Nº 35926 de maio de 202652:10efeméride
100 anos do 28 de Maio: o que havia antes do golpe
Episódio sobre os 100 anos do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que pôs fim à Primeira República. Rui Ramos explica como o domínio do Partido Republicano Português (PRP) e as suas políticas controversas (anticlericalismo, guerra, inflação) criaram uma crise política que culminou na divisão interna do partido e na perda de legitimidade do regime. O movimento militar liderado por Gomes da Costa surgiu num contexto de unanimidade nacional contra o sistema partidário, sendo recebido sem resistência por republicanos, monárquicos, católicos e até socialistas.
Ideias principais
- O problema da Primeira República não foi a instabilidade governativa (44 governos em 16 anos), mas o domínio hegemónico e violento de um único partido, o PRP, que não aceitava estar fora do poder.
- A tentativa de reforma do PRP após 1919, liderada por António Maria da Silva, fracassou porque as bases radicais do partido recusaram a alternância democrática, culminando no assassinato de António Grancho na Noite Sangrenta de 1921.
- A divisão do PRP em 1925 entre a facção moderada de António Maria da Silva e a facção radical de José Domingos dos Santos destruiu a base partidária estável do regime e criou um impasse político insolúvel.
- O golpe de 28 de Maio foi um movimento das Forças Armadas enquanto corporação, não um pronunciamento militar tradicional ligado a partidos, e contou com apoio transversal de todo o espectro político porque todos viam a ditadura como solução temporária.
- Em Junho de 1926 nada estava decidido sobre o futuro regime: o Estado Novo foi apenas um dos resultados possíveis de um processo tortuoso de sete anos, não um plano definido desde o início.
Resumo do episódio
O episódio de *E o Resto é História* assinala o centenário do 28 de Maio de 1926, o golpe militar que pôs fim à Primeira República portuguesa. Respondendo a uma pergunta enviada por um ouvinte, Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se explicar o que havia antes do golpe — as suas causas profundas — deixando para um episódio seguinte a análise do caminho entre o movimento militar e o estabelecimento do Estado Novo em 1933. A tese central é que o 28 de Maio não foi um acontecimento súbito nem inevitável: foi o resultado inesperado de uma tentativa falhada de reforma do próprio regime republicano.
O ponto de partida é a natureza da Primeira República. Rui Ramos insiste que a famosa contagem de 44 governos e 8 presidentes em 16 anos é uma «pista falsa»: o problema não era a instabilidade, mas o domínio quase monopolista do Partido Republicano Português — o PRP ou Partido Democrático — liderado por Afonso Costa. Este partido recorria sistematicamente à violência para chegar ao poder e à manipulação eleitoral para se manter nele, tendo em 1913 retirado o direito de voto aos analfabetos, reduzindo assim o eleitorado a uma base que conseguia controlar. As suas políticas mais controversas — a guerra cultural contra a Igreja Católica, o confronto com os sindicatos anarquistas e a intervenção na Primeira Guerra Mundial — geraram uma oposição ampla que ia dos monárquicos aos próprios anarquistas.
Depois de 1919, os dirigentes do PRP perceberam que o regime estava a perder terreno. Perdiam a batalha ideológica junto das massas populares, atraídas pelo culto mariano de Fátima, e junto das elites intelectuais jovens, seduzidas pelo integralismo lusitano. A resposta foi uma tentativa de reforma: afastar Afonso Costa, pôr fim à guerra contra a Igreja, aceitar a alternância com a direita republicana e criar um novo Partido Liberal. Em 1922, António Maria da Silva foi mais longe, desarmando a Guarda Republicana — que funcionava como uma guarda pretoriana do regime, dominada pelos militantes mais radicais do PRP — e entregando a manutenção da ordem ao Exército, ao mesmo tempo que tentava equilibrar as finanças e combater a inflação. Esta política, porém, descontentou simultaneamente as bases radicais do PRP e a direita republicana, que via o seu programa ser adoptado pelo adversário sem que este cedesse o poder. A Noite Sangrenta de outubro de 1921, em que o líder do Partido Liberal António Granjo foi linchado por militantes do PRP no Arsenal da Marinha, ilustrara dramaticamente a violência que as bases estavam dispostas a exercer para impedir a alternância.
Entre 1923 e 1925, o PRP fragmentou-se em fações rivais que se boicotavam mutuamente. José Domingos dos Santos rompeu e fundou o Partido da Esquerda Democrática, eliminando a base partidária estável que sustentara a governação republicana. A isto somou-se a demissão do Presidente da República Manuel Teixeira Gomes em 1925 e o escândalo da fraude de Alves dos Reis, ambos interpretados como sinais de decomposição do regime. Portugal vivia então, segundo as estimativas do PIB, o momento de maior afastamento em relação à média europeia dos últimos dois séculos, e havia uma sensação generalizada de crise. Neste contexto, a palavra «ditadura» circulava sem conotação necessariamente negativa — não significava forçosamente um regime autoritário permanente, mas antes um período de governação excepcional sem Parlamento, destinado a resolver problemas concretos, depois do qual se retomaria a vida normal.
É neste clima que emerge o general Gomes da Costa, figura descomunal e pitoresca, que em maio de 1926 lidera o pronunciamento militar em Braga. O movimento não encontrou resistência organizada: os próprios dirigentes do governo, incluindo António Maria da Silva, encararam a situação como um intervalo temporário do qual esperavam sair de férias e regressar. Quando Gomes da Costa entrou em Lisboa a cavalo, com a espada desembainhada, a 6 de junho, foi recebido por multidões entusiastas que incluíam tanto católicos e monárquicos como adeptos da esquerda radical, todos satisfeitos por ver cair o governo que detestavam. Os partidos políticos não foram dissolvidos; ficaram à espera. Como sublinham os apresentadores no final do episódio, o 28 de Maio fechou uma época mas deixou tudo em aberto: o Estado Novo de 1933 foi apenas um dos desfechos possíveis, não o único nem o previsto.
Personagens
Lugares
Épocas
- Primeira República
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Estado Novo
- anos 20
Temas
- política
- golpe de Estado
- ditadura
- democracia
- anticlericalismo
- guerra
- inflação
- economia
- anarquismo
- sindicalismo
- maçonaria
- catolicismo
- terrorismo
- censura
- eleições
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- Revolução de 5 de Outubro de 1910
- Monarquia do Norte
- Noite Sangrenta
- Aparições de Fátima
- Acordo de Sacavém
- Revolução Nacional
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
Livros citados
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