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Nº 17516 de novembro de 202253:47análise histórica

A ideia de tolerância e a 1ª invasão francesa

O episódio explora a origem histórica da ideia de tolerância desde as guerras religiosas europeias até ao presente, analisando como a diversidade pode ser vista como imperfeição a erradicar ou como fonte de dinamismo social. A segunda parte centra-se na primeira invasão francesa de Portugal em 1807, comandada por Junot no contexto do bloqueio continental napoleónico, examinando a ocupação, a resistência popular e as consequências políticas que lançaram as sementes do liberalismo português.

Ideias principais

  1. A tolerância emergiu historicamente não de ceticismo relativista, mas do debate sobre como descobrir a verdade: através da imposição ou do confronto plural de ideias, sendo esta última mais eficaz segundo pensadores como John Stuart Mill.
  2. As sociedades oscilam entre dois princípios: a unidade como perfeição (erradicando diversidade) e a diversidade como força (aproveitando o pluralismo), sendo que a tolerância em certos domínios pode coexistir com intolerância noutros - o Estado-nação do século XIX tornou-se tolerante em religião mas intolerante em língua e etnia.
  3. A invasão francesa de 1807 resultou do bloqueio continental napoleónico contra a Inglaterra, apanhando Portugal entre duas potências: optou pela aliança britânica e pela fuga da família real ao Brasil, mantendo instruções de não-resistência aos franceses como tentativa de preservar neutralidade.
  4. A ocupação francesa revelou-se exploratória e não meramente estratégica quando Napoleão destituiu a Casa de Bragança em fevereiro de 1808, provocando uma insurreição popular que mobilizou civis armados em juntas de governo provisórias por todo o país desocupado.
  5. A resistência de 1808 constituiu uma revolução política inadvertida: elites locais tradicionalmente excluídas da alta política assumiram pela primeira vez responsabilidades de governo nacional, adquirindo experiência e legitimidade que fundamentariam o pronunciamento liberal de 1820 e a constitucionalização da monarquia.

Resumo do episódio

O episódio 175 de *E o Resto é História* divide-se em dois grandes temas: as origens históricas da ideia de tolerância e a primeira invasão francesa de Portugal, em 1807. A conversa parte de uma observação de João Miguel Tavares sobre a crescente conflitualidade política observada em eleições recentes, como as do Brasil e dos Estados Unidos, onde a discordância ideológica parece ter evoluído para uma aversão pessoal intensa. A pergunta de fundo é: de onde vem a ideia de tolerância, e como se explica o seu desaparecimento periódico?

Rui Ramos começa por situar o conceito na filosofia estoica romana, onde tolerar significava sobretudo suportar as adversidades da vida. O sentido mais próximo do actual emerge com os primeiros cristãos, que debatiam o que fazer perante a diversidade religiosa: seria legítimo coagir os outros a adoptar a fé verdadeira, ou a fé genuína exige uma convicção íntima que a força não pode produzir? A discussão é apresentada como estruturalmente antiga, e o historiador sublinha que o ponto de partida de toda a questão é a diversidade humana — étnica, religiosa, cultural, política —, que as sociedades enfrentam com duas lógicas opostas. A primeira associa unidade a perfeição e vê a diversidade como uma ameaça à coesão do Estado; foi assim que se pensou durante as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII, durante a fase jacobina da Revolução Francesa e nas ditaduras totalitárias do século XX. O Édito de Nantes de 1598, que tolerou os protestantes em França, é dado como exemplo de uma concessão forçada pelas circunstâncias, nunca como uma escolha de princípio — o que explica a sua revogação por Luís XIV em 1685. Mesmo John Locke, na sua célebre *Carta sobre a Tolerância* de 1689, hesitava quanto aos católicos, por suspeitar da sua lealdade ao rei inglês. A segunda lógica, associada a pensadores como John Stuart Mill, defende que a diversidade e o debate plural são o melhor caminho para descobrir a verdade e dinamizar a sociedade. Os sistemas representativos do século XIX tentaram institucionalizar esta dialéctica através da alternância entre partidos. Rui Ramos acrescenta ainda que tolerância e intolerância mudam frequentemente de objecto: o Estado religioso pré-moderno era tolerante em matéria étnica mas intolerante em matéria religiosa; o Estado-nação do século XIX inverteu essa equação, impondo a língua nacional enquanto alargava a liberdade religiosa.

A segunda metade do episódio é dedicada à primeira invasão francesa de Portugal. O contexto é o bloqueio continental decretado por Napoleão em 1806, após a derrota de Trafalgar ter privado a França de qualquer capacidade de confronto marítimo com a Inglaterra. Portugal, monarquia intercontinental dependente das rotas atlânticas e da aliança britânica para proteger o comércio com o Brasil, recusou aderir ao bloqueio. Rui Ramos recorda que durante anos Portugal conseguira manter a neutralidade corrompendo diplomatas franceses com o dinheiro proveniente do florescente comércio colonial, mas em 1807 essa estratégia deixou de funcionar. Com a Espanha alinhada com Napoleão, o exército de Junot atravessou a Península e entrou em Portugal sem resistência, por ordem do próprio príncipe regente D. João, que embarcou para o Brasil com a família real pouco antes da chegada dos franceses. A Inglaterra, por seu lado, preparava também uma esquadra de 22 navios de linha para atacar Lisboa caso Portugal cedesse à França, o que mostra a extrema vulnerabilidade da monarquia portuguesa.

A situação alterou-se quando Napoleão revelou as suas verdadeiras intenções: Junot lançou pesadas contribuições de guerra, dissolveu o exército português e, em fevereiro de 1808, destituiu formalmente a Casa de Bragança. Simultaneamente, a revolta espanhola contra a ocupação francesa, a partir de maio de 1808, provocou a retirada das tropas espanholas de Portugal, deixando grande parte do território desocupado. Nesse vazio de poder, elites locais — magistrados, clero, militares, vereadores — formaram juntas de governo provisórias em nome do príncipe regente e da religião católica, mobilizando populações e milícias civis para resistir aos franceses. O episódio do massacre de Évora pelo general Loison e os combates em torno do Porto ilustram tanto a brutalidade francesa como a tenacidade da resistência popular. Em agosto de 1808, o desembarque de um exército britânico comandado pelo futuro Duque de Wellington na Foz do Mondego inclinou definitivamente a balança: Junot foi derrotado em Vimeiro e obrigado a retirar. Rui Ramos conclui que esta primeira invasão foi uma verdadeira revolução silenciosa: ao governarem o país nos meses de crise, as elites provinciais adquiriram experiência e legitimidade políticas que as tornariam protagonistas do liberalismo constitucional português após 1820, estando ali, portanto, as sementes da transformação política que se seguiria.

Personagens

Lugares

Épocas

  • séculos XVI e XVII
  • século XIX
  • século XX
  • 1807
  • 1808
  • 1685
  • 1689
  • 1776
  • 1789
  • 1805
  • 1812
  • 1820

Temas

  • tolerância
  • intolerância
  • guerras religiosas
  • liberalismo
  • diversidade
  • unidade
  • homogeneidade
  • pluralismo
  • religião
  • política
  • ocupação militar
  • resistência popular
  • nacionalismo
  • imperialismo
  • diplomacia
  • guerra
  • constitucionalismo
  • revolução liberal

Eventos

  • Primeira invasão francesa de Portugal
  • Bloqueio continental
  • Batalha de Trafalgar
  • Batalha do Vimeiro
  • Massacre de São Bartolomeu
  • Édito de Nantes
  • Guerra dos Sete Anos
  • Guerra Fantástica
  • Revolução Francesa
  • Tratado de Fontainebleau
  • Constituição de Cádiz
  • Pronunciamento militar de 1820

Guerras e conflitos

  • Guerras religiosas dos séculos XVI e XVII
  • Guerras napoleónicas
  • Guerra dos Sete Anos
  • Guerra Fantástica
  • Primeira Guerra Mundial
  • Primeira invasão francesa de Portugal

Livros citados

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