- imperialismo
- pan-arabismo
- conflitos étnicos
- mandatos internacionais
- crescimento demográfico
- economia estatal
- limpezas étnicas
Eventos
- queda do regime de Bashar al-Assad
- conversão de São Paulo na estrada de Damasco
- Cruzadas
- invasão soviética do Afeganistão
- fundação do Estado de Israel
- República Árabe Unida
- massacre de cristãos em Alepo
- revolta dos Irmãos Muçulmanos
- invasão do Kuwait
- guerra civil síria
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Cruzadas
- guerra civil síria
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