Nº 16217 de agosto de 202248:06resposta a ouvintes
O massacre da noite de São Bartolomeu
O episódio analisa dois massacres religiosos com séculos de distância: a Noite de São Bartolomeu em 1572, onde milhares de protestantes huguenotes foram assassinados em França, e a violência que acompanhou a partilha da Índia em 1947. Rui Ramos desmonta mitos sobre ambos os eventos, mostrando que não foram explosões espontâneas de fanatismo popular mas processos organizados com motivações políticas complexas, onde a religião serviu de instrumento identitário em disputas pelo poder.
Ideias principais
- O massacre de São Bartolomeu não foi obra de uma multidão católica enfurecida, mas uma operação organizada por milícias urbanas que executaram protestantes nas prisões, não nas ruas, durante vários dias a partir de 24 de agosto de 1572.
- As guerras religiosas do século XVI eram equivalentes às guerras ideológicas do século XX, com a religião funcionando como visão de mundo total que incluía organização social e legitimidade política, não apenas crença privada.
- A partilha da Índia em 1947 resultou na maior crise de refugiados da história, com 12 milhões de pessoas deslocadas e entre 500 mil a 2 milhões de mortos, num processo que visava evitar conflito mas acabou por gerá-lo em escala massiva.
- A investigação histórica recente sobre São Bartolomeu identificou os mesmos indivíduos como executores do massacre que já tinham prendido protestantes anteriormente, explicando porque as vítimas não resistiram: esperavam ser presas e libertadas como antes.
- O paradoxo da partilha é que hoje a Índia, apesar de ser Estado de maioria hindu, tem tantos muçulmanos como o Paquistão (172 milhões), sendo o segundo país com maior população muçulmana do mundo, mostrando o fracasso da lógica da separação religiosa.
Resumo do episódio
O episódio 162 de *E o Resto é História* debruça-se sobre dois temas ligados pela violência religiosa e étnica: o massacre da noite de São Bartolomeu, em França, em 1572, e a partilha do subcontinente indiano em 1947. O ponto de partida é uma sugestão de um ouvinte, que chamou a atenção para o 450.º aniversário do massacre francês e pediu que Rui Ramos ajudasse a explicar o acontecimento e o seu contexto.
Rui Ramos começa por situar o massacre no quadro das guerras civis francesas da segunda metade do século XVI. Ao contrário dos conflitos religiosos no norte da Europa, resolvidos em grande medida pela Paz de Augsburgo de 1555, França vivia uma tensão específica alimentada pelo calvinismo — um protestantismo mais radical do que o luteranismo, com forte pendor iconoclástico e uma hostilidade marcada ao clero católico. Os huguenotes tinham conquistado uma presença significativa entre a nobreza francesa, incluindo membros da própria família real, o que tornava o conflito simultaneamente religioso e político. O apresentador insiste num ponto central: a religião, neste período, não era uma crença privada, mas uma visão do mundo que determinava a legitimidade política, algo comparável às ideologias do século XX. As guerras civis eram, por isso, tanto disputas pelo controlo do rei — Carlos IX, ainda menor, tutelado pela rainha-mãe Catarina de Médicis — como confrontos entre facções aristocráticas que tinham assumido identidades confessionais opostas.
Em 1572, numa tentativa de consolidar a paz, a coroa promoveu o casamento de Margarida de Valois, católica, com Henrique de Navarra, protestante. Para a cerimónia em Paris, foram convidados os principais chefes militares huguenotes, incluindo o almirante Coligny. A 22 de agosto, Coligny sofreu um atentado e ficou ferido. O ambiente degradou-se rapidamente: os católicos temiam uma retaliação protestante, os protestantes temiam uma perseguição. Após reuniões secretas entre Catarina de Médicis, Carlos IX e conselheiros próximos — entre os quais o Duque de Guise —, parece ter sido tomada a decisão de eliminar os líderes militares huguenotes presentes na cidade. Na madrugada de 23 para 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, Coligny foi assassinado e outros chefes protestantes foram mortos. O rei chegou a emitir uma ordem a desautorizar qualquer massacre generalizado, mas dois dias depois assumiu publicamente a responsabilidade — o que alguns historiadores interpretam como uma tentativa de não parecer ter perdido o controlo da situação.
A segunda parte do episódio revisita a questão de quem executou os dois a quatro mil mortos registados em Paris e noutras cidades francesas. Rui Ramos apresenta investigações recentes que desmontam a ideia da multidão católica espontânea e fanatizada. Os estudos identificam que os perpetradores foram sobretudo milícias urbanas de classe média, as mesmas que ao longo da guerra civil tinham repetidamente prendido os protestantes. Os massacres ocorreram maioritariamente nas prisões, de noite e em segredo, e não nas ruas — o que explica a falta de resistência das vítimas, que presumivelmente julgavam estar perante mais uma detenção temporária. A violência foi organizada, circunscrita a certas cidades com historial de conflito intenso, e associada a ressentimentos acumulados de parte a parte, incluindo massacres anteriores de católicos praticados por protestantes.
Na segunda metade do episódio, João Miguel Tavares introduz o tema da partilha da Índia em 1947, por ocasião do 75.º aniversário da independência. Rui Ramos explica que a Índia nunca tinha constituído uma unidade política antes do Império Britânico, que agregou cerca de 600 Estados sob soberania londrina. A coexistência entre hindus — maioria — e muçulmanos — cerca de um quarto da população — foi progressivamente politizada: o movimento independentista do Partido do Congresso defendia um Estado secular, mas internamente crescia uma corrente de misticismo hindu que via a independência como restauração de uma Índia original; a Liga Muçulmana, por seu lado, transformou o Islão num princípio de identidade nacional, reclamando um território próprio — o Paquistão. Os britânicos, exaustos e sem recursos após a Segunda Guerra Mundial, optaram pela divisão como forma de saída rápida. O resultado foi uma das maiores crises de refugiados da história — doze milhões de pessoas deslocadas — e entre um e dois milhões de mortos, com maiorias de ambos os lados a atacar minorias para garantir homogeneidade nos seus territórios. A disputa pela Caxemira, província de maioria muçulmana com príncipe hindu, permanece irresoluta até hoje entre duas potências nucleares. O próprio Paquistão acabou por se dividir em 1971, quando o Paquistão Oriental se tornou o Bangladesh independente, mostrando que a identidade religiosa não era suficiente para manter unidos territórios sem continuidade geográfica nem cultural.
Personagens
- Carlos IX de França
- Catarina de Médicis
- Almirante de Coligny
- Duque de Guise
- Henrique de Navarra
- Margarida de Valois
- Henrique IV de França
- Jean Calvin
- Carlos V
- Filipe II de Espanha
- Luís XIV
- Mahatma Gandhi
- Jawaharlal Nehru
- Muhammad Ali Jinnah
Lugares
Épocas
- século XVI
- século XIX
- século XX
- Reforma Protestante
- Contra-Reforma
- Segunda Guerra Mundial
- descolonização
Temas
- religião
- guerra civil
- violência religiosa
- política
- massacre
- tolerância religiosa
- independência
- partilha
- refugiados
- colonialismo
- descolonização
- conflito religioso
Eventos
- Massacre da Noite de São Bartolomeu
- Reforma Protestante
- Paz de Augsburgo
- Édito de Tolerância de 1570
- Michelade de Nimes
- Independência da Índia
- Partilha da Índia
- Guerra dos 30 Anos
- Quit India
Guerras e conflitos
- Guerras Religiosas em França
- Guerra Civil Francesa
- Guerra dos 30 Anos
- Segunda Guerra Mundial
- Conflito da Cachemira
- Guerra Civil do Paquistão Oriental
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