Nº 26904 de setembro de 202448:20resposta a ouvintes
Cartistas e Setembristas na Guerra da Patuleia
Análise detalhada da Guerra da Patuleia (1846-1847), conflito entre liberais conservadores (cartistas) e liberais radicais (setembristas) em Portugal. A guerra teve origem na queda do governo de Costa Cabral após a Revolta da Maria da Fonte e a subsequente Emboscada de outubro de 1846. O episódio explora as divisões ideológicas sobre o papel da monarquia, a intervenção estrangeira que terminou o conflito, e como esta guerra impediu Portugal de participar na Primavera dos Povos de 1848.
Ideias principais
- A Guerra da Patuleia opôs liberais conservadores (cartistas), que defendiam uma monarquia forte com parlamento bicameral e sufrágio restrito, a liberais radicais (setembristas), que queriam um parlamento unicameral com mais poder e sufrágio alargado, ambos recrutando das mesmas classes sociais.
- Costa Cabral era uma figura central e polarizadora da política portuguesa dos anos 1840, acusado de corrupção e nepotismo, cuja personalidade agressiva transformou a divisão política de cartistas-setembristas numa luta entre cabralistas e anticabralistas.
- A entrada dos miguelistas (absolutistas) ao lado dos setembristas (radicais democráticos) criou uma aliança paradoxal dos dois extremos contra os liberais conservadores, permitindo ao governo de Lisboa invocar a Quadrupla Aliança de 1834 e obter intervenção militar britânica e espanhola.
- A Inglaterra interveio não para apoiar incondicionalmente os cartistas, mas para evitar que a Espanha interviesse sozinha e colocasse Portugal na esfera de influência francesa, forçando depois a amnistia dos setembristas e a moderação do governo.
- A derrota militar da esquerda radical em 1847, por intervenção externa, explica por que Portugal não teve revolução republicana em 1848 durante a Primavera dos Povos que abalou quase toda a Europa, constituindo um efeito histórico decisivo da Guerra da Patuleia.
Resumo do episódio
## A Guerra da Patuleia: Cartistas, Setembristas e o Turbulento Portugal de 1846-1847
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem à sugestão de um ouvinte e mergulham na Guerra da Patuleia, o conflito civil que dividiu Portugal entre o final de 1846 e meados de 1847. O ponto de partida é uma pergunta simples: o que foi afinal esta guerra, de que todos já ouviram falar mas poucos sabem explicar? Para chegar aos tiros, é preciso primeiro compreender as ideias e as personalidades que os antecederam.
O conflito opôs cartistas a setembristas, designações que remetem para duas visões distintas do liberalismo. Os cartistas defendiam a Carta Constitucional de 1826, um modelo em que o rei desempenhava um papel activo na governação, o parlamento era bicameral e o sufrágio era restrito e indirecto. Os setembristas tinham como referência a Constituição de 1822, que concentrava o poder numa câmara única de deputados eleita de forma mais directa e por um eleitorado mais alargado, reduzindo o monarca a uma função essencialmente honorária. Rui Ramos sublinha que esta divisão não correspondia a diferenças de classe social — havia aristocratas, burgueses e populares dos dois lados —, contrariando uma interpretação marxista que durante décadas dominou a historiografia. As duas correntes recrutavam nos mesmos meios, e o que as separava era, antes de mais, uma divergência ideológica com raízes nos anos vinte do século XIX.
A esta divisão estrutural sobrepôs-se um segundo factor decisivo: a personalidade de António Bernardo da Costa Cabral, o homem forte do governo entre 1842 e 1846. Costa Cabral — que curiosamente começara como setembrista radical antes de se converter ao cartismo — era um político de estilo agressivo, acusado de corrupção e de nepotismo, rodeado dos seus irmãos em cargos do Estado. O seu domínio foi tão absorvente que a clivagem política deixou de ser apenas entre cartistas e setembristas para passar a ser entre cabralistas e todos os outros, incluindo cartistas descontentes. Foi precisamente uma revolta popular, a da Maria da Fonte, na primavera de 1846, que o derrubou. Essa revolta reflectia um terceiro factor: a resistência das populações rurais do Norte ao Estado moderno que Costa Cabral tentava implantar, com impostos sobre a propriedade e a proibição de enterrar os mortos nas igrejas. Quando o governo do Duque de Palmela, que sucedeu a Costa Cabral tentando uma política de conciliação, foi por sua vez afastado pela Rainha D. Maria II em Outubro de 1846, os setembristas interpretaram a chegada do general Saldanha à chefia do executivo como o regresso dos cabrais — e declararam guerra.
Portugal ficou então com dois governos: o de Lisboa, apoiado pela rainha e liderado militarmente por Saldanha; e a Junta do Porto, presidida pelo Conde das Antas mas dirigida na prática por José Passos. Cada um tinha o seu exército, as suas finanças e as suas alfândegas. A guerra reproduzia, de certo modo, a geografia da anterior guerra civil de 1832-34, com Lisboa e o Porto como capitais rivais. Rui Ramos chama a atenção para um paradoxo revelador: nenhum dos dois lados queria realmente destruir o adversário, pois uma vitória militar completa tornaria cada chefe excessivamente dependente dos extremistas do seu próprio campo. Daí que os exércitos permanecessem meses imóveis, para frustração geral.
Personagens
- Duarte Azevedo
- D. Maria II
- Duque de Palmela
- António Bernardo da Costa Cabral
- Duque de Saldanha
- D. Miguel
- Marquês de Loulé
- Marquês de Valada
- Passos Manuel
- José Passos
- Conde das Antas
- D. Fernando II
- Leopoldo I da Bélgica
- General Póvoas
- General MacDonald
- D. Pedro V
- Maria da Fonte
- Maria de Fátima Bonifácio
Lugares
Épocas
- século XIX
- 1846-1847
- 1828-1834
- anos 1820
- 1836
- 1842
- 1848
Temas
- guerra civil
- liberalismo
- monarquia constitucional
- absolutismo
- revolução
- conservadorismo
- radicalismo político
- intervenção estrangeira
- corrupção política
- impostos
- saúde pública
- guerrilha
- democracia
- republicanismo
- maçonaria
Eventos
- Guerra da Patuleia
- Revolta da Maria da Fonte
- Emboscada
- Revolução de Setembro de 1836
- Batalha de Torres Vedras
- Primavera dos Povos de 1848
- Quadrupla Aliança de 1834
Guerras e conflitos
- Guerra da Patuleia
- Guerra Civil de 1828-1834
- Guerra Civil de 1832-1834
- Guerra Civil de 1837
- Guerra Civil de 1846-1847
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