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Nº 20514 de junho de 202348:56resposta a ouvintes

Porque é que o Norte de Portugal é mais religioso?

Episódio dividido em duas questões de ouvintes: primeiro, explica-se por que o Norte de Portugal é historicamente mais católico que o Sul, relacionando práticas religiosas com ocupação islâmica, extinção de ordens religiosas e diferenças socioeconómicas; segundo, apresenta-se a figura de Metternich, chanceler austríaco que durante 40 anos manteve a paz europeia através de um sistema diplomático de equilíbrio de poderes entre as grandes potências, baseado em pragmatismo conservador.

Ideias principais

  1. A maior religiosidade do Norte de Portugal deve-se à densidade superior de estruturas eclesiásticas, resultado da ocupação islâmica mais longa no Sul e do impacto da extinção das ordens religiosas em 1834, que afetou desproporcionalmente o Sul onde essas ordens tinham maior presença.
  2. Metternich não era austríaco mas alemão de Koblenz, falava melhor francês que alemão e personificava a elite cosmopolita que governava os impérios multinacionais da Europa Central no século XIX.
  3. O sistema diplomático de Metternich baseava-se em congressos regulares e equilíbrio de interesses entre as cinco grandes potências (Áustria, Prússia, Rússia, França e Inglaterra), conseguindo evitar guerras gerais entre 1815 e 1914, ao contrário da Santa Aliança ideológica proposta pelo czar Alexandre I.
  4. O Império Austríaco era a mais fraca das grandes potências porque, ao contrário da França ou Rússia, não tinha uma nacionalidade dominante que permitisse mobilização patriótica - os alemães eram apenas 23% da população num mosaico de húngaros, eslavos, italianos e outros povos.
  5. Metternich acreditava que na Europa multinacional a democracia levaria inevitavelmente à guerra, pois a substituição da soberania dinástica pela soberania popular desencadearia conflitos nacionalistas - tese confirmada pelas revoluções de 1848 e pela Primeira Guerra Mundial que destruiu o seu sistema.

Resumo do episódio

Este episódio de «E o Resto é História» divide-se em duas grandes questões colocadas por ouvintes: a maior religiosidade do norte de Portugal em comparação com o sul, e a figura do estadista austríaco Metternich e o sistema diplomático que construiu na Europa do século XIX.

Rui Ramos começa por enquadrar geograficamente a divisão norte-sul de Portugal, tendo como referência a obra do geógrafo Orlando Ribeiro e o trabalho do historiador José Mattoso. O norte corresponde, grosso modo, ao território acima do Tejo e do sistema montanhoso central, e distingue-se do sul em clima, relevo, estruturas de propriedade, dialetos e organização familiar. No que respeita à religiosidade, dados de sondagens das décadas de 1950 e 1960 confirmam uma prática católica muito mais intensa a norte, padrão que se reflecte igualmente na orientação de voto desde o estabelecimento da democracia em 1975, com o norte a tender para partidos à direita. Ramos aponta dois factores históricos explicativos. O primeiro é a ocupação islâmica do sul entre os séculos VIII e XIII, que gerou uma cristianização mais tardia e menos enraizada nessa região. O segundo é o facto de, após a Reconquista, o sul ter ficado entregue às ordens religiosas militares, cuja extinção pelo liberalismo em 1834 desmantelou abruptamente a rede de enquadramento eclesiástico da população sulista. A tudo isto acresce que o norte sempre teve, per capita, um número significativamente maior de paróquias e de sacerdotes. Os apresentadores sublinham que estas diferenças religiosas não devem ser lidas isoladamente, mas como parte de um conjunto mais vasto de assimetrias regionais, onde clima, relevo e história se entrelaçam de forma difícil de hierarquizar.

A segunda parte do episódio é dedicada a Clemens von Metternich. Ramos começa por contextualizar o Império Austríaco, um vasto conjunto dinástico que abrangia os territórios dos actuais Áustria, Hungria, República Checa, Eslováquia, Croácia, Eslovénia, partes da Roménia, Ucrânia, Polónia e do norte de Itália, com cerca de 36 milhões de habitantes em 1850. A sua principal fragilidade residia na extraordinária diversidade de línguas, religiões e nacionalidades, onde os grupos étnicos tendiam a coincidir com estratos sociais distintos — os alemães como burocratas e comerciantes, os húngaros como senhores de terras, os eslavos como camponeses —, tornando impossível qualquer apelo à mobilização patriótica nacional ao estilo francês.

Metternich, nascido em Koblenz e formado em Estrasburgo, falava melhor francês do que alemão e era, no fundo, um produto da elite cosmopolita da Europa Central. Ministro dos Negócios Estrangeiros desde 1809 e chanceler entre 1821 e 1848, construiu aquilo que ficou conhecido como o «concerto europeu»: um sistema de congressos regulares entre as cinco grandes potências — Áustria, Prússia, Rússia, França e Inglaterra — para resolver disputas por via diplomática em vez de recorrer à guerra. Ramos distingue este projecto da «Santa Aliança» proposta pelo czar Alexandre, de cariz ideológico e religioso, que Metternich rejeitou por a considerar irrealista, preferindo um equilíbrio pragmático de interesses. O seu pensamento, influenciado por Edmund Burke e pelo intelectual Friedrich von Gantz, era profundamente céptico em relação às revoluções e à democracia, não por fé numa ordem perfeita, mas pela convicção de que as alternativas disponíveis seriam ainda piores. O seu objectivo declarado era adiar a decadência que considerava inevitável.

O sistema funcionou: entre 1815 e 1848 não houve nenhuma guerra entre as grandes potências europeias. Foram as revoluções de 1848, surgidas nas principais cidades do império, que derrubaram Metternich, enviando-o para o exílio em Inglaterra, onde foi recebido com admiração por figuras como Bismarck e Disraeli. Após a sua queda, a Europa mergulhou numa sucessão de guerras — a da Crimeia, as da unificação italiana e alemã, as dos Balcãs — que culminaram na Primeira Guerra Mundial e no colapso do próprio Império Austríaco. Os apresentadores concluem que o legado intelectual de Metternich, o seu pragmatismo diplomático e a ideia de um equilíbrio negociado entre potências, ressurge de certa forma no projecto da União Europeia.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século VIII
  • século XIII
  • século XV
  • século XVI
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • década de 1950
  • década de 1960
  • ocupação islâmica
  • reconquista cristã
  • Guerra Fria
  • época napoleónica
  • Primeira Guerra Mundial

Temas

  • religião
  • catolicismo
  • prática religiosa
  • geografia humana
  • dialetos
  • estruturas de parentesco
  • sistemas de propriedade
  • comportamento eleitoral
  • diplomacia
  • equilíbrio de poderes
  • nacionalismo
  • revoluções
  • monarquia
  • династias
  • império multinacional
  • censura
  • conservadorismo
  • liberalismo

Eventos

  • Revolução Francesa
  • Revolução Americana
  • Revoluções de 1848
  • Congresso de Viena
  • Guerra da Crimeia
  • Unificação Italiana
  • Unificação Alemã
  • Guerras dos Balcãs
  • Primeira Guerra Mundial
  • extinção das ordens religiosas em Portugal (1834)

Guerras e conflitos

  • guerras napoleónicas
  • Guerra da Crimeia
  • Guerra da Unificação Italiana
  • Guerras da Unificação Alemã
  • Guerras dos Balcãs
  • Primeira Guerra Mundial

Livros citados

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