Nº 35131 de março de 202639:52resposta a ouvintes
Curdos: que povo é este e por que não tem um país?
O episódio explora a história dos curdos, o maior povo sem Estado próprio, com 20 a 40 milhões de pessoas divididas entre Turquia, Irão, Iraque e Síria. Rui Ramos traça a sua presença desde a Antiguidade, passando por figuras como Saladino, até às tentativas falhadas de independência no século XX e à situação actual de autonomia regional no Iraque e Síria. O nacionalismo curdo emergiu no século XIX mas foi sistematicamente reprimido por políticas de turquificação, massacres e negação de identidade.
Ideias principais
- Os curdos são o quarto maior grupo etnolinguístico do Médio Oriente, falantes de uma língua indo-europeia e maioritariamente sunitas, o que os distingue de árabes, turcos e iranianos.
- O Tratado de Sèvres (1920) previa um plebiscito para a independência curda, mas foi abandonado quando Inglaterra e França preferiram ceder territórios curdos ricos em petróleo aos seus protetorados no Iraque.
- A República da Turquia de Atatürk implementou uma política brutal de turquificação que negava a existência dos curdos, proibindo a língua curda e chamando-lhes 'turcos das montanhas', com repressão que se manteve até aos anos 90.
- O PKK, fundado em 1978 por estudantes maoístas, conseguiu organizar uma guerrilha graças ao apoio de Estados rivais da Turquia e sobretudo da diáspora curda na Alemanha, onde vivem cerca de 1 milhão de curdos.
- A emergência de um Estado curdo independente exigiria uma reconfiguração total do Médio Oriente semelhante à Primeira Guerra Mundial na Europa, pois afetaria simultaneamente quatro países que se opõem mutuamente à autonomia curda.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao povo curdo, respondendo a perguntas enviadas por vários ouvintes ao longo dos anos. A questão central é simples, mas densa: quem são os curdos, de onde vêm e por que razão, sendo um dos maiores povos do mundo, nunca tiveram um Estado próprio?
Rui Ramos começa por situar os curdos no contexto do Médio Oriente, sublinhando que se trata do quarto maior grupo etnolinguístico da região, a seguir aos árabes, iranianos e turcos, com entre 20 a 40 milhões de falantes, número altamente contestado porque os Estados onde vivem têm interesse político em minimizá-lo. Os curdos estão distribuídos pela Turquia, Irão, Iraque e Síria, concentrados numa região montanhosa de cerca de 390 mil quilómetros quadrados — quatro vezes Portugal — que inclui as nascentes do Tigre e do Eufrates. A sua identidade assenta em traços distintos: falam uma língua indo-europeia, são maioritariamente muçulmanos sunitas, distinguindo-se assim dos turcos, dos árabes e dos iranianos, e têm uma minoria religiosa pré-islâmica, os yazidi. As montanhas do Curdistão funcionaram sempre como a sua principal proteção, tal como o dito curdo reconhece: os únicos amigos dos curdos são as montanhas.
Ao longo da história, os curdos tiveram emirados e principados autónomos, exportaram guerreiros e, no século XII, um desses guerreiros — Saladino, da dinastia dos Ayyubidas — chegou a construir um império que incluía a Síria e o Egito, reconhecido nas fontes árabes como o regime dos curdos. No século XVI, o Curdistão ficou enquadrado pelos otomanos, mas nunca foi verdadeiramente submetido, oscilando entre a autonomia e a sujeição conforme a força dos impérios vizinhos. No século XIX, quando os otomanos tentaram centralizar e modernizar o seu Estado, destruíram os emirados curdos e criaram um vazio que foi preenchido por um nascente nacionalismo curdo, influenciado pelo contacto com a Europa e em reação ao próprio nacionalismo turco que se ia afirmando.
A Primeira Guerra Mundial abriu uma janela de oportunidade. Com a derrota otomana, surgiu um primeiro esboço de Estado curdo no norte do Iraque sob proteção britânica, e o Tratado de Sèvres de 1920 chegou a prever um plebiscito sobre a independência curda. Nunca chegou a realizar-se: os ingleses e os franceses preferiram negociar com a nova Turquia de Atatürk, ficando com as zonas petrolíferas do Iraque e deixando o grosso do Curdistão dentro das fronteiras turcas. Seguiram-se décadas de repressão. A República de Ararat, proclamada em 1930 no Curdistão turco, foi destruída com bombardeamentos aéreos. A República do Curdistão, criada no noroeste do Irão em 1945 sob proteção soviética, durou apenas até à retirada das tropas russas. Na Turquia, a política de Atatürk proibiu a língua curda e negou a própria existência do povo curdo, apelidado oficialmente de "turcos das montanhas" — uma designação que, explicam os apresentadores, permaneceu vigente durante décadas, com consequências concretas e recentes, como a condenação a quinze anos de prisão de uma deputada que em 1994 proferiu uma frase em curdo no parlamento turco.
O PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, fundado em 1978 por estudantes universitários de extrema-esquerda, organizou uma guerra de guerrilha que ganhou escala nos anos 1980 e 1990, apoiado pela Síria e pelas diásporas curdas na Europa, sobretudo na Alemanha. A captura do seu líder Abdullah Öcalan em 1999 e a aspiração turca à adesão à União Europeia criaram condições para um relativo abrandamento, com reconhecimento parcial da identidade curda e legalização de partidos curdos. Fora da Turquia, as guerras no Iraque e na Síria geraram vazios de poder que permitiram a criação de regiões autónomas curdas no norte de ambos os países, com governos e forças armadas próprias. Rui Ramos conclui que a independência plena do Curdistão dependeria de uma reconfiguração profunda do Médio Oriente — comparável ao papel que a Primeira Guerra Mundial teve para a independência da Polónia —, e que, na ausência dessa transformação, a questão curda está destinada a perdurar sem resolução definitiva.
Personagens
- Saladino
- Kamal Atatürk
- Sheikh Mahmoud Barzanji
- Leila Zana
- Abdullah Öcalan
- Lawrence da Arábia
Lugares
Épocas
- Antiguidade
- Idade Média
- século XII
- século XIII
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- década de 1980
- década de 1990
Temas
- nacionalismo
- identidade étnica
- colonialismo
- guerra de guerrilhas
- repressão estatal
- genocídio
- autonomia regional
- petróleo
- limpeza étnica
- direitos humanos
- migração
Eventos
- queda do Império Otomano
- Tratado de Sèvres
- Tratado de Versalhes
- Conquista de Jerusalém (1187)
- invasão mongol do século XIII
- genocídio arménio
- guerra civil curda (1994-1997)
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- guerra entre otomanos e safávidas
- Guerra do Iraque
- Guerra Civil Síria
- insurreição curda na Turquia
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