← Arquivo

Nº 11125 de agosto de 202147:58efeméride

Os 60 anos da construção do muro de Berlim

O episódio marca os 60 anos da construção do Muro de Berlim (13 de agosto de 1961), analisando as razões do seu aparecimento tardio - doze anos após a divisão da Alemanha - e o seu significado como símbolo da Guerra Fria. Rui Ramos explica que o muro só foi erguido quando a União Soviética abandonou a esperança de expulsar os Aliados de Berlim Ocidental, face à hemorragia demográfica de 3 milhões de pessoas que fugiram da RDA. O episódio termina com uma análise aprofundada sobre a evolução histórica do nacionalismo, inicialmente associado à extrema-esquerda revolucionária do século XIX e a sua posterior transição para a extrema-direita através do antissemitismo no caso Dreyfus.

Ideias principais

  1. O Muro de Berlim foi construído apenas em 1961, doze anos após a divisão da Alemanha, porque a União Soviética mantinha a esperança de expulsar os Aliados de Berlim Ocidental e unificar a cidade sob controlo comunista.
  2. Cerca de 3 milhões de pessoas (20% da população da RDA) fugiram da Alemanha Oriental nos anos 50, maioritariamente através de Berlim, representando uma grave hemorragia demográfica especialmente de jovens e profissionais qualificados.
  3. O muro constituiu uma dupla derrota soviética: o reconhecimento de que não conseguiriam expulsar os Aliados de Berlim e a admissão de que o regime comunista só sobrevivia através da coerção, não do apoio popular.
  4. No século XIX, o nacionalismo estava associado à extrema-esquerda revolucionária porque era usado para contestar as monarquias tradicionais e defender a soberania da nação como princípio político surgido da Revolução Francesa de 1789.
  5. A transição do nacionalismo da extrema-esquerda para a extrema-direita ocorreu na década de 1890 em França, através do antissemitismo e do caso Dreyfus, quando nacionalistas republicanos se aliaram a católicos e monárquicos contra a República moderada.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* assinalou o sexagésimo aniversário do início da construção do Muro de Berlim, ocorrida a 13 de agosto de 1961. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta aparentemente simples mas historicamente reveladora: por que razão o muro só foi erguido em 1961, mais de uma dúzia de anos após a divisão da Alemanha em dois Estados separados? Para responder, os apresentadores recordam o contexto do pós-guerra: a Alemanha foi dividida em 1945 entre as potências vencedoras, e em 1949 constituíram-se a República Federal Alemã, a ocidente, e a República Democrática Alemã, a oriente, sob tutela soviética. Berlim, situada no interior da RDA, foi igualmente partilhada, tornando-se a sua metade ocidental um enclave rodeado de território comunista.

A fronteira entre as duas Alemanhas foi sendo progressivamente encerrada desde 1952, mas Berlim permanecia como a única brecha nessa divisão. Aproveitando essa abertura, cerca de três a três milhões e meio de alemães orientais fugiram para o Ocidente ao longo dos anos cinquenta, sobretudo jovens e pessoas qualificadas, numa verdadeira sangria demográfica que ameaçava o colapso do regime. Ainda assim, os soviéticos resistiram durante anos à pressão do governo da RDA para fechar definitivamente essa fronteira. A razão, explicam os apresentadores, é que o grande objectivo soviético era expulsar os aliados ocidentais de Berlim e unificar a cidade sob controlo comunista. Construir o muro equivalia a reconhecer a derrota nesse objectivo, admitindo que os americanos, britânicos e franceses ficariam em Berlim indefinidamente. Foi precisamente isso que aconteceu em agosto de 1961: a União Soviética reconheceu duas derrotas simultaneamente — a impossibilidade de afastar os aliados e a incapacidade de tornar o regime oriental suficientemente atraente para reter a sua população.

O muro começou com arame farpado colocado subitamente numa manhã de domingo, evoluiu para blocos de betão com quatro metros de altura, 155 quilómetros de extensão total e uma vasta terra de ninguém do lado oriental, com minas, torres de vigia e guardas com ordens para atirar a matar. Cortou ruas, bairros, linhas de metro e separou famílias da noite para o dia. Apesar de tudo, cerca de cem mil pessoas tentaram ainda fugir após a sua construção, e cinco mil conseguiram. Cerca de duzentas foram assassinadas, entre as quais o jovem Peter Fester, com dezoito anos, que morreu lentamente junto ao muro sem que as autoridades da RDA permitissem que ninguém o socorresse. A queda do muro em novembro de 1989 representou o fim do comunismo europeu, pois sem fronteira fechada os regimes não podiam subsistir.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores respondem a uma questão de um ouvinte sobre a aparente contradição entre o nacionalismo do século XIX e o espectro político actual: como é que o nacionalismo, hoje associado à direita, esteve historicamente ligado à extrema-esquerda? Rui Ramos explica que a Revolução Francesa introduziu a nação como nova fonte de legitimidade política em substituição do rei e da religião, tornando-se um instrumento dos republicanos que queriam derrubar as monarquias europeias. Figuras como Giuseppe Mazzini usaram o ideal das nacionalidades para contestar os impérios e propor repúblicas assentes em Estados nacionais. Em França, após a derrota de 1870 e a perda da Alsácia e da Lorena, a extrema-esquerda identificou-se com o projecto de uma guerra de revanche para recuperar esses territórios, contestando a república moderada que preferia a paz.

A transição do nacionalismo da esquerda para a direita ocorreu, segundo Rui Ramos, sobretudo a partir da década de 1890, com o caso Dreyfus em França. O antissemitismo, que era já uma componente de certos sectores radicais da esquerda — ilustrado pelo exemplo de Richard Wagner —, tornou-se o eixo em torno do qual uma parte dos nacionalistas de esquerda convergiu com monárquicos e católicos conservadores, formando uma nova extrema-direita. Figuras como Paul Déroulède, originalmente revolucionários de esquerda, tornaram-se ícones desse novo nacionalismo de direita. O episódio termina com a advertência de que a história raramente obedece às categorias que o presente projecta sobre o passado.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • pós-Segunda Guerra Mundial (1945-1949)
  • anos 50
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80
  • Revolução Francesa (1789)
  • século XIX
  • Congresso de Viena (1815)
  • Primavera dos Povos (1848)
  • década de 1890

Temas

  • Guerra Fria
  • divisão da Alemanha
  • comunismo
  • direitos humanos
  • refugiados e migrações forçadas
  • repressão política
  • fronteiras e territórios
  • nacionalismo
  • extrema-esquerda
  • extrema-direita
  • antissemitismo
  • republicanismo
  • monarquia
  • soberania nacional
  • patriotismo
  • identidade nacional
  • legitimidade política
  • revolução
  • irredentismo

Eventos

  • construção do Muro de Berlim (13 de agosto de 1961)
  • queda do Muro de Berlim (9 de novembro de 1989)
  • divisão da Alemanha (1949)
  • bloqueio de Berlim (1948)
  • ponte aérea de Berlim
  • revolta na Hungria (1956)
  • Revolução Francesa (1789)
  • Congresso de Viena (1815)
  • Primavera dos Povos (1848)
  • unificação italiana (1859-1860)
  • Comuna de Paris (1871)
  • caso Dreyfus (1897-1898)
  • Guerra Franco-Prussiana (1870)

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra Franco-Prussiana (1870)
  • revolta na Hungria (1956)
  • revoltas na Polónia
  • revoltas na Alemanha Oriental

Episódios relacionados