Nº 15422 de junho de 202243:30análise histórica
Se adoecêssemos há 200 anos, quem nos ajudava?
O episódio aborda a evolução dos cuidados de saúde em Portugal nos últimos 200 anos, mostrando que a saúde pública não começou com o SNS mas remonta aos séculos XV-XVI, com hospitais mantidos por misericórdias, Estado e municípios. Na segunda parte, analisa o papel de D. Luísa de Gusmão na Restauração de 1640, a sua regência (1656-1662) e o golpe palaciano que a afastou do poder, liderado pelo Conde de Castelo Melhor em favor de Afonso VI.
Ideias principais
- A assistência pública na saúde em Portugal existe desde o século XV, com hospitais reais, misericórdias e médicos municipais (partidistas) pagos pelo Estado para tratar gratuitamente os pobres, muito antes do Serviço Nacional de Saúde de 1978.
- Em 1822 e 1922 a relação das pessoas com a saúde era radicalmente diferente: o corpo não estava medicalizado, recorria-se ao médico em último caso, e para muitos a salvação da alma era mais importante que a saúde corporal.
- D. Luísa de Gusmão, espanhola da casa de Medina Sidónia, teve papel crucial na Restauração de 1640 ao incentivar o marido D. João IV a aceitar ser rei, numa altura em que a sua própria família conspirativa também contra os Habsburgos na Andaluzia.
- Como regente entre 1656 e 1662, D. Luísa manteve os exércitos, negociou a paz com Inglaterra através do casamento da filha D. Catarina com Carlos II, e preparou diplomaticamente o reconhecimento da independência portuguesa pela Espanha em 1668.
- O golpe de 1662 que afastou D. Luísa resultou da rivalidade entre facções nobres: ela favorecia o filho mais novo D. Pedro e tentava manter afastado Afonso VI, considerado incapaz, mas um grupo de nobres liderado por Castelo Melhor usou o rei para chegar ao poder.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma questão aparentemente simples — o que aconteceria a alguém que adoecesse gravemente há 200 anos? — para traçar um panorama histórico dos cuidados de saúde em Portugal ao longo dos últimos dois séculos, desmontando ao mesmo tempo o mito de que a medicina pública só teria começado com a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1978.
Rui Ramos começa por alertar para a necessidade de compreender o passado nos seus próprios termos, e não apenas como uma versão empobrecida do presente. Apresenta três diferenças estruturais entre a realidade de há 200 anos e a de hoje. A primeira diz respeito à limitação dos recursos médicos: sem antibióticos, sem meios de diagnóstico avançados e com práticas como sangrias e purgas, a intervenção do médico fazia muito menos diferença do que faz atualmente, o que explica que procedimentos hoje exclusivamente hospitalares fossem frequentemente realizados em casa. A segunda diferença é a ausência de uma relação medicalizada com o corpo: em 1960, o número de consultas médicas em Portugal era um terço do actual, e há 200 anos as pessoas recorriam ao médico apenas em situações de grande gravidade, tratando a maioria das queixas com remédios caseiros ou outros cuidadores não médicos. A terceira diferença é cultural e religiosa: numa sociedade maciçamente católica, a saúde da alma importava mais do que a saúde do corpo, e era mais urgente ter uma igreja do que um hospital numa aldeia.
Feita esta contextualização, os apresentadores mostram que nunca existiu um vazio de cuidados públicos de saúde em Portugal. Desde a Idade Média que os reis fundaram instituições hospitalares — o Hospital Real de Todos os Santos, mandado construir por D. João II em finais do século XV, é dado como exemplo maior, com internamentos, farmácia e escola de cirurgia, e chegou a ter mais de 700 doentes alojados em simultâneo. As Misericórdias, os conventos e os municípios complementavam essa rede. Em 1900 existiam mais de 220 hospitais em Portugal, pelos quais passaram 82 mil doentes nesse ano. Paralelamente, existia desde o século XVI a figura do médico de partido municipal — um clínico avençado pela câmara, obrigado a tratar os pobres gratuitamente e a cumprir funções de delegado de saúde e de perito em anatomia criminal. Em 1911 havia 613 destes médicos espalhados pelo país. A Direcção-Geral de Saúde Pública foi criada em 1899, e os centros de saúde que formam a espinha dorsal do SNS foram estabelecidos em 1971 pelo ministro Baltasar Rebelo de Sousa, pai do actual Presidente da República, existindo já 200 unidades antes de o SNS ser formalmente criado. O que o SNS trouxe de novo foi, sobretudo, a sistematização de serviços dispersos e a afirmação do Estado como responsável exclusivo pela prestação dessa assistência.
O episódio inclui ainda um segundo tema, dedicado a Dona Luísa de Gusmão por ocasião dos 360 anos do golpe palaciano que a afastou da regência, em junho de 1662. Rui Ramos explica como esta filha do Duque de Medina Sidónia casou em 1633 com o Duque de Bragança numa conjuntura em que ambas as casas aristocráticas sentiam um distanciamento crescente em relação aos Habsburgos. O ambiente de crise da monarquia hispânica — marcado pela guerra dos Trinta Anos, pela revolta da Catalunha e por uma tentativa falhada de insurreição na Andaluzia liderada pelo próprio irmão de Dona Luísa — ajuda a compreender a sua disponibilidade para incitar o marido a aceitar a coroa portuguesa em 1640. Como regente após a morte de D. João IV em 1656, governou durante seis anos com o apoio de um grupo de nobres, negociou o casamento da filha D. Catarina com Carlos II de Inglaterra, garantindo um aliado estratégico vital, e manteve os exércitos capazes de resistir às ofensivas espanholas. A sua tentativa de afastar do poder o filho D. Afonso VI, que considerava incapaz, acabou por lhe custar a regência, quando o jovem Conde de Castelo Melhor aproveitou o descontentamento do rei para impor o seu afastamento para um convento. Ainda assim, Rui Ramos sublinha que Dona Luísa preparou as condições para que o seu filho preferido, o infante D. Pedro, viesse a assumir a regência em 1668, ano em que a Espanha reconheceu finalmente a independência de Portugal.
Personagens
- Baltasar Rebelo de Sousa
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Padre José Agostinho Macedo
- D. Luísa de Gusmão
- D. João IV
- Afonso VI
- D. Pedro II
- Conde de Castelo Melhor
- D. Amélia
- D. João II
- D. Catarina de Bragança
- Carlos II de Inglaterra
- Padre António Vieira
- Duque de Cadaval
- Conde-Duque de Olivares
- Gaspar Alfonso Pérez de Guzmán e Sandoval
- D. Teodósio
- Filipe II de Espanha
- Filipe III
- Filipe IV
- Carlos V
Lugares
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XIX
- século XX
- 1822
- 1922
- Idade Média
- Guerra dos Trinta Anos
Temas
- saúde pública
- medicina
- hospitais
- assistência social
- História da medicina
- religião
- Misericórdias
- restauração da independência
- conspiração
- regência
- golpe palaciano
- nobreza
- casamentos dinásticos
- guerra
- diplomacia
- Igreja
- salvação da alma
Eventos
- Restauração de 1640
- Golpe palaciano de 1662
- Terremoto de 1755
- Batalha das Linhas de Elvas
- Tratado de paz com Espanha de 1668
- Casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II
Guerras e conflitos
- Guerra dos Trinta Anos
- Guerra da Restauração
- Revolta da Catalunha
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