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Nº 32530 de setembro de 202551:01efeméride

Tratados de Locarno: a Europa a sonhar com a paz

Análise dos Tratados de Locarno (1925), que procuraram garantir paz duradoura na Europa após a Primeira Guerra Mundial, criando o chamado 'espírito de Locarno' entre 1925-1930. O episódio explora se este espírito de conciliação estava condenado ao fracasso ou se foi Hitler quem destruiu um sistema viável, concluindo que, embora Hitler tenha sido determinante, existiam fragilidades estruturais que tornariam difícil a sobrevivência do tratado mesmo sem o nazismo.

Ideias principais

  1. Os Tratados de Locarno não foram uma ilusão ingénua: em 1925, uma pessoa bem informada tinha razões sólidas para acreditar que os conflitos militares europeus tinham sido eliminados, após anos de caos (1919-1923) marcados por queda de impérios, inflação galopante e receio de revolução bolchevista.
  2. O sistema de Locarno baseava-se em cálculo racional, não em bondade: mesmo nacionalistas como Stresemann concluíram que a Primeira Guerra Mundial arruinara vencedores e vencidos, tornando a guerra um meio irracional de resolução de conflitos, enquanto os capitais americanos sustentavam a recuperação económica alemã.
  3. A principal fragilidade de Locarno era ignorar o problema das minorias nacionais: milhões de alemães, húngaros e outras populações viviam fora dos seus estados-nação, gerando tensões que o tratado não resolvia, especialmente entre a Alemanha e a Polónia/Checoslováquia, problema só resolvido após 1945 com expulsões em massa.
  4. A dependência europeia dos Estados Unidos era crítica, mas os EUA recusaram assumir liderança: ficaram fora da Liga das Nações e de Locarno, e quando retiraram capitais após a crise de 1929, a Europa entrou em colapso sem ter meios próprios para manter a estabilidade.
  5. Hitler fez diferença decisiva mas não era o único problema: mesmo sem ele, conflitos por minorias nacionais, potências revisionistas (URSS, Itália, Japão) e a ideia geopolítica de que era necessário atingir dimensão continental para competir com os EUA tornavam difícil a sobrevivência do espírito de Locarno.

Resumo do episódio

O episódio de *E o Resto é História* dedicado aos Tratados de Locarno parte de uma data redonda — o centenário das negociações realizadas entre 5 e 16 de outubro de 1925 — para explorar uma questão central: o chamado "espírito de Locarno", que durante alguns anos pareceu garantir a paz na Europa, foi apenas uma ilusão ingénua, ou tinha fundamentos sólidos que acabaram por ser destruídos, em grande medida, por Adolf Hitler?

Rui Ramos começa por contextualizar o período que antecedeu os tratados. Entre 1919 e 1923, a Europa vivia numa agitação enorme: os grandes impérios tinham colapsado, as fronteiras eram indefinidas, grassavam guerras civis e revoluções, a inflação devastava as economias e a ocupação franco-belga do Ruhr, em 1923, ameaçava reacender um conflito armado de grande escala. Quando chegamos a 1925, o contraste é radical. A revolução bolchevista tinha ficado contida na Rússia, Stalin reorientara a política soviética para o "socialismo num só país", as tropas saíram do Ruhr, a inflação foi domada por políticas de austeridade e os Estados Unidos passaram a financiar a economia alemã através de empréstimos bancários, criando um mecanismo em que o dinheiro americano chegava à Alemanha, que pagava reparações à França e à Grã-Bretanha, que por sua vez saldavam as dívidas de guerra aos americanos. Esta circulação de capitais gerou confiança, estabilidade monetária e prosperidade — os "loucos anos 20" que associamos ao jazz, ao cabaré e às mudanças sociais. Neste contexto, os apresentadores sublinham que em 1925 o Partido Nazi era irrelevante e Hitler parecia um fóssil político de tempos já ultrapassados.

Os três principais negociadores de Locarno — o britânico Austen Chamberlain, o francês Aristide Briand e o alemão Gustav Stresemann, todos premiados com o Nobel da Paz — não eram ingénuos nem pacifistas por temperamento. Stresemann, em particular, era um nacionalista convicto que queria ver a Alemanha regressar ao estatuto de grande potência, mas havia tirado da Primeira Guerra Mundial a conclusão de que a guerra era o pior dos instrumentos: arruinara vencidos e vencedores em igual medida. O seu compromisso com a diplomacia era, portanto, racional e estratégico, não sentimental. Neste sentido, Rui Ramos defende que uma pessoa bem informada em 1925 tinha razões genuínas para acreditar que as principais causas de conflito tinham sido eliminadas ou controladas.

Contudo, os tratados tinham fragilidades estruturais que existiam independentemente de Hitler. O primeiro problema era a questão das minorias nacionais: Locarno tratou de fronteiras, mas ignorou as dezenas de milhões de alemães, húngaros e outros que viviam em estados cuja identidade nacional não era a sua, gerando tensões permanentes e pressão política interna nos países de origem. O próprio Stresemann não renunciava a recuperar, por via diplomática, os territórios da Polónia e da Checoslováquia onde viviam alemães. Um segundo problema era a exclusão de potências revisionistas como a União Soviética e, em termos práticos, a Itália de Mussolini, que subscreveu os tratados mas alimentava aspirações imperiais no Adriático e em África. A instabilidade política interna dos países europeus nos anos 30, exemplificada pela guerra civil espanhola, era um terceiro fator de erosão. E a grande fragilidade de fundo era a ausência dos Estados Unidos: a Europa dependia financeiramente de Washington, mas os americanos recusavam assumir qualquer compromisso político ou de segurança com o continente. Quando a crise de 1929 levou os bancos americanos a retirar os capitais da Europa e a fechar o mercado, o edifício de Locarno ficou sem as suas fundações económicas.

A conclusão dos apresentadores é matizada: Hitler fez uma diferença enorme, porque era um jogador político que apenas funcionava no limite máximo da disrupção e da conquista. Sem ele, as coisas não teriam sido tão catastróficas. Mas mesmo sem Hitler, as tensões em torno das minorias alemãs na Polónia e na Checoslováquia tornariam muito provável um conflito militar em meados dos anos 30, envolvendo um governo alemão que, sob pressão interna, tivesse abandonado a via diplomática de Stresemann. Locarno tinha razões de ser e não era pura ilusão — mas estava assente em fundações frágeis que dificilmente teriam resistido ao tempo.

Personagens

Lugares

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • Entre-guerras
  • Anos 20
  • Anos 30
  • Segunda Guerra Mundial
  • República de Weimar
  • 1925
  • 1914-1918
  • 1919-1923
  • 1924-1929
  • 1929-1932

Temas

  • diplomacia
  • paz
  • guerra
  • tratados internacionais
  • reparações de guerra
  • política externa
  • minorias nacionais
  • nacionalismo
  • revisionismo
  • economia
  • inflação
  • crise financeira
  • padrão ouro
  • imperialismo
  • fascismo
  • comunismo
  • bolchevismo
  • geopolítica
  • limpeza étnica
  • guerra civil

Eventos

  • Tratados de Locarno
  • Tratado de Versalhes
  • Espírito de Locarno
  • Revolução Bolchevista
  • Ocupação da Renânia
  • Ocupação do Ruhr
  • Crise da Bolsa de 1929
  • Guerra Civil Espanhola
  • Plano Dawes
  • Prémio Nobel da Paz

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Civil Grega
  • Guerra Civil Jugoslava

Livros citados

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