Nº 33218 de novembro de 202542:18efeméride
Semelhanças e diferenças entre Franco e Salazar
O episódio compara as ditaduras de Franco e Salazar, assinalando os 50 anos da morte do caudilho espanhol (1975). Através de sete semelhanças e sete diferenças, Rui Ramos analisa a longevidade dos regimes, as suas origens militares, o papel do catolicismo e da repressão, destacando que o franquismo foi muito mais violento e corporativista, enquanto o salazarismo manteve instituições republicanas formais. A Guerra Civil Espanhola marcou profundamente o regime de Franco com sangue e internacionalização, contrastando com a origem pacífica do Estado Novo português.
Ideias principais
- Franco e Salazar lideraram as ditaduras mais longas da Europa Ocidental no século XX (36 anos cada), mas Franco era chefe de Estado absoluto enquanto Salazar era apenas primeiro-ministro nomeado pelo Presidente.
- A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) diferenciou radicalmente os dois regimes: Franco emergiu de três anos de violência extrema com cerca de 100 mil execuções, enquanto o golpe militar português de 1926 foi pacífico e imediato.
- As posições internacionais de Portugal e Espanha inverteram-se após 1945: a Espanha franquista foi tratada como estado pária por ter apoiado o Eixo, mas recuperou aceitação ao descolonizar, enquanto Portugal passou de aceite a isolado pelas guerras coloniais.
- O Estado espanhol foi genuinamente corporativista e monárquico sem rei, suprimindo eleições até 1967, enquanto o Estado Novo português manteve formalmente instituições republicanas com eleições regulares, embora fraudulentas.
- A transição democrática espanhola após 1975, aparentemente pacífica e controlada, teve mais mortes por violência política do que a Revolução Portuguesa de 1974-1975, revelando níveis de conflito profundos mesmo na mudança de regime.
Resumo do episódio
O episódio parte da efeméride dos 50 anos da morte de Francisco Franco, ocorrida a 20 de novembro de 1975, para propor um exercício comparativo entre as duas grandes ditaduras ibéricas do século XX. Rui Ramos organiza a discussão em torno de sete semelhanças e sete diferenças entre o regime de Franco e o Estado Novo de Salazar, mostrando que os dois casos são simultaneamente próximos e surpreendentemente distintos.
A primeira semelhança é a mais evidente: ambos os ditadores governaram os seus países durante 36 anos, pertenceram à mesma geração e permaneceram no poder até idades muito avançadas. Mas a diferença é imediata: Salazar era um civil, professor universitário, juridicamente dependente da confiança do Presidente da República e sujeito a eventual demissão; Franco era general, chefe de Estado, chefe de governo e comandante supremo das forças armadas, sem qualquer outra instância que o pudesse limitar ou afastar. Os apresentadores descrevem-no mesmo como o último monarca absoluto da Europa Ocidental. A segunda semelhança é a origem militar de ambos os regimes, nascidos de revoltas de oficiais conservadores contra repúblicas de esquerda. A diferença crucial é que em Portugal o golpe de 1926 triunfou sem resistência, ao passo que em Espanha o levantamento de 1936 falhou parcialmente, dividiu o exército e gerou uma guerra civil de três anos, com dezenas de milhar de mortos de ambos os lados. Isso marcou o regime franquista com uma violência fundadora que o salazarismo nunca conheceu, alimentando a ideia portuguesa dos "brandos costumes", por mais relativa que ela seja.
A terceira semelhança é a posição de não beligerância durante a Segunda Guerra Mundial e a integração posterior no bloco ocidental durante a Guerra Fria. Porém, Portugal alinhara com a Inglaterra, sendo admitido no Plano Marshall, na NATO e na EFTA, enquanto a Espanha, associada à Alemanha e à Itália, foi tratada como Estado pária até meados dos anos cinquenta. Paradoxalmente, a partir de 1960, as posições invertem-se: a Espanha de Franco descarta os seus modestos territórios coloniais e apresenta-se como vítima do colonialismo britânico por causa de Gibraltar, enquanto Portugal, com Angola e Moçambique, entra em guerras africanas que o tornam progressivamente isolado na cena internacional. A quarta semelhança é o apoio inicial de republicanos liberais e conservadores, mas Salazar manteve sempre um equilíbrio com esse sector, preservando a forma republicana do Estado, a separação entre Igreja e Estado e eleições regulares, ainda que condicionadas. Franco restaurou a monarquia em teoria, declarou o catolicismo religião oficial e substituiu durante décadas qualquer eleição por um sistema de representação corporativa, só admitindo em 1967 que uma pequena fracção das Cortes pudesse ser eleita por sufrágio directo.
A quinta semelhança é a repressão política e a censura. Mesmo assim, em Portugal havia períodos eleitorais em que a oposição podia apresentar candidatos, fazer campanha e publicar em jornais conotados com a oposição, como o República ou o Diário de Lisboa. Nada de equivalente existia em Espanha, onde acrescia ainda a repressão das identidades regionais bascas e catalãs. A sexta semelhança é o enquadramento, por ambos os regimes, de uma intensa modernização económica e social nos anos cinquenta e sessenta; mas a Espanha atingiu níveis de desenvolvimento claramente superiores, não tanto por influência dos tecnocratas do Opus Dei, sustenta Rui Ramos, mas porque partia já de uma base económica e de alfabetização mais elevada do que Portugal. Em 1973, o PIB per capita português correspondia a apenas 60 por cento do espanhol.
A sétima e última semelhança é a expectativa de transição para a democracia, partilhada por ambas as sociedades à medida que os ditadores envelheciam. A diferença decisiva está no modo como essa transição se concretizou: em Portugal, o impasse colonial retirou ao regime a capacidade de conduzir uma saída ordenada, forçando a ruptura do 25 de Abril de 1974; em Espanha, após a morte de Franco em 1975, a transição fez-se dentro das instituições, de forma negociada, mas com um custo em vidas — devido ao terrorismo da ETA e de grupos de extrema-esquerda — que superou o da Revolução portuguesa. É esta ironia final — a transição "pacífica" espanhola mais sangrenta do que a revolução portuguesa — que os apresentadores deixam como nota conclusiva do episódio.
Personagens
Lugares
Épocas
- século XX
- década de 1920
- década de 1930
- década de 1940
- década de 1950
- década de 1960
- década de 1970
- Estado Novo
- Estado Espanhol
- franquismo
- salazarismo
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- pós-guerra
Temas
- ditadura
- fascismo
- autoritarismo
- guerra civil
- repressão política
- censura
- colonialismo
- descolonização
- catolicismo
- anticlericalismo
- monarquia
- republicanismo
- corporativismo
- desenvolvimentismo
- transição democrática
- terrorismo
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- 18 de Julho de 1936
- 25 de Abril de 1974
- Revolta da Madeira
- Pacto Ibérico
- Plano Marshall
- Concordata de 1940
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Espanhola
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra de Marrocos
Livros citados
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