Nº 13616 de fevereiro de 202255:21efeméride
Camisas Azuis: o fascismo português dos anos 30
Episódio dedicado aos 90 anos do jornal Revolução e ao movimento nacional-sindicalista português (camisas azuis), liderado por Francisco Rolão Preto. Analisa o contexto europeu dos anos 30, quando o fascismo era uma ideologia ainda respeitável, e explica porque é que o fascismo português falhou face ao Estado Novo de Salazar. Na segunda parte, responde a uma pergunta sobre emigração portuguesa, traçando a história da diáspora desde o século XVIII até ao século XXI.
Ideias principais
- Em 1932-33, antes do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial, o fascismo era uma ideologia defendida com orgulho e as ditaduras não tinham a má reputação actual, sendo vistas por muitos como alternativas eficientes à democracia parlamentar em crise.
- O nacional-sindicalismo português fracassou porque tentou ser um movimento fascista revolucionário num país que já tinha uma ditadura estabelecida com o seu próprio chefe (Salazar) e a sua própria doutrina autoritária.
- Francisco Rolão Preto, o líder fascista português, tornou-se paradoxalmente um opositor democrático de Salazar, sendo até condecorado por Mário Soares em 1994 pelo seu 'amor à liberdade', apesar de nunca ter abandonado as suas convicções nacionalistas.
- A emigração portuguesa tem uma longa história que antecede os anos 60: no século XVIII eram 8-10 mil pessoas/ano para o Brasil, atingindo 226 mil entre 1910-12, fazendo do Rio de Janeiro a segunda maior cidade portuguesa depois de Lisboa.
- A emigração portuguesa sempre foi economicamente motivada por diferenciais salariais (nos anos 60, uma empregada doméstica ganhava 6 vezes mais em Paris que em Lisboa) e regionalmente estruturada, com o Minho a dominar os fluxos para o Brasil e comunidades que mantinham laços fechados com Portugal.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos. Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre o Movimento Nacional Sindicalista português, os chamados Camisas Azuis, por ocasião dos 90 anos do início da publicação do jornal *Revolução*, em fevereiro de 1932. Na segunda parte, respondem a uma pergunta de um ouvinte sobre a tradição de emigração portuguesa.
O ponto de partida é a estranheza, para um olhar contemporâneo, de que o fascismo foi, no início da década de 1930, uma ideologia defendida abertamente e com orgulho por muita gente. Rui Ramos contextualiza esta realidade lembrando que, antes da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, o fascismo estava essencialmente associado à ditadura de Mussolini em Itália, e que as próprias democracias parlamentares sofriam de um sério défice de credibilidade. Intelectuais e políticos de diversas tendências argumentavam que o modelo parlamentar era ineficiente, ultrapassado e incapaz de responder às crises da época — a Grande Depressão, a inflação dos anos 20 — o que abria espaço tanto para o comunismo como para o fascismo como alternativas revolucionárias.
Em Portugal, o Movimento Nacional Sindicalista surge neste contexto, liderado por Francisco Rolão Preto, figura oriunda do integralismo lusitano monárquico. A ditadura militar de 1926 tinha deslocado o republicanismo da cena política, libertando uma geração de jovens estudantes — filhos de proprietários rurais, geralmente do interior do país — da velha dicotomia monarquia-república e tornando-os receptivos a um projeto fascista autóctone. O movimento adoptou camisas azuis como uniforme, a cruz da Ordem de Cristo como símbolo e propôs um Estado assente no sindicalismo nacional, com políticas sociais para os trabalhadores, numa linguagem que misturava elementos da esquerda com o autoritarismo nacionalista. A vitória de Hitler na Alemanha, em janeiro de 1933, entusiasmou ainda mais os nacionais-sindicalistas, e Rolão Preto chegou a imitar o bigode do ditador alemão nessa época.
O problema central do movimento era, porém, estrutural: pretendia ser a doutrina de um regime e ter um chefe, mas o lugar estava já ocupado por Salazar. A tensão entre ambos foi crescendo à medida que Salazar consolidava o poder. Para Rolão Preto, o Estado Novo era uma traição ao fascismo, demasiado comprometido com elites liberais e com formas constitucionais herdadas do século XIX. Em julho de 1933, o jornal *Revolução* foi encerrado; em julho de 1934, Rolão Preto foi preso e exilado em Espanha, e o movimento foi proibido. Os nacionais-sindicalistas dividiram-se: uns integraram-se no regime, encaminhados para as estruturas corporativas; outros, como Rolão Preto, passaram à oposição e chegaram a conspirar ao lado de republicanos e comunistas contra Salazar — o que os levou, paradoxalmente, a reivindicar liberdades e eleições que contrariavam os seus próprios ideais. Em 1958, Rolão Preto aparecia ao lado do general Humberto Delgado. Em 1994, Mário Soares condecorou-o postumamente pelo seu "entranhado amor pela liberdade".
Na segunda parte, em resposta a um ouvinte prestes a emigrar para o Luxemburgo, Rui Ramos traça a longa história da emigração portuguesa. Distingue a expansão dos séculos XV a XVII — expedições semi-oficiais de fidalgos e missionários — da emigração propriamente dita, que emerge no século XVIII com a atração do ouro e da agricultura brasileira, originária sobretudo do Minho e atingindo oito a dez mil pessoas por ano. Esta corrente prolongou-se pelo século XIX e início do XX, tendo o Rio de Janeiro sido, no princípio do século passado, a segunda cidade portuguesa em número de habitantes lusófonos. Entre 1890 e 1940, cerca de 1,2 milhões de portugueses emigraram, 92% do Norte e 83% para o Brasil. A partir dos anos 1960, o destino principal deslocou-se para a Europa Ocidental, sobretudo França e Alemanha, atraindo trabalhadores pouco qualificados por salários até seis vezes superiores aos portugueses. Em 1973, um em cada cinco trabalhadores portugueses estava empregado num país da Comunidade Económica Europeia. A emigração do século XXI é descrita como qualitativamente diferente: urbana, nacional e com forte peso de diplomados, mas movida pela mesma lógica do diferencial de rendimentos.
Personagens
Lugares
Épocas
- anos 30 do século XX
- anos 20 do século XX
- período entre guerras
- Estado Novo
- ditadura militar (1926)
- Primeira República
- século XIX
- século XX
- anos 60 do século XX
- século XVIII
- século XVI
- século XV
Temas
- fascismo
- ditadura
- democracia parlamentar
- comunismo
- monarquia
- republicanismo
- nacionalismo
- sindicalismo
- autoritarismo
- imigração
- emigração
- colonialismo
- economia
- política social
- censura
- oposição política
Eventos
- publicação do jornal Revolução (15 fevereiro 1932)
- Revolução de 1910
- ditadura militar de 1926
- morte de D. Manuel II (2 julho 1932)
- Constituição de 1933
- tomada de poder de Hitler (janeiro 1933)
- proibição do jornal Revolução (24 julho 1933)
- prisão e exílio de Rolão Preto (10 julho 1934)
- proibição do nacional-sindicalismo (29 julho 1934)
- Guerra Civil Espanhola (1936)
- Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
- eleições presidenciais de 1958
- 25 de Abril de 1974
- independência do Brasil (1822)
- Revolução Bolchevique (1917)
- Grande Depressão (1929-1931)
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Espanhola
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