Nº 14704 de maio de 202240:53resposta a ouvintes
Suíça, o país que não se parece com nenhum outro
O episódio explora a formação histórica da Suíça como confederação de cantões autónomos desde o século XIII, a sua neutralidade reconhecida internacionalmente desde 1815, e o seu carácter paradoxal: aparentemente moderna mas profundamente arcaica, preservando instituições políticas medievais enquanto o resto da Europa se modernizava. Rui Ramos apresenta a Suíça não como inovadora, mas como um resquício do passado europeu que, precisamente por ter ficado para trás, se tornou inspiradora para a política moderna através de pensadores como Rousseau e Constant.
Ideias principais
- A Suíça é fundamentalmente um arcaísmo europeu: as suas instituições políticas (cantões, democracia directa, milícias armadas) eram comuns na Europa medieval mas desapareceram com a formação dos grandes Estados nacionais.
- A neutralidade suíça foi tanto uma escolha própria como uma imposição externa conveniente, servindo como Estado-tampão entre grandes potências europeias que a ocuparam (1798) mas reconheceram formalmente a sua neutralidade no Congresso de Viena (1815).
- A democracia directa suíça através de referendos, embora considerada progressista, revelou-se conservadora e resistente a inovações sociais, como demonstra o facto de as mulheres só obterem direito de voto federal em 1971 e local completo em 1991.
- A tradição militar suíça como mercenários profissionais (século XV-XVIII) foi crucial para a sua fama europeia, sendo a Guarda Suíça do Vaticano o último vestígio dessa tradição, e hoje a Suíça mantém a população mais armada da Europa.
- Rousseau e Benjamin Constant, ambos suíços marcados pela experiência republicana dos cantões, legaram à política moderna as ideias fundamentais de soberania popular através da participação democrática e de liberdade como esfera privada protegida do poder político.
Resumo do episódio
A Suíça é um dos países europeus mais reconhecíveis, mas também um dos menos compreendidos. No episódio de hoje, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a várias perguntas de ouvintes sobre a origem, a neutralidade, o poderio económico e a tradição militar deste país singular, procurando explicar o que torna a Suíça tão diferente do resto da Europa.
Rui Ramos começa por contextualizar o fascínio que a Suíça desperta no imaginário europeu, apontando duas razões principais. A primeira é a paisagem: o movimento romântico do final do século XVIII e início do século XIX redescobriu as montanhas alpinas como objecto de admiração estética e quase espiritual, transformando a Suíça num destino de peregrinação cultural que depois evoluiu para o turismo de luxo e os desportos de neve. A segunda razão é política: entre 1815 e 1848, após o Congresso de Viena restaurar o predomínio das monarquias europeias, a Suíça era a única república do continente, tornando-se assim um modelo e uma inspiração para os republicanos de toda a Europa.
Contudo, o argumento central de Rui Ramos é paradoxal: aquilo que parecia moderno e inovador na Suíça era, na verdade, profundamente arcaico. A Suíça não é um Estado nacional construído à imagem da França ou da Alemanha. É, antes, um conjunto de cantões — pequenas comunidades políticas autónomas, governadas por conselhos de cidadãos — que sobreviveu enquanto o resto da Europa se reorganizava em grandes monarquias centralizadas. No século XV, aquilo que hoje é a Suíça era perfeitamente banal: a maior parte da Europa funcionava assim. O que aconteceu foi que o resto do continente se transformou, e a Suíça ficou. Esta diversidade radical — quatro línguas, múltiplos dialetos, cantões católicos e protestantes sem correspondência com as fronteiras linguísticas — foi cimentada não por uma identidade partilhada, mas pela resistência comum a poderes externos como os Habsburgos e os Duques da Borgonha. A neutralidade suíça, por sua vez, não é apenas uma escolha interna: foi oficialmente consagrada pelas grandes potências no Congresso de Viena de 1815, porque um território tampão entre França, Áustria e os estados italianos convinha a todos.
Os apresentadores abordam também a tradição militar suíça, que contraria a imagem de povo pacífico. Nos séculos XV e XVI, os suíços eram considerados dos melhores soldados profissionais da Europa, temidos pelas suas formações de piques e alabardas capazes de travar cargas de cavalaria. Dezenas de milhares serviam em exércitos estrangeiros, incluindo o do rei de França, e a Guarda Suíça do Vaticano é o último vestígio visível dessa tradição. Ainda hoje, a Suíça mantém um sistema de milícia em que todos os homens prestam serviço militar e guardam as armas em casa, com cerca de 3,5 milhões de armas armazenadas pelos cidadãos.
A democracia directa suíça — o sistema de referendos — é outro tema explorado. Rui Ramos nota que esta forma de participação, precisamente por ser mais próxima das vontades imediatas da população, tende a ser mais resistente à mudança do que as democracias representativas. O exemplo mais flagrante é o do sufrágio feminino: rejeitado em referendo em 1959 por 67% dos eleitores masculinos, só foi consagrado a nível federal em 1971, e em todos os cantões apenas em 1991 — décadas depois de Portugal, inclusive durante o Estado Novo, ter concedido às mulheres o direito de voto.
Personagens
- Jean-Jacques Rousseau
- Benjamin Constant
- Napoleão
- Adolf Hitler
- Calvino
- Lenin
- Mussolini
- Júlio César
- Miguel Ângelo
- Leonardo da Vinci
- Orson Welles
- Carol Reed
- Salazar
Lugares
Épocas
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- guerras napoleónicas
- Renascimento
- Revolução Francesa
- romantismo
- pós-guerra anos 50
Temas
- neutralidade
- democracia direta
- federalismo
- republicanismo
- mercenários
- refugiados políticos
- banca
- turismo
- serviço militar obrigatório
- referendos
- direitos das mulheres
- diversidade linguística
- diversidade religiosa
- filosofia política
- liberdade
- tolerância
- intolerância religiosa
Eventos
- Congresso de Viena
- invasão da Suíça em 1798
- guerra civil suíça de 1847
- Constituição Federal de 1848
- sufrágio feminino em 1971
- Convenção de Genebra 1864
- fundação da Cruz Vermelha 1863
Guerras e conflitos
- guerras napoleónicas
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- guerra civil suíça de 1847
- guerras entre católicos e protestantes século XVII
Livros citados
Episódios relacionados
- Nº 183 · Estados papais: o que são e como duraram mil anos? (Europa — Guerras e Política)
- Nº 9 · A venda da Gronelândia e os alemães que mudaram Portugal (Portugal — Origens e Império)
- Nº 168 · Porque é que a política italiana é tão complicada? (Europa — Guerras e Política)
- Nº 361 · Itália: o referendo que aboliu a monarquia (Europa — Guerras e Política)
- Nº 16 · Governos, excentricidades parlamentares e epidemias (Portugal — Origens e Império)
- Nº 205 · Porque é que o Norte de Portugal é mais religioso? (Europa — Guerras e Política)