Nº 18922 de fevereiro de 202353:48efeméride
A foto misteriosa da secretária de Salazar
O episódio analisa a publicação do livro 'Salazar, o Homem e a Sua Obra' em fevereiro de 1933, quando Salazar tinha apenas seis meses como Presidente do Conselho. Rui Ramos explica que a posição de Salazar era então muito frágil, pressionado pela esquerda republicana apoiada pela República Espanhola, pelo crescente movimento fascista do Nacional-Sindicalismo de Rolão Preto, e pela Grande Depressão. O livro de entrevistas com António Ferro foi uma operação calculada de propaganda para consolidar o poder de Salazar, apresentando-o como uma 'terceira via' entre liberalismo e fascismo. O episódio explora ainda o mistério de uma fotografia de Salazar com um retrato de Mussolini na secretária, datada de 1940 mas possivelmente tirada em 1934-1937.
Ideias principais
- Em 1933, a posição de Salazar no poder era extremamente frágil e não havia garantia de que se manteria, ao contrário da visão retrospectiva criada pelos 36 anos de ditadura que se seguiram.
- Salazar estava sob pressão simultânea de três frentes: a esquerda republicana apoiada pela República Espanhola, o movimento fascista do Nacional-Sindicalismo que o considerava demasiado conservador, e a Grande Depressão económica.
- O livro de António Ferro foi uma operação de propaganda calculada para apresentar Salazar como uma 'terceira via' entre liberalismo e fascismo, afastando-se de ambos mas obrigando-os a aproximarem-se dele.
- A fotografia misteriosa com o retrato de Mussolini na secretária de Salazar foi provavelmente tirada entre 1934-1937 (não em 1940), numa altura em que Salazar precisava de desmentir acusações de Rolão Preto de que estava 'fora de moda' e não era um verdadeiro revolucionário.
- Portugal em 1932-33 não era um país estável sob controlo ditatorial, mas vivia confrontos de rua frequentes entre nacional-sindicalistas, comunistas e polícia, com mortes de ambos os lados, num ambiente de grande instabilidade política.
Resumo do episódio
# A Foto Misteriosa da Secretária de Salazar
Este episódio parte de dois temas interligados: o lançamento, em fevereiro de 1933, do livro *Salazar, o Homem e a Sua Obra*, compilação de entrevistas conduzidas pelo jornalista António Ferro, e a enigmática fotografia que mostra, na secretária de Salazar, um retrato autografado de Mussolini. Rui Ramos e João Miguel Tavares usam estes dois momentos para retratar um Salazar muito menos sólido e inevitável do que a memória histórica habitual sugere.
O historiador Rui Ramos começa por advertir contra o que chama de "anacronismo do resultado": porque sabemos que Salazar governou durante trinta e seis anos, tendemos a ler o início do seu regime como um percurso inevitável. A realidade de 1932-33 era bem diferente. Salazar estava há apenas seis meses à frente do governo quando o livro saiu, e a sua posição era precária. Portugal era uma ditadura militar desde 1926, e o poder assentava nos equilíbrios entre correntes de opinião nos quartéis — equilíbrios que não lhe eram necessariamente favoráveis. Um dos seus próprios colaboradores militares escreveu-lhe em janeiro de 1933 que "ninguém dava por eles um centavo". O contexto agravava-se ainda mais: a proclamação da República em Espanha em 1931 animara a oposição republicana e de esquerda em Portugal, levando a revoltas militares e greves; a ascensão de Hitler em janeiro de 1933 entusiasmara os movimentos fascistas europeus, incluindo o nacional-sindicalismo de Rolão Preto, que desafiava Salazar a partir da sua própria direita, acusando-o de ser um conservador fora de moda, incapaz de "vestir uma camisa de combate"; e a Grande Depressão comprimia a economia portuguesa, bloqueando exportações e remessas de emigrantes. O Portugal de 1932-33 era um país de confrontos de rua, greves, mortes e irreverência pública — incluindo um livro de um ex-colaborador que sugeria ter sido ele o verdadeiro autor dos discursos de Salazar.
É neste contexto que se compreende a escolha de António Ferro para as entrevistas. Ferro era um jornalista internacionalmente conhecido, modernista, ligado ao movimento do Orpheu, com contactos em Paris junto de figuras como Paul Valéry e Luigi Pirandello. Tinha já colaborado com o Ministério dos Negócios Estrangeiros numa campanha de promoção de Portugal no estrangeiro. A sua escolha foi calculada: Salazar não queria falar com um velho académico ou um liberal republicano, queria um jovem, com prestígio, capaz de dar à conversa uma dinâmica inesperada. As perguntas de Ferro foram, de facto, invulgarmente diretas — sobre o papel do exército, a censura, os maus-tratos nas prisões —, e Salazar respondeu com uma mistura de franqueza controlada e humor distanciado que transparece igualmente no prefácio que escreveu para o livro, onde se retrata na terceira pessoa como alguém que não quis o poder, que não sabe se ficará, mas que entretanto está. Era uma forma de estar acima das intrigas e, ao mesmo tempo, de afirmar a sua permanência num momento em que ela não era óbvia. O livro saiu em tiragem de 125 mil exemplares e foi rapidamente traduzido para francês, espanhol e inglês, com prefácios de figuras de prestígio em cada país, numa campanha de propaganda paga pelo Estado português.
A segunda parte do episódio é dedicada à fotografia de Mussolini na secretária de Salazar, enviada por um ouvinte que a encontrou online com a indicação de ter sido tirada em 1940. Os apresentadores questionam essa data: em julho de 1940, Portugal havia declarado a neutralidade, reafirmando a Aliança Inglesa, e seria estranho que Salazar se deixasse fotografar com o retrato de um líder beligerante. Seguindo a investigação do embaixador Fernando de Castro Brandão, o retrato de Mussolini terá chegado a Salazar por volta de julho de 1934 — numa troca de cortesias diplomáticas iniciada pelo embaixador português em Roma, Augusto Castro —, e a foto seria anterior a 1940, provavelmente de 1937, ano em que o fotógrafo Bernard Hoffman também passou por Portugal. A razão pela qual Salazar se deixou fotografar com o retrato é, segundo Rui Ramos, política: em 1934, ao proibir o nacional-sindicalismo e prender Rolão Preto, Salazar precisava de desmentir a acusação de ser um ditador antiquado e sem ligação ao fascismo europeu. Ter na secretária um retrato autografado de Mussolini era uma forma de mostrar que o líder fascista mais célebre da Europa o reconhecia como igual — mesmo que Salazar continuasse a afirmar que o seu regime era diferente, sem o "cesarismo pagão" do fascismo italiano. O episódio termina com os apresentadores a lançar um desafio aos ouvintes: quem conseguir determinar com provas definitivas a data exata em que a fotografia foi tirada e publicada pela primeira vez ganha um almoço.
Personagens
- António de Oliveira Salazar
- António Ferro
- Paul Valéry
- Marcelo Caetano
- António Alçada Batista
- Francisco Rolão Preto
- Benito Mussolini
- Adolf Hitler
- Domingos Oliveira
- Vicente Freitas
- Quirino de Jesus
- António Sérgio
- Raul Proença
- Assis Gonçalves
- Augusto Castro
- Júlio Dantas
- Fernando Pessoa
- D. Manuel II
- Bernard Hoffman
- Fernando de Castro Brandão
- Luigi Pirandello
- Austin Chamberlain
Lugares
Épocas
- século XIX
- anos 30 do século XX
- Estado Novo
- Ditadura Militar (1926-1933)
- Grande Depressão
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- ditadura
- propaganda política
- fascismo
- censura
- imprensa
- economia
- finanças públicas
- política externa
- republicanismo
- nacionalismo
- corporativismo
- oposição política
- fotografia
- jornalismo
- modernismo
- relações diplomáticas
Eventos
- publicação de Salazar, o Homem e a Sua Obra
- proclamação da República Espanhola (1931)
- revoltas militares na Madeira (1931)
- revolta militar em Lisboa (1931)
- formação da Aliança Republicana Socialista
- chegada de Hitler ao poder (1933)
- lançamento do Nacional-Sindicalismo
- comício do Parque Eduardo VII (1933)
- greve geral (1932)
- proibição do Nacional-Sindicalismo (1934)
- plebiscito da Constituição (1933)
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Espanhola
Livros citados
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