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Nº 27623 de outubro de 202458:00análise histórica

Caso Dreyfus: antisemitismo na França do séc. XIX

O episódio analisa o Caso Dreyfus (1894-1906), quando o capitão judeu Alfred Dreyfus foi injustamente condenado por espionagem em França, num processo baseado em provas falsificadas. O caso dividiu profundamente a sociedade francesa entre dreyfusards e anti-dreyfusards, cristalizando novas identidades políticas de esquerda e direita, impulsionando o movimento sionista de Theodor Herzl, e resultando na separação entre Igreja e Estado em 1905.

Ideias principais

  1. O Caso Dreyfus não foi inicialmente uma divisão esquerda-direita: em 1894 radicais de esquerda exigiam a pena de morte para Dreyfus, e o seu advogado era um católico conservador.
  2. A politização do caso serviu estratégias de poder tanto de nacionalistas à direita como de radicais à esquerda, que usaram o affaire para destronar os republicanos moderados e dominar os seus campos políticos respectivos.
  3. O antissemitismo em França era primariamente ideológico, não social: havia apenas 80 mil judeus em 38 milhões de habitantes, sem guetos nem pogroms, mas serviu de arma política tanto à direita (judeus como estrangeiros) como à esquerda radical (judeus como capitalistas).
  4. O caso transformou a cultura política europeia ao fazer das posições políticas questões identitárias: as pessoas escolhiam o seu lado no caso por serem 'de esquerda' ou 'de direita', independentemente das provas, invertendo a lógica de formar opiniões com base em evidências.
  5. Theodor Herzl, jornalista que cobriu o caso, concluiu que mesmo nas democracias liberais os judeus nunca teriam segurança, levando-o a organizar o primeiro congresso sionista em 1897 e lançar as bases para a fundação do Estado de Israel.

Resumo do episódio

O episódio 276 de *E o Resto é História* é dedicado ao caso Dreyfus, um dos escândalos judiciários e políticos mais marcantes do final do século XIX, cujo 130.º aniversário serve de mote para a conversa entre Rui Ramos e João Miguel Tavares. O ponto de partida é simples: como é que a prisão de um capitão do exército francês completamente desconhecido se transformou num caso europeu de enorme repercussão?

Para responder a essa pergunta, Rui Ramos começa por contextualizar a situação política da França na época. A Terceira República Francesa, proclamada em 1870 após a derrota perante a Prússia, era inicialmente governada por monárquicos que não se entendiam entre si sobre qual a família que devia reinar. Só a partir de 1877 os republicanos assumiram verdadeiramente o poder, mas eram republicanos moderados, conscientes de que governavam um país com uma maioria conservadora. Esta moderação gerava tensão com duas forças opostas: a extrema-esquerda radical, anticlerical e favorável a uma guerra de vingança contra a Alemanha, e a direita monárquica, que aguardava uma oportunidade para restaurar a monarquia. Da convergência entre estas duas correntes nasceu um novo movimento político, o nacionalismo, que acusava os republicanos moderados de serem cúmplices dos estrangeiros e dos judeus. Os escândalos financeiros da década de 1890, em particular o caso do Panamá, alimentaram ainda mais esta narrativa de corrupção e traição.

É neste ambiente que, em finais de 1894, o capitão Alfred Dreyfus, alsaciano e judeu, é acusado de ter entregue documentos secretos à Alemanha com base numa carta manuscrita encontrada no cesto de papéis da embaixada alemã em Paris, através de uma agente infiltrada como senhora das limpezas. A identificação da letra como sendo de Dreyfus foi precipitada e assente em suspeitas que misturavam a sua origem alsaciana com a sua personalidade considerada arrogante pelos colegas. Julgado por um tribunal militar em sessão fechada, sem que a defesa tivesse acesso à totalidade das provas, foi condenado a prisão perpétua e enviado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde permaneceu em isolamento absoluto. O major Henri, figura central dos serviços de espionagem, chegou a jurar perante o júri a culpa de Dreyfus sem apresentar justificação, invocando o segredo de Estado.

A viragem começa por volta de 1896, quando o tenente-coronel Georges Picquart, novo chefe da espionagem francesa e ele próprio antissemita, percebe que as provas contra Dreyfus eram falsas e que a caligrafia do famoso bordereau correspondia à de outro oficial, o major Esterhazy, endividado e com todas as características de alguém capaz de vender segredos. Picquart é rapidamente afastado e enviado para o norte de África, mas a informação espalha-se nos meios literários e políticos. É então que Émile Zola, o mais célebre escritor francês da época, decide intervir com a carta aberta *J'accuse*, publicada em Janeiro de 1898 no jornal *L'Aurore*, onde nomeia os responsáveis pela injustiça e os acusa publicamente, sabendo que seria processado e contando precisamente com isso para forçar um novo debate público. O texto provoca um escândalo enorme, reúne assinaturas de intelectuais como Anatole France e o jovem Marcel Proust, mas Zola acaba por ser condenado e obrigado a fugir para Inglaterra.

O caso torna-se então um instrumento de polarização política. Os nacionalistas de direita solidarizam-se com a hierarquia militar para dela tirarem partido, enquanto a esquerda radical abraça a causa dreyfusard por antimilitarismo e anticlericalismo, vendo no affaire uma oportunidade para afastar os moderados do poder. Em 1899, Dreyfus é julgado novamente em Rennes e, apesar de Esterhazy ter entretanto confessado ser o verdadeiro espião e de o major Henri ter admitido ter forjado documentos antes de se suicidar na prisão, é condenado outra vez. O governo republicano moderado acaba por lhe conceder um perdão presidencial, mas Dreyfus nunca aceitou o perdão como substituto da inocência. Só em 1906, um tribunal civil o ilibou definitivamente e foi reintegrado no exército, tendo combatido na Primeira Guerra Mundial e atingido o posto de coronel.

Personagens

Lugares

Épocas

  • século XIX
  • década de 1890
  • Terceira República Francesa
  • Primeira Guerra Mundial

Temas

  • antissemitismo
  • justiça militar
  • espionagem
  • nacionalismo
  • antimilitarismo
  • anticlericalismo
  • separação Igreja-Estado
  • liberdade de consciência
  • direitos humanos
  • cultura política
  • imprensa
  • intellectual
  • sionismo

Eventos

  • Caso Dreyfus
  • degradação de Dreyfus
  • J'accuse
  • fundação da Action Française
  • Bloco das Esquerdas
  • separação Igreja-Estado 1905
  • affaire des Fiches
  • primeiro congresso sionista
  • guerra Franco-Prussiana 1870
  • affaire do Panamá

Guerras e conflitos

  • guerra Franco-Prussiana
  • Primeira Guerra Mundial

Livros citados

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