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Nº 10514 de julho de 20211h00efeméride

Os 85 anos da Guerra Civil Espanhola

Análise aprofundada dos 85 anos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), explorando as causas do conflito - desde os choques sociais da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão até à polarização ideológica dos anos 30. Rui Ramos examina como o golpe militar falhado provocou a divisão do exército e da sociedade espanhola, conduzindo a uma guerra de três anos com meio milhão de mortos. O episódio termina com uma reflexão sobre o impacto profundo da guerra em Portugal, tanto no reforço inicial do Estado Novo como na criação de uma cultura de aversão à guerra civil que influenciou a transição democrática de 1974-75.

Ideias principais

  1. A Guerra Civil Espanhola não resultou de um choque entre modernidade e atraso, mas dos abalos sociais da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão, que polarizaram a política e criaram horizontes de regime para além da democracia parlamentar.
  2. O golpe militar de julho de 1936 falhou porque o exército espanhol se dividiu ao meio, criando duas Espanhas com fronteiras internas, ao contrário de um pronunciamento clássico que teria resultado numa ditadura rápida sem guerra civil.
  3. Ambos os lados recorreram a execuções em massa nos primeiros meses (cerca de 50 mil na zona republicana, 100 mil na nacionalista) para controlar território através do terror, forçando as pessoas a escolherem lado e tornando impossível qualquer reconciliação.
  4. A Alemanha nazi e a União Soviética prolongaram deliberadamente a guerra, fornecendo apoio suficiente para evitar a derrota dos seus aliados mas não a vitória, usando Espanha como campo de experimentação militar e distração geopolítica.
  5. O horror da Guerra Civil Espanhola criou em Portugal uma cultura de aversão ao conflito armado que travou golpes militares durante o Estado Novo e facilitou a contenção durante o PREC, com figuras como Costa Gomes obcecadas em evitar a divisão das Forças Armadas.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a Guerra Civil Espanhola, assinalando os 85 anos do início do conflito, em julho de 1936. A pergunta de partida é dupla: o que explica a explosão de violência que tomou conta da Espanha naquele momento, e de que modo é que esse conflito afetou o regime do Estado Novo português, então com apenas três anos de vida?

Para compreender as causas da guerra, Rui Ramos recua ao impacto que a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão de 1929 tiveram nas sociedades europeias, incluindo a espanhola. Estes dois choques empobreceram as classes médias, intensificaram os conflitos sociais e criaram um clima de desconfiança radical em relação à democracia parlamentar, num momento em que alternativas autoritárias — o comunismo soviético, o fascismo italiano e o nazismo alemão — se apresentavam como modelos viáveis. Em Espanha, esta polarização foi agravada por uma tradição de intervencionismo militar na política, herdada do século XIX, e por eleições extremamente disputadas, nas quais a Frente Popular de esquerda derrotou a coligação de direita por apenas meio ponto percentual, em fevereiro de 1936. Num contexto em que nenhum dos lados acreditava que o adversário respeitaria as regras do jogo democrático, a violência nas ruas foi escalando, culminando no assassínio do líder parlamentar da direita José Calvo Sotelo por membros da polícia do Estado, facto que precipitou o golpe militar de 17 e 18 de julho de 1936.

O golpe, planeado pelo general Emílio Mola e liderado nominalmente pelo general Sanjurjo — que morreria num acidente de aviação —, falhou enquanto pronunciamento clássico porque o exército se dividiu: cerca de 70 mil homens aderiram aos rebeldes, mas mais de 80 mil permaneceram fiéis à República. O resultado foi o surgimento de duas Espanhas com fronteiras internas, consolidadas pelo terror exercido em larga escala de ambos os lados nos primeiros meses do conflito. A guerra internacionalizou-se rapidamente: a União Soviética apoiou os republicanos, a Alemanha nazi e a Itália fascista apoiaram os nacionalistas, e ambas as potências principais tinham interesse em prolongar o conflito, usando-o como instrumento das suas estratégias de expansão na Europa. Do lado republicano, nunca se alcançou unidade real, com comunistas, anarquistas, socialistas e republicanos em permanente tensão — tensão que chegou a guerra aberta em Barcelona em 1937, episódio retratado por George Orwell na sua Homenagem à Catalunha. Do lado nacionalista, a morte dos outros generais de topo permitiu que Francisco Franco emergisse como líder indiscutido, comandando um exército mais pequeno mas profissional e disciplinado, com níveis de inflação e desorganização interna muito inferiores aos da República. A guerra terminou em março e abril de 1939 com a rendição incondicional dos republicanos e a entrada de Franco em Madrid.

Quanto ao impacto em Portugal, os apresentadores identificam dois efeitos distintos. O primeiro foi imediato: Salazar apoiou os nacionalistas, temendo que uma vitória republicana encorajasse ou financiasse a oposição ao Estado Novo. Este alinhamento favoreceu uma radicalização do regime, com a criação da Legião Portuguesa e um reforço temporário dos elementos de inspiração fascista no interior do Estado Novo. O segundo efeito, que Rui Ramos considera o mais duradouro, foi a criação em Portugal de uma memória vívida do horror da guerra civil, partilhada por militares e civis de várias gerações. Essa memória terá funcionado como travão nos momentos de maior tensão política da história portuguesa posterior, nomeadamente na resistência de militares como Costa Gomes a dividir as Forças Armadas durante o PREC de 1974-1975. Para os apresentadores, o facto de Portugal ter atravessado aquele período conturbado sem cair numa guerra civil deve-se, em boa medida, ao espetáculo que os portugueses testemunharam do outro lado da fronteira quarenta anos antes.

Personagens

Lugares

Épocas

  • anos 30
  • século XIX
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Estado Novo
  • PREC
  • 25 de Abril de 1974

Temas

  • guerra civil
  • fascismo
  • comunismo
  • anarquismo
  • ditadura
  • democracia
  • golpe militar
  • violência política
  • internacionalização de conflitos
  • repressão
  • exílio
  • inflação
  • Igreja Católica
  • federalismo
  • centralismo

Eventos

  • Guerra Civil Espanhola
  • eleições de fevereiro de 1936
  • golpe de 17-18 de julho de 1936
  • terror estalinista
  • grandes julgamentos de Moscovo
  • anexação da Checoslováquia
  • invasão japonesa da China
  • Exposição Internacional de Paris 1937
  • massacre de Paracuellos
  • insurreição de outubro de 1934
  • assassinato de José Calvo Sotelo
  • bombardeamento de Guernica
  • guerra civil dentro da guerra civil em Barcelona 1937
  • golpe de março de 1939 em Madrid
  • queda de Madrid
  • abrilada de 1961
  • massacre de Badajoz
  • legalização do Partido Comunista de Espanha 1977

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • invasão japonesa da China

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