← Arquivo

Nº 28204 de dezembro de 202446:27análise histórica

Quando é que Sintra se tornou famosa?

O episódio explora a evolução histórica de Sintra desde a sua importância militar medieval como ponto de defesa de Lisboa, passando pela sua escolha como residência de veraneio da realeza portuguesa (séculos XIV-XVI), até se tornar a capital do romantismo português no século XIX. Rui Ramos e João Miguel Tavares analisam como a geografia, o clima e a aura sagrada das serras atraíram reis, aristocratas e religiosos, culminando na transformação romântica impulsionada por Lord Byron e sobretudo por D. Fernando II, que fizeram de Sintra um ícone cultural europeu e símbolo da memória histórica nacional.

Ideias principais

  1. A importância estratégica de Sintra remonta ao século X, quando o Castelo dos Mouros integrava a rede defensiva de Lisboa, sendo fundamental durante a Reconquista cristã e recebendo foral antes mesmo de Lisboa ou Santarém.
  2. A geografia única de Sintra - serra de 528 metros próxima do mar - explica três funções históricas: fortificação militar, residência real de veraneio (clima fresco e caça) e refúgio religioso para conventos e ermidas.
  3. A dinastia de Avis (séculos XIV-XVI) estabeleceu Sintra como residência real principal, com D. João I, D. Duarte e D. Afonso V usando o Palácio como centro administrativo e judiciário, tornando a vila temporariamente capital do reino.
  4. O romantismo do século XIX, impulsionado por Lord Byron (1809) e concretizado por D. Fernando II com o Palácio da Pena (1842-1854), transformou Sintra num ícone cultural europeu, atraindo aristocratas que construíram palácios exóticos e fantasiosos.
  5. A Sala dos Brasões do Palácio de Sintra, mandada pintar por D. Manuel I em 1518, representa simbolicamente a história aristocrática de Portugal através dos escudos de 72 famílias nobres, funcionando como um 'Lusíadas pintado' que Anselmo Braamcamp Freire transformou numa obra historiográfica monumental.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* foi gravado no interior do Palácio Nacional de Sintra, a convite da Parques de Sintra, no âmbito das comemorações dos trinta anos da classificação da paisagem cultural de Sintra como Património Mundial pela UNESCO, em 1995. A pergunta central que orienta a conversa entre Rui Ramos e João Miguel Tavares é dupla: como era Sintra antes de se tornar o lugar monumental que hoje conhecemos, e por que razão a aristocracia portuguesa a elegeu como destino privilegiado, transformando-a numa coleção única de palácios, quintas e jardins?

Rui Ramos começa por explicar que a importância histórica de Sintra assenta, antes de mais, na geografia. Com 528 metros de altitude e situada muito próximo do mar, a serra era um ponto estratégico de defesa e vigilância. Daí a existência de fortificações desde pelo menos o século X, de que o chamado Castelo dos Mouros é testemunho. Quando Lisboa cai para os cristãos em 1147, Sintra entrega-se igualmente, passando a fazer parte da rede defensiva da nova capital do reino. É nesse contexto que D. Afonso Henriques concede a Sintra uma carta de foral em 1154, procurando fixar uma população necessária à defesa da linha de fronteira com os muçulmanos — Alcácer do Sal era ainda um porto muçulmano e as ameaças marítimas eram reais. As instituições municipais seriam reconhecidas formalmente em 1179.

A presença real em Sintra remonta ao reinado de D. Dinis, mas é D. João I, no início do século XV, quem transforma o paço numa das principais residências da coroa. O historiador sublinha que o clima de Lisboa no verão, com os seus problemas de higiene e saúde, tornava a serra uma alternativa fresca e salubre, e que a abundância de caça — nomeadamente de veados — era outro poderoso atrativo. D. Duarte deixou uma descrição detalhada do palácio no seu *Livro dos Conselhos*, revelando que este funcionava como uma verdadeira capital administrativa itinerante, com salas de despacho e escribas. D. Afonso V nasceu e morreu em Sintra, e D. João II foi aqui aclamado rei em 1481. D. Manuel I continuou a tradição, realizando obras de grande envergadura no início do século XVI. Rui Ramos destaca ainda a dimensão religiosa da serra, que atraiu ermitas e conventos — como o Convento dos Capuchos, dos franciscanos, e o de Penha Longa, dos jerónimos — para os quais os próprios monarcas contribuíram. A presença real declina ao longo dos séculos XVII e XVIII: o facto de o Palácio de Sintra ter servido de prisão para D. Afonso VI, entre 1674 e 1683, e de D. João V ter preferido Mafra enquanto D. Pedro construía Queluz, são sinais dessa deslocalização do interesse régio.

É no século XIX que Sintra adquire a dimensão cultural e imaginária que ainda hoje possui. Rui Ramos explica o fenómeno através do romantismo europeu — uma reação sentimental e religiosa ao racionalismo iluminista, com especial afeição pela Idade Média, pelas ruínas, pela paisagem dramática e pela transcendência. Sintra reunia todos estes ingredientes. Em 1809, o jovem Lord Byron visitou a vila durante uma viagem a Portugal, ficou hospedado no Hotel Lawrence e entusiasmou-se de tal forma que a incluiu no seu poema *Childe Harold's Pilgrimage*, publicado em 1812, chamando-lhe um "glorioso Éden". A obra tornou-se um êxito editorial em toda a Europa, colocando Sintra no mapa literário do continente. Porém, para o escritor Ramalho Ortigão, o verdadeiro criador da Sintra moderna foi o rei D. Fernando II, o príncipe alemão de Saxe-Coburgo-Gota que casou com D. Maria II em 1835. Apaixonado pelas artes e pela história, D. Fernando adquiriu em 1838 as ruínas do Convento da Pena e o Castelo dos Mouros, mandando construir o Palácio da Pena entre 1842 e 1854 — uma construção deliberadamente fantástica, que misturava estilos medievais, manuelinos e mouriscos. A sua iniciativa inspirou uma vaga de construções excêntricas e ecléticas por toda a área: o Palácio de Monserrate, a Vila Sassetti, a Quinta da Regaleira do milionário Carvalho Monteiro, o chalé da Condessa de Edla. Sintra tornava-se o lugar onde se podiam materializar sonhos arquitetónicos. A chegada do caminho de ferro em 1887 veio facilitar o acesso e consolidar a vocação de veraneio da vila.

O episódio termina com duas referências literárias que sintetizam bem o significado de Sintra na cultura portuguesa. Nos *Maias* de Eça de Queirós, publicados em 1888, a visita de Carlos da Maia a Sintra é descrita com as palavras-chave do imaginário romântico — solenidade religiosa, frescura, tristeza das penedias, repouso fidalgo — temperadas pelo humor da anedota das queijadas esquecidas. E a obra monumental de Anselmo Braamcamp Freire, *Brasões da Sala de Sintra*, publicada a partir de 1899, transforma o teto da sala manuelina do palácio — onde D. Manuel I mandou pintar os brasões das setenta e duas principais famílias do reino — numa história aristocrática de Portugal, comparável a um *Lusíadas* pintado no teto. Sintra torna-se assim não apenas um lugar de veraneio ou de beleza paisagística, mas um espaço onde se condensa e se evoca simbolicamente a própria memória histórica do país.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século X
  • século XI
  • século XII
  • século XIII
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Reconquista cristã
  • dinastia de Avis
  • Revolução Liberal
  • romantismo

Temas

  • arquitetura
  • romantismo
  • aristocracia
  • património
  • religião
  • fortificações militares
  • residências reais
  • turismo
  • veraneio
  • conventos
  • genealogia
  • literatura
  • paisagem cultural
  • exotismo arquitetónico

Eventos

  • Reconquista de Lisboa (1147)
  • Invasões francesas (1807-1808)
  • Convenção de Sintra (1808)
  • classificação de Sintra como património mundial pela UNESCO (1995)
  • Revolução Liberal (anos 1820-1830)
  • proclamação da República (1911)

Guerras e conflitos

  • Reconquista cristã
  • guerras luso-muçulmanas medievais
  • invasões francesas
  • guerras napoleónicas

Livros citados

Episódios relacionados