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Nº 12317 de novembro de 202159:32efeméride

A guerra do Suez e os 200 anos de Dostoiévski

Episódio dividido em dois temas: a comemoração dos 200 anos do nascimento de Dostoiévski, analisando o seu impacto na cultura europeia do fim do século XIX como precursor do existencialismo e crítico da modernidade liberal; e a Crise do Suez de 1956, que marcou o fim definitivo dos impérios coloniais britânico e francês e a consolidação da hegemonia americana na Europa Ocidental.

Ideias principais

  1. Dostoiévski introduziu na literatura ocidental uma técnica narrativa radicalmente nova, com personagens contraditórias, múltiplas perspectivas e uma sensação de absurdo que antecipou o modernismo e o existencialismo do século XX.
  2. A obra de Dostoiévski colocou a questão fundamental de como viver depois da morte de Deus, criticando tanto a confiança liberal na ciência e na razão como solução para todos os problemas humanos, quanto antecipando os perigos das ideologias totalitárias do século XX.
  3. A lenda do grande inquisidor em Os Irmãos Karamazov revelou o paradoxo entre liberdade e felicidade, sugerindo que as massas preferem a segurança da crença imposta à angústia da liberdade, uma ideia que prenunciou o fascismo e o comunismo.
  4. A Crise do Suez de 1956 foi o momento definitivo em que França e Grã-Bretanha perderam a sua independência estratégica e reconheceram a sua total dependência dos Estados Unidos, acelerando a descolonização africana e o fim dos impérios europeus.
  5. A humilhação do Suez levou França e Grã-Bretanha a caminhos divergentes: a França apostou na União Europeia como forma de recuperar poder, enquanto a Grã-Bretanha optou pela aliança incondicional com os Estados Unidos, divergência que ainda hoje marca a política europeia.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: as comemorações dos duzentos anos do nascimento de Fiódor Dostoiévski e a Guerra do Suez de 1956. Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam ambos os assuntos numa perspectiva histórica, procurando compreender o impacto duradouro de cada um destes acontecimentos ou figuras na cultura e na política europeias.

A primeira parte é dedicada a Dostoiévski, a pedido de um ouvinte. Rui Ramos esclarece desde o início que a abordagem será histórica e não literária: interessa perceber como a obra do escritor russo funcionou como um acontecimento cultural na Europa Ocidental, sobretudo a partir da década de 1880, quando as suas obras começaram a ser traduzidas para francês, alemão e inglês. Dostoiévski pertence à mesma geração de Flaubert e Baudelaire, mas chegou muito mais tarde ao Ocidente, em parte porque a Rússia era vista como um mundo estranho e distante — um império czarista com servidão abolida apenas em 1861, terrorismo político e deportações para a Sibéria, realidades que pareciam medievais aos olhos dos europeus liberais. O próprio Dostoiévski tinha sido condenado à morte em 1849 por actividades revolucionárias, pena comutada no último momento, e passou dez anos na Sibéria, experiências que marcaram profundamente a sua escrita. Rui Ramos destaca que as primeiras traduções ocidentais foram quase reescritas, porque o estilo de Dostoiévski — fragmentado, contraditório, frenético — parecia, aos tradutores da época, mal escrito. Ao contrário dos romances ocidentais do século XIX, assentes num narrador omnisciente que constrói personagens coerentes e tipos reconhecíveis, os romances de Dostoiévski acumulam monólogos, perspectivas múltiplas e personagens profundamente imprevisíveis, gerando no leitor uma sensação de incerteza que nunca se resolve completamente. O próprio Nietzsche, ao descobrir *Notas do Subterrâneo* numa livraria em Nice em 1887, descreveu o encontro como um dos maiores choques intelectuais da sua vida, afirmando que Dostoiévski era o único psicólogo com quem ainda podia aprender. A questão central que Dostoiévski coloca é a de como viver e como fundar a moral depois do fim da crença religiosa — uma pergunta que os liberais do século XIX julgavam já resolvida pela ciência e pela razão, mas à qual Dostoiévski responde com profundo cepticismo. A lenda do Grande Inquisidor, inserida nos *Irmãos Karamazov*, sintetiza esta tensão: o inquisidor explica a Cristo que a liberdade humana é fonte de sofrimento, e que as pessoas precisam de ser condicionadas a acreditar para serem felizes. Para Rui Ramos, esta passagem antecipa o fascínio do século XX pelas ideologias totalitárias — o fascismo e o comunismo —, que prometeram recriar um sentido colectivo para a existência em substituição da religião.

A segunda parte do episódio é dedicada à crise do Suez, que Rui Ramos considera o acontecimento mais determinante para a Europa após a Segunda Guerra Mundial. Em 1956, o coronel egípcio Gamal Abdel Nasser, à frente de um regime nacionalista, nacionalizou o Canal do Suez, por onde passavam dois terços do petróleo consumido pela Europa. Para os governos britânico e francês, liderados por uma geração moldada pela experiência de Hitler, Nasser era uma ameaça análoga que devia ser travada de imediato. O plano que conceberam era rocambolesco: Israel atacaria o Egito, e a França e a Grã-Bretanha interviriam militarmente a pretexto de proteger o canal. Militarmente, a operação correu bem — com perdas mínimas para os ocidentais —, mas diplomaticamente foi um desastre completo. Os Estados Unidos, que não foram consultados, opuseram-se frontalmente: votaram na Assembleia Geral da ONU ao lado da União Soviética contra os seus próprios aliados e exerceram uma pressão financeira devastadora sobre a libra esterlina, forçando a Grã-Bretanha a uma humilhante capitulação em poucos dias. O episódio revelou que a França e a Grã-Bretanha já não tinham capacidade para agir de forma independente no mundo. A demissão do primeiro-ministro britânico Anthony Eden e a aceleração das independências africanas a partir de 1960 foram as consequências imediatas. Porém, as lições retiradas pelos dois países divergiram: a França apostou na construção europeia e na aliança com a Alemanha, enquanto a Grã-Bretanha concluiu que o seu único caminho era o alinhamento permanente com os Estados Unidos — uma divergência que Rui Ramos aponta como estando na raiz de tensões que chegam até ao Brexit.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • década de 1880
  • década de 1890
  • anos 1920 e 1930
  • década de 1860
  • Idade Média
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Temas

  • literatura
  • existencialismo
  • filosofia
  • revolução
  • terrorismo
  • servidão
  • modernização
  • colonialismo
  • imperialismo
  • descolonização
  • nacionalismo
  • liberalismo
  • cristianismo
  • ateísmo
  • ciência
  • moralidade
  • religião
  • fascismo
  • comunismo
  • petróleo
  • diplomacia
  • guerra
  • independência

Eventos

  • 200 anos do nascimento de Dostoiévski
  • Crise do Suez
  • Guerra do Suez
  • Revolução Russa de 1917
  • abolição da servidão na Rússia (1861)
  • assassinato do Czar Alexandre II (1881)
  • Batalha de Dien Bien Phu
  • golpe de Estado no Egito (1952)
  • nacionalização do Canal do Suez (1956)
  • invasão soviética da Hungria (1956)
  • Tratado de Roma (1957)
  • independências africanas (1960)
  • Brexit

Guerras e conflitos

  • Guerra do Suez
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra da Argélia
  • Guerra árabe-israelita de 1948

Livros citados

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