Nº 6614 de outubro de 202042:17resposta a ouvintes
A história dos Templários em Portugal
O episódio explora três temas principais: a relação entre religião e política nos Estados Unidos, a história dos Templários em Portugal e a reunificação alemã de 1990. Rui Ramos explica porque a religião permanece central na política americana, ao contrário da Europa secularizada, devido à separação Igreja-Estado e ao pluralismo religioso. Sobre os Templários, desfaz mitos: eram poucos (cerca de 70 cavaleiros em Portugal), especialistas em fortificações, e não tiveram ligação directa aos Descobrimentos. Quanto à Alemanha, a reunificação gerou receios mas acabou bem, enquadrada na integração europeia.
Ideias principais
- Nos EUA a religião mantém-se forte porque nunca houve igreja oficial: a separação Estado-Igreja resultou de respeito pelo pluralismo religioso, criando um 'mercado' competitivo de denominações, ao contrário da Europa onde a democratização combateu igrejas ligadas ao Antigo Regime.
- Os Templários em Portugal eram muito poucos (cerca de 500 em dois séculos, talvez 70 cavaleiros em simultâneo), especializados em engenharia militar e fortificações na fronteira do Tejo, não numa grande força de combate.
- O mito de que os navios templários impulsionaram os Descobrimentos é falso: a ordem foi extinta em 1312, convertida na Ordem de Cristo em 1319, e os Descobrimentos começaram em 1415 - com mais de 100 anos de intervalo.
- A reunificação alemã em 1990 enfrentou resistências de França e Reino Unido, que temiam o regresso de uma potência hegemónica europeia, mas foi enquadrada na integração europeia com renúncias de soberania (moeda, limites militares).
- A integração da Alemanha Oriental pobre na Ocidental rica podia ter gerado crise, mas resultou bem: apesar de queda inicial de 30% do PIB do leste, a produtividade duplicou em 10 anos, atingindo 68% da ocidental em 2000.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda três temas distintos, todos eles respondendo a perguntas de ouvintes: a relação entre religião e política nos Estados Unidos, a história dos Templários em Portugal e a reunificação alemã de 1990.
A conversa começa com uma questão do ouvinte Pedro Chen sobre o entrelaçamento entre religião e política nos Estados Unidos, especialmente visível na corrida às eleições presidenciais americanas. Rui Ramos explica que os Estados Unidos constituem um paradoxo aparente: são a sociedade mais avançada tecnológica e economicamente do mundo ocidental, mas também a menos secularizada, com apenas 18% dos cidadãos sem filiação religiosa, em contraste com países como a França, onde esse número chega a 40%. A explicação reside em dois factores históricos fundamentais. Por um lado, ao contrário da Europa, os Estados Unidos nunca tiveram uma Igreja de Estado, pelo que os movimentos de democratização americanos nunca precisaram de se definir em oposição à religião estabelecida, como aconteceu na Europa após a Revolução Francesa. Por outro lado, o país foi fundado em grande parte por comunidades de refugiados religiosos protestantes que, precisamente por temerem a dominância de qualquer confissão, inscreveram na Constituição a separação entre Igreja e Estado. Esta ausência de proteção estatal criou um vibrante mercado religioso, em que as igrejas dependem dos fiéis para sobreviver e recorreram com grande eficácia aos meios de comunicação de massas para evangelizar. Os políticos, por sua vez, aprenderam a dirigir-se aos eleitores com referências religiosas de carácter geral e transversal, invocando Deus sem se identificar com nenhuma confissão específica.
O segundo tema, mais extenso, é introduzido pela pergunta do jovem Rodrigo, de dez anos, que quer saber o que fizeram os Templários em Portugal. Rui Ramos esclarece que os Templários eram ordens religiosas militares, isto é, cavaleiros aristocratas que faziam votos de castidade e obediência e se dedicavam à guerra contra os muçulmanos. A sua presença na Península Ibérica justificava-se pelo facto de os papas equipararem a Reconquista ibérica às Cruzadas do Médio Oriente. Em Portugal chegaram ainda antes da fundação do reino, em 1128, quando a Condessa Dona Teresa lhes doou o Castelo de Soure, na fronteira com o território muçulmano. A sua especialidade era a construção e gestão de fortificações, sendo responsáveis por cerca de 10% dos duzentos castelos existentes no final do século XII, sobretudo ao longo da linha do Tejo. Rui Ramos desmistifica a ideia de que eram uma força numerosa: nunca terão existido mais de 70 cavaleiros templários em Portugal em simultâneo, embora cada um enquadrasse contingentes de tropas locais. Com os castelos, geriam também as terras e populações circundantes, funcionavam como guardiões do tesouro real e desempenhavam funções bancárias. Extintos pelo Papa em 1312, a pedido do rei de França que cobiçava os seus bens, foram transformados em Portugal na Ordem de Cristo em 1319. A ideia de que os seus navios impulsionaram os Descobrimentos é desmentida como mito: a conquista de Ceuta aconteceu um século depois da extinção da Ordem, e a confusão deve-se ao facto de o Infante D. Henrique ter sido Mestre da Ordem de Cristo, sucessora dos Templários.
O episódio encerra com uma reflexão sobre a reunificação alemã, a propósito dos trinta anos da data. Rui Ramos recorda que em 1989-1990 havia um receio generalizado quanto à unificação: França e Reino Unido temiam o ressurgimento de uma Alemanha hegemónica, enquanto a Polónia e a Checoslováquia receavam reivindicações territoriais. Apenas os Estados Unidos apoiavam entusiasticamente o processo. A Alemanha Ocidental aceitou uma série de limitações, incluindo a renúncia à soberania monetária como condição para a integração europeia, e o reconhecimento das suas fronteiras orientais no Tratado dos 2+4. Internamente, a integração da Alemanha de Leste foi economicamente dolorosa, com colapso industrial e desemprego massivo, mas a convergência acabou por acontecer: em 2000, a produtividade dos trabalhadores do Leste já representava cerca de 69% da dos trabalhadores ocidentais, o que os apresentadores consideram um resultado globalmente positivo.
Personagens
- Donald Trump
- Robespierre
- Dona Teresa (Rainha de Portugal)
- Almançor
- Dom Sancho I
- Infante Dom Henrique
- Filipe Augusto (rei de França)
- Helmut Kohl
- Margaret Thatcher
- François Mitterrand
- Mikhail Gorbachev
- Júlio Andreotti
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- século XII
- século XIII
- século XVII
- século XVIII
- Revolução Francesa
- Cruzadas
- Idade Média
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- anos 30
- anos 90
Temas
- religião
- política
- guerra
- ordens militares
- fortificações
- reconquista cristã
- cruzadas
- islamismo
- cristianismo
- protestantismo
- catolicismo
- secularização
- democracia
- comunismo
- unificação alemã
- integração europeia
- economia
- desemprego
- migração
Eventos
- Revolução Francesa de 1789
- Conquista de Ceuta (1415)
- Queda do Muro de Berlim (1989)
- Reunificação Alemã (1990)
- Tratado dos 2 mais 4 (1990)
- Conquista de Faro (1249)
- Queda de Acre (1291)
- Conquista de Alcácer do Sal (1217)
- Extinção da Ordem dos Templários (1312)
- Criação da Ordem de Cristo (1319)
Guerras e conflitos
- Cruzadas
- Reconquista
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
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