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Nº 14306 de abril de 202246:38resposta a ouvintes

A guerra dos Balcãs começou há 30 anos

O episódio analisa as guerras da Jugoslávia nos anos 1990, explicando como a desintegração deste Estado multinacional resultou em conflitos étnicos violentos, com destaque para o cerco de Sarajevo e o massacre de Srebrenica. Rui Ramos contextualiza historicamente a diversidade da região, o papel de Tito, as divisões entre católicos, ortodoxos e muçulmanos, e as intervenções da NATO. Termina com uma comparação entre as guerras esquecidas e lembradas da história portuguesa.

Ideias principais

  1. A Jugoslávia era um Estado multinacional composto por seis repúblicas com histórias, religiões e orientações culturais diferentes, unidas principalmente pela memória de conflitos mútuos.
  2. A democratização após a queda do comunismo levou à fragmentação da Jugoslávia, com elites comunistas a transformarem-se em elites nacionalistas para manterem o poder.
  3. As guerras dos Balcãs dos anos 1990 chocaram a Europa por revelarem que massacres e limpeza étnica ainda eram possíveis no continente, contrariando a crença de que a Europa tinha ultrapassado essa barbárie após 1945.
  4. A intervenção da NATO contra a Sérvia é vista pela Rússia como humilhante e contribuiu para a visão russa actual de um Ocidente hostil, ecoando até à guerra na Ucrânia.
  5. As guerras lembradas na história portuguesa são aquelas ligadas à independência nacional ou às origens de regimes políticos, não necessariamente as vitórias militares mais importantes.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado sobretudo às guerras da antiga Jugoslávia, cujo início foi assinalado a 6 de abril de 1992, data em que se comemoravam então trinta anos. Respondendo a perguntas de vários ouvintes, Rui Ramos traça um panorama histórico amplo que vai das origens medievais dos povos balcânicos até aos conflitos da década de 1990, estabelecendo também pontes com a guerra na Ucrânia, então em curso.

O ponto de partida é a extraordinária diversidade étnica, religiosa e cultural da Jugoslávia. Rui Ramos explica que o território foi moldado por séculos de domínio otomano e austro-húngaro, o que criou populações com histórias e referências radicalmente distintas: eslovenos e croatas, católicos e voltados para o Ocidente, herdeiros do mundo habsburgo; sérvios, cristãos ortodoxos, com o olhar posto na Rússia como potência protetora; bósnios, maioritariamente muçulmanos, descendentes culturais do Império Otomano. A única história verdadeiramente partilhada por estes povos, sublinha o apresentador, era a do conflito entre eles. A Jugoslávia, cujo nome significa simplesmente "eslavos do sul", foi na prática uma construção em torno da Sérvia, que, por estar sempre do lado vencedor nas grandes guerras do século XX, foi acumulando territórios e populações que não se identificavam com ela.

A Segunda Guerra Mundial é apresentada como um momento decisivo para compreender os ódios que regressaram nos anos 1990. Após a invasão alemã de 1941, a Jugoslávia não viveu apenas uma resistência à ocupação, mas uma brutal guerra civil entre três forças: os ustachas croatas, os tchetniks sérvios e os partisãs comunistas, todos responsáveis por massacres étnicos. Foi Josip Broz Tito, croata e líder dos partisãs, quem saiu vitorioso em 1945 e organizou a nova Jugoslávia como uma federação de seis repúblicas, à imagem da União Soviética. Tito distinguiu-se, porém, ao afastar-se de Moscovo a partir de 1948 e ao integrar o movimento dos não-alinhados, tornando a Jugoslávia numa espécie de via alternativa ao comunismo soviético. Esta relativa abertura permitiu ao regime sobreviver até à morte de Tito em 1980, mas a queda do muro de Berlim em 1989 desencadeou o processo que tornaria a fragmentação inevitável.

Com a democratização, as elites comunistas das várias repúblicas reconvertem-se rapidamente em elites nacionalistas, e cada república avança para a independência. A Sérvia tenta travar esse processo pela força, primeiro contra a Eslovénia — onde falha numa guerra de dez dias — e depois, de forma muito mais sangrenta, contra a Croácia e a Bósnia, onde existem minorias sérvias que servem de pretexto para intervenções militares. Na Bósnia, o conflito torna-se particularmente complexo, com três forças — bósnios-muçulmanos, sérvios e croatas — a combaterem entre si entre 1992 e 1995, num total de cerca de cem mil mortos. O cerco de Sarajevo, que durou quatro anos e causou milhares de vítimas civis, e o massacre de Srebrenica, onde oito mil homens e rapazes muçulmanos foram executados por milícias sérvias, são os episódios mais marcantes. Rui Ramos nota que estas guerras revelaram as divisões dentro da própria União Europeia, incapaz de agir de forma unida, e acabaram por exigir a intervenção militar da NATO. A Rússia, que se identificava com a Sérvia por laços ortodoxos e eslavos, viveu essa intervenção como uma humilhação, semente de ressentimentos que o apresentador considera ainda visíveis na política russa contemporânea.

Na parte final do episódio, João Miguel Tavares e Rui Ramos abordam uma pergunta de outro ouvinte sobre por que razão a invasão espanhola de Portugal em 1762 é tão esquecida, ao contrário das invasões francesas. A resposta passa por uma reflexão sobre os critérios que tornam certas guerras memoráveis na cultura portuguesa: são sobretudo as que foram percebidas como guerras pela independência nacional — a Reconquista, Aljubarrota, a Restauração, as invasões francesas — ou as que estiveram na origem dos regimes políticos, como as guerras liberais ou a participação na Primeira Guerra Mundial. As guerras dinásticas do século XVIII, incluindo a de 1762, surgem como guerras de opção diplomática, sem o drama existencial que alimenta a memória coletiva, e por isso permanecem quase exclusivamente no domínio dos historiadores.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • década de 1990
  • Guerra Fria
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • século XVIII
  • século XIV
  • século XV

Temas

  • guerra
  • guerras civis
  • nacionalismo
  • democratização
  • limpeza étnica
  • crimes de guerra
  • intervenção humanitária
  • direito internacional
  • memória histórica
  • identidade nacional
  • imperialismo
  • comunismo
  • balcanização
  • refugiados
  • diplomacia

Eventos

  • Queda do Muro de Berlim
  • Cerco de Sarajevo
  • Massacre de Srebrenica
  • Tratado de Maastricht
  • Guerra dos Dez Dias
  • Alcácer-Quibir
  • Aljubarrota
  • Restauração de 1640
  • Invasões Francesas
  • 25 de Abril de 1974

Guerras e conflitos

  • Guerra dos Balcãs
  • Guerras da Jugoslávia
  • Primeira Guerra dos Balcãs
  • Segunda Guerra dos Balcãs
  • Guerra do Kosovo
  • Guerra dos Sete Anos
  • Guerra Fantástica
  • Guerra da Sucessão de Espanha
  • Guerra do Russelhão
  • Guerras Liberais
  • Reconquista

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