Nº 18418 de janeiro de 202352:15resposta a ouvintes
“Às armas, às armas”: o nosso hino é muito bélico?
Episódio dividido em duas partes: primeiro analisa-se o hino nacional português "A Portuguesa", a sua origem em 1890 no contexto do Ultimato Inglês e o carácter bélico dos hinos nacionais como símbolos de cidadania nos Estados-nação modernos. Na segunda parte, aborda-se a figura de Amilcar Cabral, líder do PAIGC assassinado em 1973, e a complexidade da luta armada pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Ideias principais
- A Portuguesa foi composta em 1890 por Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça no contexto do Ultimato Inglês, como hino patriótico não partidário que os republicanos depois adoptaram, e a letra original sempre foi 'contra os canhões' e não 'contra os bretões'
- Os hinos nacionais bélicos do século XIX e XX reflectem que os Estados-nação se formaram através de conflitos militares e que a cidadania moderna está ligada ao serviço militar e ao sacrifício pela pátria, não sendo apenas um cálculo egoísta de interesses
- Amilcar Cabral era um agrónomo cabo-verdiano que liderou o PAIGC na luta armada pela independência da Guiné e Cabo Verde a partir de 1963, tendo que gerir um xadrez diplomático complexo entre União Soviética, China, Cuba, Senegal e Guiné-Conacri
- A guerra colonial na Guiné era extraordinariamente difícil para ambos os lados, e Portugal jogava vários tabuleiros simultaneamente combinando acção militar com promoção social e tentativas de negociação, incluindo com o próprio Amilcar Cabral
- O assassinato de Amilcar Cabral em Janeiro de 1973 por militares guineenses do PAIGC resulta provavelmente de um conjunto de causas - descontentamento com o arrastar da guerra, ressentimento étnico entre guineenses e cabo-verdianos, e possíveis manipulações portuguesas ou de Sékou Touré
Resumo do episódio
O episódio 184 de *E o Resto é História* parte de uma sugestão do músico Dino Santiago, feita nas comemorações dos 50 anos do jornal *Expresso*, de que a letra do hino nacional português devia ser alterada por ser demasiado bélica. A partir daí, dois ouvintes enviaram perguntas concretas: se é verdade que o hino terá sido oferecido ao filho de D. Miguel, e se a expressão "contra os bretões" teria precedido o atual "contra os canhões". Rui Ramos responde a ambas: são falsas ou, pelo menos, sem suporte documental. O arquivo de Alfredo Keil mostra que a letra de Henrique Lopes de Mendonça sempre teve "canhões" e nunca "bretões", e não há qualquer indício de que o hino tenha sido alguma vez apresentado ao pretendente miguelista.
O hino nasceu no contexto do Ultimato Britânico de janeiro de 1890, quando o Reino Unido exigiu a Portugal que abandonasse as pretensões a territórios no centro de África entre Angola e Moçambique. A comoção popular que se seguiu gerou vários hinos patrióticos cantados nos teatros de Lisboa; o de Keil e Lopes de Mendonça foi o que "pegou". Não era um hino republicano nem monárquico: era patriótico, e só mais tarde os republicanos o adoptaram sem o consentimento dos autores.
Rui Ramos contextualiza depois o carácter bélico do hino numa tradição muito mais ampla. A Marselhesa, hino da República Francesa, foi composta como marcha de guerra para o exército do Reno em 1792 e a sua letra é consideravelmente mais sanguinária do que a portuguesa. O hino americano celebra igualmente um acontecimento militar. A explicação estrutural é que os Estados-nação dos séculos XIX e XX se formaram quase todos através de conflitos armados, e a simbologia militar ficou associada à própria ideia de cidadania: o cidadão não era apenas eleitor, mas também soldado, com a obrigação e o direito de defender a pátria. Esta ligação entre cidadão e soldado remetia, aliás, para o modelo das cidades gregas. Nas últimas décadas do século XX, com o fim da Guerra Fria, o "guarda-chuva" nuclear americano e a integração europeia, esta dimensão foi considerada obsoleta e o serviço militar obrigatório foi sendo abandonado na Europa Ocidental. A guerra na Ucrânia veio, porém, relembrar que a ideia de uma comunidade de destino que exige sacrifício não é necessariamente uma peça de museu — e que talvez seja mais urgente rever a interpretação da história do que a letra do hino.
A segunda parte do episódio é dedicada a Amílcar Cabral, assassinado em Conacri a 20 de janeiro de 1973, há cinquenta anos. Rui Ramos traça o perfil de Cabral — agrónomo cabo-verdiano formado em Portugal, líder do PAIGC — e explica a lógica da ligação entre Guiné e Cabo Verde: os cabo-verdianos constituíam grande parte do corpo administrativo português na Guiné, e Cabo Verde era uma colónia de povoamento com raízes no século XVI e uma população muito europeizada. A guerra de guerrilha começou na Guiné em janeiro de 1963, nunca em Cabo Verde, e Cabral apostou na luta armada por várias razões: ela conferia representatividade sem necessidade de eleições, permitia "forjar" uma nação a partir de uma população extremamente diversificada etnicamente, e servia os objectivos de transformação social de inspiração marxista que Cabral e a maioria dos independentistas africanos da época partilhavam.
O panorama era, porém, muito mais complexo do que a narrativa habitual sugere. Portugal adaptou a sua estratégia com habilidade, especialmente após a nomeação do general Spínola para a Guiné em 1968, combinando investimento em infraestruturas, formação de tropas locais e contactos diplomáticos com o PAIGC. O próprio Cabral mantinha canais de negociação com os portugueses, e Marcelo Caetano tinha enviado diplomatas a Londres para negociar antes do 25 de Abril. Por outro lado, o PAIGC dependia de bases no Senegal e na Guiné-Conacri, cujos líderes tinham interesses conflituantes, e internamente havia tensões sérias entre dirigentes cabo-verdianos e combatentes guineenses. Ao fim de dez anos de guerra sem grandes vitórias militares, o cansaço era mútuo. É neste ambiente de desgaste e de rivalidades internas que Rui Ramos situa o assassinato de Cabral pelos seus próprios companheiros, provavelmente motivado por uma combinação de descontentamento interno, influência de Sékou Touré e eventuais contactos com os portugueses. A morte prematura poupou Cabral aos fracassos da governação pós-independência e facilitou a sua mitificação — embora ele tenha sido, na verdade, uma das primeiras vítimas dos conflitos que depois mergulhariam a Guiné-Bissau numa instabilidade que dura até hoje.
Personagens
- Dino Santiago
- Alfredo Keil
- Henrique Lopes de Mendonça
- D. Miguel II
- D. Luís I
- D. Carlos I
- Guerra Junqueiro
- Roger de Lisle
- Amilcar Cabral
- Salazar
- Marcelo Caetano
- António de Spínola
- Leopoldo Senghor
- Sékou Touré
- Nino Vieira
Lugares
Épocas
- século XIX
- século XX
- anos 1880
- 1890
- 1911
- anos 1940
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
- 1973
- 1974
- Guerra Fria
- pós-Segunda Guerra Mundial
Temas
- hinos nacionais
- simbolismo político
- nacionalismo
- militarismo
- cidadania
- colonialismo
- guerra colonial
- independência africana
- guerra de guerrilha
- marxismo
- diplomacia
- descolonização
- ditadura
- Estado Novo
Eventos
- Ultimato Inglês de 1890
- 25 de Abril de 1974
- Operação Mar Verde
- fim da Guerra Fria
- integração europeia
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra de Independência da Guiné-Bissau
- Guerra da Argélia
- Guerra do Vietname
- Guerra de Independência da Grécia
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